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FAQ Feminista

Algumas respostas para as questões mais frequentes direcionadas às feministas sobre os direitos das mulheres. Por Aline Valek
por Aline Valek publicado 12/11/2014 15h59, última modificação 12/11/2014 16h18
Escritório Feminista
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Ser feminista é um trabalho de Sísifo. Você escreve, explica, tenta evoluir o debate, daqui a pouco tem que fazer TUDO DE NOVO. Do zero. Porque sempre vai aparecer algum indivíduo no tabuleiro da vida que vai fazer você voltar 20 casas e ficar uma rodada sem jogar para explicar coisas óbvias que você já explicou trocentas vezes antes. Cansa. Dá rugas.

Aí a pessoa não entende por que você não teve paciência com ela. Porque essa pessoa geralmente acredita que ela foi a primeira a cruzar o seu caminho com aquele argumento asno e aí fica pensando que ela é especial e merece a sua atenção. Coitada.

Como minha paciência esgotou há muito tempo, resolvi escrever as respostas para as questões que eu mais ouço nesse mundão véio sem porteira quando o assunto é feminismo. Para facilitar, né? Se alguém aparecer repetindo qualquer um desses argumentos, dou um ctrl+c ctrl+v para responder. Sinta-se à vontade para fazer o mesmo.

Oi. Essa comparação é tão sem pé nem cabeça quanto dizer “não sou nem flamenguista nem dentista”. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e está na hora de aprender o que é cada uma delas.

Machismo é uma cultura de dominação que oprime especialmente as mulheres, que nega a elas humanidade, que as trata como inferiores e incapazes. Feminismo é um movimento de pessoas que lutam contra essa opressão e a favor de um mundo mais justo e igualitário para todas e todos.

Feminismo é sobre liberdade, sobre escolha, sobre respeito. Se você acha que mulheres devem ser tratadas como seres humanos e ter os mesmos direitos dos homens, parabéns, você é feminista. Juro, é só isso. Não tem letras miúdas.

A Clara Averbuck explicou isso muito melhor. Mais claro que isso, nem desenhando.

Inclusive os paraquedistas, os trapezistas, os ciclistas, os economistas (ah, os economistas!), os fisiculturistas, os autistas, os turistas, os massagistas, os baristas, os malabaristas… Todos esses “istas” são um perigo para a sociedade. Ah, não fode. (Acabou de ganhar um passaporte grátis de volta para o tópico 1 desta lista).

‘Xô te dizer o que é sexista: se incomodar com um nome só porque ele faz referência a algo feminino. Porque temos todo um idioma contaminado pelo machismo, com palavras depreciativas exclusivas para mulheres e com o masculino como norma, mas isso não parece incomodar muita gente, né? Aí você vem dizer que o nome de um movimento de MULHERES pelo fim da opressão contra MULHERES não deveria se chamar feminismo?

Essa implicância é só mais um reflexo do machismo: ficar incomodado quando mulheres ganham evidência, mesmo quando é em um pedacinho da palavra. Quer dizer, a gente já luta por espaço na política, no trabalho, na sociedade… e tem que lutar pelo nosso espaço até em uma palavra. Isso só mostra o quanto o feminismo é necessário – e faz todo sentido se chamar “feminismo”. Lide com isso.

Para finalizar, feminismo não se chama Humanismo pelo mesmo motivo que não se chama pão de queijo ou Hello Kitty: porque é OUTRA coisa. Humanismo é uma doutrina filosófica centrada no ser humano, em oposição ao sobrenatural, a deus e a metafísica. Então vamos deixar de ser tontos e parar de querer chamar bicicleta de pterodáctilo? Vamos.

Coisas como ganhar salários iguais, ter autonomia sobre o próprio corpo e não ser desumanizada em cada canto desse planeta realmente são privilégios. Mas sabe por que são privilégios? Porque só um gênero tem. Queremos os mesmos direitos que qualquer ser humano merece; se isso te parece “demais”, é porque quem tem privilégios demais é você.

Não lutamos pelo alistamento obrigatório porque é uma ideia imbecil. Por que alguém com algum bom senso lutaria para ser obrigado a fazer alguma coisa, meu deus? É muito mais sensato lutar pelo alistamento voluntário para AMBOS os gêneros e brigar para que as mulheres que queiram entrar na carreira militar consigam. É, porque é muito difícil para as mulheres terem uma carreira em uma instituição tão machista quanto as Forças Armadas. Se para você a questão militar é tão importante, você deveria comprar a briga dessas mulheres. Just saying.

Onde estão afinal essas feministas que tanto odeiam os homens? Hoje, no History Channel, logo após “Alienígenas do Passado”. O programa vai trazer depoimentos inéditos: “fui abduzido por uma feminista que odeia homens! Elas existem, juro!”, diz o cara que odeia feministas.

Um especialista descobriu como encontrá-las e conta para a gente: se você disser três vezes na frente do espelho “misandria, misandria, misandria”, uma feminista que odeia homens aparece para você.

O programa também entrevistou transeuntes. Feministas que odeiam homens: você acredita? “Olha, acho que não dá para provar que elas existem, mas também não dá para provar que não existem.” Imperdível.

Desconfio que Valerie Solanas é referência em feminismo somente para aqueles que odeiam o feminismo. Porque, sinceramente, o resto das feministas está cagando pra ela. Mas sabe o que é o mais engraçado disso tudo? Se incomodarem tanto com um manifesto odioso escrito por uma suposta feminista que nem está mais viva, que só é conhecida por anti-feministas, que nem é levada a sério pela maioria das feministas que atuam hoje em dia, enquanto não se importam nem um pouco com um “SCUM Manifesto” contra as mulheres que é recitado e colocado em prática todos os dias, em todos os cantos desse planeta e que tem matado mulheres de verdade. Sim, existe um “SCUM Manifesto” contra mulheres e ele se chama… mundo. Bem-vindo à realidade.

Porque você já viu os preços nos salões de beleza? Estão pela hora da morte! Brincadeira. Não é nada disso. Feminismo não é revista feminina que tem regrinhas sobre como devemos nos vestir, o que devemos fazer, o que não podemos fazer e outras 1001 “dicas” para agradar seu homem. Aliás, o feminismo quer justamente pegar todas essas regrinhas, picotar em mil pedacinhos, jogar no chão e sambar em cima. Depilar, fazer as unhas, alisar o cabelo, usar salto alto e essas coisas que definiram como “femininas”, nada disso deve ser feito por obrigação. Depila quem quer. Uma feminista não se define pela quantidade de pelos que tem no corpo. Se ainda tem dúvidas do que é feminismo, volte para o tópico 1.

Cê jura? Eu nunca iria imaginar que um sistema opressor tão profundamente arraigado na nossa sociedade pudesse ser internalizado e reproduzido justamente por suas vítimas. Falando sério: o fato de existirem mulheres endossando o machismo NÃO É licença para você ser machista. Você é obrigado a pisar em alguém só porque essa pessoa voluntariamente se deitou no chão? Aliás, o fato de existirem mulheres endossando o machismo só reforça a importância e a urgência do feminismo.

Feminismo não é um livro de regrinhas que impede você de fazer coisas legais. O nome disso é cristianismo, feminismo é OUTRA coisa. O feminismo quer quebrar todos esses padrões que aprisionam as mulheres, inclusive em relação ao próprio corpo. Mulheres que percebem que podem amar o próprio corpo, que podem ter muito prazer no sexo e não apenas fazer sexo para dar prazer ao homem, que se despem do moralismo e da vergonha que tentam colocar sobre o sexo, não só dão de quatro, como dão de cinco, de seis, de quadradinho de oito, gozam e fazem coisas inimagináveis para essa sua cabecinha formatada pelo pornô mainstream que nem é sexo de verdade. Ou seja: feministas fodem bem melhor.

Deve ser porque você só conhece as feministas da sua cabeça. Além disso, mulher nenhuma, sendo feminista ou não, tem obrigação de ser bonita. Não somos objetos decorativos, sabe? E já que tocou no assunto, você nem é lá essas coisas, querido.

Ninguém defende o aborto. O que se defende é que o aborto seja descriminalizado para salvar a vida de mulheres que fazem na ilegalidade e MORREM. Ser contra a descriminalização do aborto legal e seguro é condenar mulheres à morte, especialmente mulheres pobres e negras.

Trazer uma questão de saúde pública para o nível de ser “contra ou a favor” do aborto é ficar na parte rasa do debate. Aliás, não interessa se eu sou pessoalmente contra ou a favor do aborto. A minha opinião pessoal e minhas crenças não deveriam nortear as leis. Porque eu sou contra babacas, mas nem por isso o governo está criando leis para impedir as pessoas de serem. Inclusive, tem gente por aí sendo babaca sem vergonha nenhuma.

É contra o aborto? Nunca faria um? Ótimo, não faça. O corpo é seu e ninguém deve te forçar a fazer qualquer coisa que você não queira (aliás, o aborto ser descriminalizado não significa que se tornará obrigatório, ok?). O quê? Você é homem e por isso não pode engravidar nem precisaria abortar? Então por que RAIOS você acha que sua opinião sobre um corpo que não é o seu conta? Vai plantar batata e tira a sua opinião do meu útero. ‘Brigadinha.

Não sei se você sabe, mas o aborto JÁ É crime, exceto em casos de estupro, risco de vida para a mãe e fetos anencéfalos, e isso NÃO ESTÁ adiantando para reduzir o número de abortos. As mulheres não vão parar de abortar, mas se o aborto continuar ilegal, elas não vão parar de morrer.

Sei que dava para fazer um FAQ inteiro só sobre essa questão, mas é o que temos para hoje. A Feminsta Cansada (tão cansada quanto eu) e a Clara Averbuck já escreveram bem melhor sobre isso, fiquem também com as palavras delas.

Para muita gente, querer se igualar aos homens no que eles têm de pior é… transar com quem bem entender. Mas aí vai uma novidade: mulher gosta de sexo tanto quanto homem. Queremos poder viver isso sem que nos julguem como vadias, da mesma forma que os homens não são julgados. Aliás, nem existem palavras o suficiente para condenar homens que fazem sexo. Acredito que uma sociedade é bem melhor quando homens e mulheres podem fazer sexo livremente. Desde que tenha consentimento, segurança e seja gostoso, qual é o problema?

Ao meu ver, o que os homens têm de pior é justamente um sistema opressor a favor deles. O que os homens têm de pior é saber que são amparados por esse sistema (que, felizmente, nem todos endossam) para poderem agredir mulheres, estuprar mulheres, intimidar mulheres e calar mulheres. Então não, não queremos nos igualar ao que os homens têm verdadeiramente de pior. Queremos explodir esse “pior”. Com uma bazuca.

Sim. O pau não cai, se é esse o seu medo (aliás, pau nem é requisito para ser homem, sabia?). Inclusive, homens feministas fodem bem melhor (faz uma visitinha no tópico 10). Mas a primeira lição que o homem feminista aprende é: ouça as mulheres e respeite o seu espaço. Achar que pode dizer às mulheres como elas devem atuar no feminismo é um tanto machista. Quer ser feminista? Ótimo. Em vez de ficar chorando para ter espaço entre as feministas, você pode usar os espaços masculinos que você já frequenta para combater o machismo e ensinar a mais homens sobre como o feminismo é foda.

Eu aprendi sobre o feminismo na internet. É grátis, é prático, é jovem. Para começar, você pode acompanhar os blogs da Lola, da Nádia, da Clara, da Feminista Cansada, das Blogueiras Feministas, das Blogueiras Negras, do Diogo e da Gizelli, que além de ter textos excelentes também fez uma lista com vários outros textos e blogs bacanas. Sirva-se! A Anita Sarkeesian tem uns vídeos excelentes (e legendados), o Alex Castro tem um texto bem didático sobre o assunto, e se você busca munição teórica, a Lola indicou uma pá de livros feministas aqui. Informação é o que não falta. Espero que boa vontade da sua parte também não.

*Publicado originalmente no Blog da Aline Valek

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