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Política

Operação Lava Jato

O delator, a nora de Lula e uma história mal contada

por Henrique Beirangê publicado 21/10/2015 19h01, última modificação 05/11/2015 18h07
A delação de Fernando Baiano deixa mais dúvidas do que certezas
Ricardo Stuckert / Instituto Lula

Não cabe à imprensa advogar em nome de ninguém, mas também é necessário o exercício da honestidade intelectual para se aproximar da veracidade dos fatos.

Se o ex-presidente Lula foi o “grande chefe do esquema” como parte da imprensa deseja, que seja preso, assim como todos que se beneficiaram do saque a Petrobras, investigado pela Operação Lava JatoAté o momento, no entanto, não há nenhuma prova concreta da materialidade do seu envolvimento.

Não foi encontrada no nome de Lula nenhuma conta na Suíça, como ocorreu com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Também não foram identificados pagamentos diretos como para o senador Fernando Collor (PTB-AL) ou para o ex-deputado petista André Vargas (PR).

O Estado Democrático de Direito se consolida quando a lei é aplicada com isonomia para todos, independentemente do posto e da coloração partidária ocupados. Mas, em nome da busca pela “verdade”, a imprensa tem o dever de entregar à sociedade a informação sem sensacionalismo, mesmo que pressionada pelo afã do “furo jornalístico”.

O depoimento do lobista Fernando Soares, o Baiano, foi divulgado por toda a imprensa mostrando a revelação de um suposto pagamento de 2 milhões de reais a uma nora de Lula, sugerindo o envolvimento do ex-presidente no esquema Petrobras. O depoimento traz uma confusão entre alhos e bugalhos, entretanto, reforçada pelo fato de que boa parte dos leitores para de ler no primeiro parágrafo da notícia, quando não leem apenas o título da matéria.

Assim, a história ficou apresentada de forma enviesada.

A informação é baseada no termo de delação 15, concedido à Procuradoria-Geral da República. A íntegra do texto pode ser lida, mas, resumindo-se: Lula teria intercedido em uma concorrência de aquisição de navios sondas para a Sete Brasil, empresa que tem entre seus investidores a Petrobras, para que a OSX, de Eike Batista, levasse o contrato. Baiano, representante dos interesses da OSX, conta que procurou o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, para que ele interviesse na compra dos navios.

Como o próprio Baiano afirma, Bumlai e o presidente da Sete Brasil, José Carlos Ferraz, teriam procurado Lula para que a OSX levasse os contratos. 

Cabe lembrar também que empresa de Eike não ganhou a concorrência e ficou de fora das compras. Então, se OSX não ganhou nenhum centavo com a aproximação com Lula, por qual motivo, razão ou circunstância a nora de Lula receberia dinheiro de Bumlai?

Baiano disse que Bumlai afirmou a necessidade de 3 milhões de reais como adiantamento da comissão do futuro contrato (que acabou não sendo firmado) para saldar uma dívida com a nora de Lula. Baiano deu o dinheiro, na confiança (na verdade pouco menos de 2 milhões de reais), mas não ganhou nada com a aproximação de Bumlai. Tanto é que Baiano sentiu ter "levado um cano". Assim, procurou o pecuarista para pegar o dinheiro de volta, mas nunca viu um centavo por conta da aproximação com Lula.

Diante desta confusa história, fica claro que, se o presidente esteve envolvido na fraude da estatal, ainda há muito a ser investigado. É importante que se vá, mesmo, até as últimas consequências.

Cabe notar, também, que pagar propina por um serviço que nunca foi entregue, no entanto, não faz o mínimo de sentido.

Em São Paulo, temos o testemunho de casos como o da fraude do Metrô, nos quais ninguém foi preso, não houve delações premiadas e todos gozam da mais plena impunidade. Ainda assim, se a República tiver de ser passada a limpo, mesmo que seletivamente, que façamos isso fundamentados na verdade dos fatos e não em falsas manchetes plantadas por uma parcela da imprensa que se porta de maneira partidária.