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Política

Corrupção

MP denuncia ex-braço direito de Serra em esquema na Dersa

por Henrique Beirangê publicado 17/05/2016 17h57
Paulo Preto é apontado como responsável por fraudes nas desapropriações no trecho sul do Rodoanel. Estado pagou cerca de 90 milhões por áreas rurais
Rodrigo Capote / Folhapress

O ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido com Paulo Preto, foi denunciado pelo Ministério Público como mentor de um esquema de desvios de recursos públicos durante as obras do trecho sul do Rodoanel. Como CartaCapital havia divulgado com exclusividade em novembro do ano passado, Paulo Preto teria incluído nomes de funcionários entre os beneficiários de desapropriações e facilitado o pagamento para outras pessoas que nunca moraram na região. 

As desapropriações custaram ao menos 90 milhões de reais. A denúncia ainda precisa ser aceita pela Justiça para que ele e os demais investigados se tornem réus. A defesa de Souza afirma que ele é inocente e o PSDB diz que espera a punição dos envolvidos. 

Durante as eleições de 2010, um nome até então desconhecido ganhou notoriedade por conta de um debate entre os candidatos Dilma Rousseff e José Serra. Na ocasião, a petista perguntou ao tucano sobre sua relação com Paulo Vieira de Souza, vulgo Paulo Preto.

Dilma queria saber a respeito de um suposto desaparecimento de 4 milhões de reais da campanha de Serra por obra do correligionário.

Serra “tergiversou”, nas palavras de Dilma. Primeiro disse que não conhecia Souza. Depois valeu-se de um contra-ataque pífio: acusou a adversária de racismo por chamá-lo de Paulo Preto no debate.

O próprio Paulo Preto parece ter se incomodado menos com a menção a seu apelido do que com o descaso de Serra. Em entrevista à Folha de S.Paulo, fez uma ameaça velada. “Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro.”

Cinco anos depois, Souza volta aos holofotes por conta de uma investigação do Ministério Público de São Paulo. Seu nome é vinculado pelos promotores a uma farra de desapropriações realizada durante as obras do Trecho Sul do Rodoanel em São Paulo.

A obra viária tem 61,4 quilômetros de extensão e custo total de 5 bilhões de reais. Liga Mauá, no ABC paulista, ao Trecho Oeste do anel viário e corta Anchieta e Imigrantes, rumo ao litoral sul. 

Um empreendimento grandioso inaugurado com glória e pompa, mas que não teve os bastidores de sua construção até então revelado. Para se concluírem as obras, cerca de 40 mil habitantes tiveram de ser removidos de suas casas.

Documentos anexados à investigação mostram que os reassentamentos e indenizações custaram cerca de 90 milhões de reais. A Dersa, empresa pública responsável pelo gerenciamento de obras viárias, deu início a um programa de realocação desses moradores em unidades da CDHU. Foram contratados dois consórcios para gerenciar os cadastramentos.

Durante as fiscalizações, ao inspecionar a regularidade de pagamento aos beneficiários, um funcionário da Dersa identificou que Mércia Ferreira Gomes, uma das responsáveis pelo programa, teria incluído ilegalmente nomes de familiares entre os indenizados. Ao descobrir que o servidor identificara as fraudes, Mércia teria dito. “Melhor esquecer tudo. Você não tem ideia do tamanho disso.”

Em depoimento ao Ministério Público, o funcionário disse ter se tornado vítima de perseguições após descobrir as irregularidades. O assédio o teria levado a pedir demissão.

Uma auditoria da própria Dersa apontou que cerca de 800 mil reais teriam sido pagos irregularmente a pessoas próximas de Mércia. Convocada a depor no MP, a funcionária disse ser o bode expiatório de um esquema muito maior.

Segundo ela, quem tinha muito a esclarecer seria o diretor de engenharia da Dersa: Paulo Preto. Seriam listas e mais listas de indivíduos que nunca moraram nas regiões afetadas, afirmou. Enviavam a seu setor para serem incluídos nos benefícios.

Algumas famílias chegavam a receber a indenização duas ou três vezes. Ao menos 500 cidadãos teriam recebido os pagamentos mais de uma vez. Tudo autorizado por Paulo Preto. Como prova do envolvimento do superior, Mércia afirmou que a babá, a filha dela e outras empregadas do diretor da Dersa foram incluídas na lista.

Em um dos depoimentos, uma babá que trabalhou para uma filha de Paulo Preto contou que a patroa a orientou a se dirigir a um conjunto habitacional onde eram feitos os cadastramentos. Lá, entregou os documentos e foi incluída no programa sem nunca ter morado na área a ser desapropriada. Acabou presenteada com um imóvel da CDHU, que cerca de um ano depois vendeu por 80 mil reais.