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Política

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Roberto Amaral segue Erundina e deixa o PSB

“Decaído ideologicamente, o PSB se alia ao projeto elitista, e agora também golpista, que sempre combatera”, disse, em carta à militância
por Rodrigo Martins publicado 10/03/2016 16h47, última modificação 10/03/2016 16h58
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Roberto Amaral

Amaral prefere manter a militância fora de partidos. "É o momento de fortalecer a esquerda como um todo”

Fundador e ex-presidente do PSB, Roberto Amaral decidiu seguir os passos da deputada federal Luiza Erundina e abandonar a legenda. A decisão foi anunciada na quinta-feira 10, em carta à militância.

“Decaído ideologicamente, o PSB se alia ao projeto elitista, e agora também golpista, que sempre combatera”, lamentou o ex-ministro da Ciência e Tecnologia no governo Lula, colunista de CartaCapital. “Sem projeto, tentando seguir a direção dos ventos conforme sopram, o partido de hoje negocia alianças eleitorais no varejo da pequena política.”

Um dia antes, Erundina comunicou à bancada do PSB na Câmara a decisão de sair por “divergências ideológicas”. Há tempos, a parlamentar ressente-se com a guinada à direita da sigla, que optou por apoiar o tucano Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014, decisão que considerou “incoerente” e “vexatória”.

A parlamentar não descarta a possibilidade de buscar abrigo em outra legenda até reunir as assinaturas necessárias para a criação de seu novo partido, o Raiz Movimento Cidadanista.

Amaral prefere manter a militância fora das estruturas partidárias. “Ajudo mais não me filiando a nenhuma legenda. É o momento de fortalecer a esquerda como um todo e buscar unidade no enfrentamento ao golpe em marcha”, afirmou à revista.

Confira, abaixo, a íntegra da carta de despedida de Roberto Amaral.

“Aos militantes do Partido Socialista Brasileiro

“Prezada amiga e prezado amigo:

“Dirijo-me a vocês pela última vez como militante do Partido que tenho o orgulho de haver ajudado a reorganizar-se, e a cuja construção dediquei três décadas da minha vida. Despeço-me da legenda para poder continuar defendendo o socialismo e sua proposta de fazer de nosso país uma nação soberana, desenvolvida e socialmente inclusiva.

“O Partido que ajudei a refundar-se em 1985 era o PSB herdeiro da Esquerda Democrática, fundado em 1947 por João Mangabeira para empunhar a bandeira do socialismo com liberdade.

“Em 1985 éramos poucos, meia dúzia de intelectuais movidos por uma convicção ideológica: vencida a ditadura, findara com ela o papel dos partidos-frente, abrindo caminho para os partidos programáticos. A História dizia que podíamos ter no Brasil um partido socialista e democrático, e nos entregamos a essa faina.

“Já naquele ano vestibular disputávamos as eleições municipais e em 1986 elegemos nossos primeiros deputados. No comando, liderando-nos, o senador Jamil Haddad que, num desprendimento de que só são capazes os socialistas de boa cepa, dedicava seu mandato à construção partidária.

“Os fados, sempre generosos comigo, presentearam-me com a missão de convidar Evandro Lins e Silva (que vinha da Esquerda Democrática e do PSB de Mangabeira), Jamil Haddad (deputado socialista cassado pelo o regime militar), Evaristo de Morais Filho, o grande advogado de perseguidos políticos,  e Antônio Houaiss, militante socialista e diplomata cassado.

“Tive a honra de estar em todos os momentos seguintes ao lado de Jamil, que presidiu a Comissão Provisória após Antônio Houaiss, nosso primeiro presidente,  e foi seu grande construtor até decidir, por extrema magnanimidade e invulgar desprendimento, passar o bastão a Miguel Arraes, que nos presidiria até sua morte.

“A trajetória de nosso Partido, da refundação até agosto de 2014, foi muito difícil, e muito difícil foi a vida política. Ainda a braços com nossa organização, frágil, e arduamente lutando pela sobrevivência legal, enfrentamos desafios que pareciam superiores às nossas forças.

“Tivemos, porém,  atuação destacadíssima, pela esquerda, na Constituinte. Éramos poucos - é preciso lembrar as atuações de Jamil Haddad, Ademir Andrade, José Carlos Saboya e Raquel Capiberibe - mas conseguimos marcar a presença do pensamento socialista. Concomitantemente, exercemos corajosa oposição, sempre pela esquerda,  ao governo Sarney, a lembrança da ditadura no Brasil redemocratizado.

“Coube-me, em 1989, na companhia de Ronaldo Lessa  e Walteir Silva, convidar o governador Miguel Arraes, que  acabara de anunciar suas divergências com a candidatura de Ulysses Guimarães, a ingressar no PSB. Sua filiação, sem condicionantes, valeu-nos, então, como o certificado da correção de nossa política. Nas memoráveis eleições daquele ano, fomos dos principais construtores da Frente Brasil Popular, e participamos da chapa majoritária com a indicação do senador José Paulo Bisol como vice de Luiz Inácio Lula da Silva. Combatemos com firmeza o governo Collor e nos destacamos no seu impeachment.

“No Parlamento nossas vozes principais eram Jamil Haddad e José Paulo Bisol; no julgamento do ex-presidente no Senado Federal, eram nossos companheiros Evandro Lins e Silva e Sérgio Sérvulo os advogados da sociedade brasileira. Apoiamos a transição, participando do governo Itamar Franco com Jamil Haddad assumindo a pasta da Saúde e Antônio Houaiss a da Cultura. 

“Desse governo nos afastamos, a pedido  de Miguel Arraes, quando Fernando Henrique Cardoso tomou para si  as funções de virtual primeiro-ministro e impôs uma política neoliberal, a mesma que em 2014 seria defendida pelo candidato do PSDB. Disputamos, sempre no campo das esquerdas, apoiando a candidatura Lula, as eleições de 1994 e 1998. Crescemos política e eleitoralmente, obtivemos nosso registro definitivo e vencemos a ‘cláusula de desempenho’.

“Após havermos ousado entrar na disputa eleitoral com candidatura própria, em 2002, levando a cabo uma campanha à esquerda do espectro que então disputava as eleições, apoiamos a candidatura Lula no segundo turno e participamos de seus dois governos, integrando seu ministério, como apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff em 2010 e participamos de seu governo até o momento em que decidimos disputar com  ela, com candidatura própria, as eleições de 2014. Naquele ano, lançamos à liça nosso próprio presidente.

“O projeto eleitoral do PSB, que ensejou ao povo brasileiro a possibilidade de alternativa de poder, foi, todavia, decepado pela tragédia conhecida. Nas circunstâncias, presidindo o partido, dediquei-me a conduzir a campanha eleitoral e lutar pela unidade partidária.

“É preciso pôr de manifesto, naqueles momentos difíceis, a grandeza e o sacrifício da companheira Luiza Erundina. Pondo em risco sua própria reeleição, mas pensando acima de tudo no coletivo, assumiu a dificílima coordenação de nossa campanha presidencial, quando o posto, em plena crise, foi abandonado pelo seu antigo titular.

“A inevitabilidade da candidatura majoritária de Marina Silva criou a expectativa de  um projeto  eleitoral promissor, ao final desperdiçado, ao tempo em que aprofundava nossa crise ideológica, cuja fermentação, ressalte-se, não era recente, nem muito menos superficial. O caruncho da reação roía nossas entranhas sem que muitos se dessem conta, enquanto outros o alimentavam.

“O grau de degradação ficou evidente quando o partido, no segundo turno do pleito de 2014, traindo seu programa, rasgando sua história, decidiu-se por apoiar o projeto da classe dominante. O pior de tudo é que essa decisão esdrúxula afigurou-se como um desdobramento natural do que vinha sendo a política partidária.

 “Decaído ideologicamente, o PSB se alia ao projeto elitista, e agora também golpista, que sempre combatera. Combateram-no a vida toda nossos fundadores e seus continuadores, como João Mangabeira, Hermes Lima, Osório Borba, Domingos Vellasco, Antonio Cândido, Joel Silveira, Rogê Ferreira, Jamil Haddad, Antônio Houaiss, Evandro Lins e Silva. Combateram-no  nossos ícones Barbosa Lima Sobrinho, Francisco Julião, Miguel Arraes,  Pelópidas da Silva, Aurélio Viana, Jáder de Carvalho.

“A crise ideológica mergulha o Partido, afinal, na crise ética.

“Sem projeto, tentando seguir a direção dos ventos conforme sopram, o Partido de hoje negocia alianças eleitorais no varejo da pequena política; abriga quadros que em nada se aproximam das bandeiras da esquerda democrática.

“É esse PSB que agora tenciona navegar na onda da retomada do poder pelos derrotados nos pleitos de 2002, 2006, 2010 e 2014 – retomada que pleiteiam não pela via legítima do voto, mas pela escapadela espúria do golpe midiático-jurídico, que atropela direitos e garantias individuais, vilipendia a soberania popular e visa a deter a  emergência das massas. 

 “Esse PSB de hoje nega o PSB histórico, aquele que lutou contra a ditadura do Estado Novo, defendeu o monopólio estatal do petróleo e a Petrobras, defendeu a posse (1951) e o governo Vargas que combatera eleitoralmente, defendeu a posse de JK (1955), combateu a tentativa de golpe de 1961 e defendeu o governo Jango, do qual participaria com a presença de João Mangabeira no ministério da Justiça. Esse PSB não se compadece do regresso social.

 “Estes nossos tempos são a hora da resistência e do avanço, e quando mais difíceis parecem ser as condições de luta – ante o avanço das teses do neoliberalismo e das forças de direita, em todo o mundo – maior  deve ser  nossa convicção de que o socialismo é a única alternativa para futuro da humanidade.

 “Despeço-me do PSB que se nega a si mesmo para manter-me coerente com minha vida. Faço-o de alma leve, certo de que escolho a melhor senda rumo ao futuro.

“Vida longa à militância socialista!

“Rio de Janeiro, 10 de março de 2016"

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