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Política

Entrevista

Paulo Câmara: “Pernambuco voltará a ser a liderança do Nordeste”

por Rodrigo Martins publicado 09/09/2014 05h03
Em três semanas, o candidato do PSB ao governo do estado, apadrinhado de Eduardo Campos, cresceu 23 pontos nas pesquisas e empatou em primeiro lugar com Armando Monteiro (PTB), apoiado por Lula
PSB
Paulo Câmara e Eduardo Campos

Paulo Câmara e Eduardo Campos durante ato de campanha no início de julho

Desconhecido de boa parte do eleitorado pernambucano até o início de agosto, Paulo Câmara (PSB) tornou-se o protagonista da mais impressionante reviravolta eleitoral deste ano. Apadrinhado do ex-governador Eduardo Campos, o candidato do PSB ao governo de Pernambuco cresceu 23 pontos em apenas três semanas e empatou no primeiro lugar com Armando Monteiro Neto, do PTB, apoiado por Lula. De acordo com pesquisa do Datafolha divulgada na quarta-feira 3, Câmara e Monteiro Neto têm 36% das intenções de voto na disputa pelo governo de Pernambuco. No levantamento anterior, divulgado pelo instituto em 15 de agosto, dois dias após o acidente de avião que vitimou Campos e seis integrantes de sua equipe, o petebista ganharia no primeiro turno: tinha 47%, contra 13% do adversário.

Câmara reconhece que seu crescimento nas pesquisas de intenção de voto sofreu forte antecipação após a tragédia com Campos. “Com o falecimento de Eduardo, as pessoas passaram a se interessar mais pelas eleições. Queriam saber quem era esse candidato que ele tinha escolhido para dar continuidade ao seu trabalho em Pernambuco”, afirma o socialista, em entrevista a CartaCapital. Segundo o candidato, o estado tem sólidos alicerces para uma nova fase de desenvolvimento econômico. “Temos condições de voltar a ser a liderança do Nordeste, ou pelo menos ficar muito próximo da Bahia em todos os indicadores”.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: A que o senhor atribui esse crescimento tão rápido de sua candidatura nas pesquisas de intenção de voto? Há um componente de comoção pela morte de Eduardo Campos?
Paulo Câmara: Esse crescimento ocorreria naturalmente ao longo do programa eleitoral, mas houve uma antecipação muito forte. Com o falecimento de Eduardo, as pessoas passaram a se interessar mais pelas eleições. Queriam saber quem era esse candidato que ele tinha escolhido para dar continuidade ao seu trabalho em Pernambuco. Nossas pesquisas internas mostravam a disposição do povo em votar no projeto de continuidade. Mas as pessoas ainda não estavam muito interessadas nas eleições ou em saber qual seria o candidato que o Eduardo iria colocar na disputa.

CC: Até pouco tempo, sua equipe estava preocupada com o fato de parcela expressiva dos eleitores acreditar que Armando Monteiro ainda era aliado de Campos no estado...

PC: Havia uma confusão muito grande. Muitos achavam que Armando era o candidato de Eduardo. Eles saíram juntos em 2010, na mesma chapa. E meu adversário nunca se preocupou em esclarecer que migrou para a oposição. Mas, de maneira rápida, essa confusão se dissipou. Estou me apresentando. As pessoas começam a conhecer minhas ideias e propostas. Não pretendemos descansar um minuto. Vamos percorrer o máximo de municípios até outubro, em caminhadas, carreatas, debates, discussões. Pretendemos chegar ao término da corrida eleitoral com mais de 90% do eleitorado pernambucano sabendo quem sou, quais são as minhas propostas e, também, que continuo o projeto de Eduardo.

CC: Marina Silva tem ajudado na campanha?
PC: Sim, ela mantém uma posição muito correta, de levar o projeto de Eduardo adiante. Cumpre todos os compromissos. Aliás, Marina escolheu Recife para lançar sua candidatura à Presidência, teve essa deferência conosco. Ela sabe da importância de Pernambuco para o projeto nacional do PSB e da Rede. Somos o estado com maior possibilidade de vitória da Marina. Nesses dez meses de caminhada com Eduardo, ela esteve muitas vezes no estado, conversando com todos nós.

CC: A eleição no estado será decidida em um ou dois turnos?
PC: Acreditamos que será decidida em primeiro turno. Há uma polarização muito grande entre a minha candidatura e a de Armando Monteiro. Quem se sobressair um pouco vence a disputa. Até porque as demais candidaturas têm apresentado um porcentual de intenções de voto muito baixo. Só haverá segundo turno na possibilidade de eu e Armando termos uma margem de votos muito próxima, mas temos a expectativa do contrário.

CC: E a disputa presidencial, como o senhor avalia o cenário?
PC: Numa perspectiva conservadora, imagino que teremos segundo turno entre Marina e Dilma. Em condições iguais de exposição na tevê e no rádio, teremos a oportunidade de divulgar melhor esse belo projeto construído por Eduardo e Marina. Temos compromissos muito claros com uma nova forma de governar o País, de fazer política, de fazer o Brasil voltar a crescer e reduzir as desigualdades. Esse segundo turno trará um debate muito rico.

CC: O que representa a morte de Campos para o povo de Pernambuco? Qual é o legado deixado por ele no estado?
PC: Foi uma perda muito grande, não apenas para o povo de Pernambuco, mas para todo o Brasil. Ele era a grande referência de uma geração. É insubstituível. Sua forma de pensar a política, de realizar as coisas, de administrar. Em uma só pessoa, ele era um bom gestor, um ótimo articulador político e uma excelente pessoa no convívio pessoal. Pernambuco, hoje, é outro estado. Melhorou praticamente todos os indicadores econômicos e sociais nos últimos oito anos. Criamos 560 mil empregos nesse período, é o estado que mais gerou emprego no Brasil proporcionalmente. Chegaram muitos investimentos. Uma refinaria está ficando pronta, um estaleiro já está funcionando, o setor petroquímico opera a todo vapor, a fábrica da Fiat deve começar a produzir até o fim do ano... Pernambuco tem alicerces muito fortes para avançar ainda mais. Tínhamos uma capacidade de investimento de 800 milhões de reais por ano, e conseguimos multiplicar esse valor por quatro. Em 2013, investimos 3,7 bilhões. Trata-se do estado que mais investe em relação a sua receita corrente líquida.

CC: Como manter esse ciclo de crescimento?
PC: Não podemos deixar cair esse patamar de investimentos, pois ainda faltam muitas obras de infraestrutura, saneamento, mobilidade urbana. Mesmo setores como saúde, educação e segurança exigem vultosos aportes. Hoje, o setor industrial responde por 22% do PIB do estado. Até 2020, deve chegar a 28%. Pernambuco voltou a se industrializar de uma forma como não se via desde os anos 1950, a década das usinas, da monocultura da cana-de-açúcar. Sabemos que esta agenda é do século passado, estamos recuperando o tempo perdido. Mas também estamos atentos à agenda do século XXI, à economia do conhecimento, à economia criativa, à questão da conectividade, da sustentabilidade. Nos últimos sete anos, o PIB de Pernambuco cresceu 39%, enquanto o nacional avançou apenas 27%. Temos condições de voltar a ser a liderança do Nordeste, ou pelo menos ficar muito próximo da Bahia em todos os indicadores.

CC: E o relacionamento com o governo federal? Acabou estremecido após Campos caminhar para a oposição?
PC: As parcerias permanecem com muita dificuldade, mas este não é problema apenas para Pernambuco. Em 2012, o governo federal fez uma ampla expansão de convênios, de operações para liberar créditos aos estados. Então, nos preparamos para fazer um amplo projeto de investimento em 2013 e 2014. Mas logo o governo federal mudou a rota. Os convênios foram segurados, as negociações de empréstimos com organismos internacionais foram interrompidas. No final de 2013, a União segurou todos os recursos para garantir o superávit primário, até o SUS entrou na roda. O governo federal está com as contas desequilibradas. Para tentar dar um jeito, penaliza os mais fracos: estados e municípios.

CC: Qual é o maior desafio que o próximo governador de Pernambuco terá pela frente?
PC: São muitos os desafios. Não podemos deixar de mencionar as áreas mais sensíveis: saúde, educação e segurança pública. Precisamos ampliar o número de hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPA), fazer os programas de saúde chegarem mais perto da população. Nos últimos 8 anos, Eduardo Campos construiu quatro hospitais, além de inaugurar 15 UPAs 24 horas. Agora, precisamos ampliar a rede de UPAs para consultas com médicos especialistas. Também precisamos de um hospital geral no Sertão. Hoje, o atendimento está muito concentrado no Agreste e na Região Metropolitana. Vamos ampliar ainda a rede de hospitais para as mulheres, para resolver o problema dos partos de alta complexidade. Recife está fazendo um, com recursos da prefeitura. Em Caruaru, o estado está fazendo outro. E pretendemos fazer mais um no Sertão e outro em Petrolina.

CC: Segundo o IBGE, apenas 10% dos jovens pernambucanos de 15 a 29 anos estudam e trabalham; 39,9% deles só trabalham e 26,9% não estudam nem trabalham. Como mudar esse cenário?
PC: Sem uma escola de qualidade, será muito difícil reverter essa tendência. Hoje temos o maior programa de escolas de tempo integral do Brasil. Cerca de 100 mil alunos do ensino médio tiveram a jornada de estudo ampliada, 54% do total. E já temos vagas garantidas para 80% deles. Em muitos lugares, ainda não preenchemos essas vagas porque muitos desses jovens trabalham ou exercem outras atividades. Pretendemos universalizar o acesso às escolas de tempo integral no ensino médio e nas escolas de ensino fundamental sob a responsabilidade do estado. Mas também precisamos chegar mais perto dos municípios, inclusive com recursos, para sensibilizá-los sobre a necessidade de ampliar a jornada de estudos nas escolas mantidas pelas prefeituras.

CC: O senhor mencionou o desafio da segurança. Pernambuco conseguiu reduzir a taxa de homicídios, mas ainda é um dos 10 estados mais violentos do País. Como superar esse problema?
PC: Já estivemos em situação muito pior. Recife era a capital mais violenta do País, e Pernambuco estava entre os três piores. Isso pouco antes de o Eduardo assumir. Implantamos o Pacto pela Vida, que não é apenas uma política repressiva. O estado está todo mapeado. Cada território tem um responsável por monitorar os indicadores de violência e propor as intervenções necessárias para reduzir as taxas de homicídios e de crimes em geral. E há metas para cumprir. Se a polícia não consegue atingir os objetivos, reavaliamos a estratégia. Fora isso, temos as políticas sociais. Nos bairros mais violentos, desenvolvemos trabalhos sociais, tratamos dependentes químicos, promovemos palestras sobre os malefícios do álcool, debates sobre violência doméstica. É um trabalho diário, não dá para descansar um segundo. Agora, precisamos reforçar o efetivo policial, sobretudo no interior. No início do programa, concentramos esforços na Região Metropolitana, que era mais violenta mesmo. Isso trouxe bons resultados, mas precisamos ter mais policiais em todo o estado.

CC: Em maio, a greve da Polícia Militar passou uma imagem de descontrole, com arrastões e pânico nas ruas. O que houve?
PC: Havia um componente político nessa greve. As principais lideranças do movimento se lançaram candidatos nestas eleições. Eles se aproveitaram do momento político para levantar a bandeira salarial. Os policiais militares e civis tiveram quase 50% de aumento em quatro anos. Mesmo descontando a inflação do período, houve um ganho real significativo. Foram 48 horas muito difíceis, que culminaram com os arrastões, mas o estado conseguiu dar a resposta adequada. Foram cenas realmente muito tristes, que não podemos deixar voltar a acontecer.