Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Cartas da Esplanada / Marina Silva critica o governo, mas opõe-se ao impeachment

Política

Atos contra Dilma Rousseff

Marina Silva critica o governo, mas opõe-se ao impeachment

por Rodrigo Martins publicado 15/03/2015 14h11, última modificação 15/03/2015 21h21
"Talvez o resultado não seja o pretendido retorno à ordem, mas um aprofundamento do caos", alerta a ex-senadora, em artigo divulgado às vésperas das manifestações de 15 de março
Rollemberg 40
Marina Silva

De acordo com Marina, em parte da oposição predomina o desejo de sangrar o governo e enfraquecê-lo para as próximas eleições

Terceira colocada na corrida presidencial de 2014, com 22,1 milhões de votos, a ex-senadora Marina Silva, abrigada no PSB, rompeu o silêncio às vésperas dos atos convocados para hoje contra o governo. Por meio de um texto publicado em seu site oficial, no sábado 14, ela reforçou as críticas à gestão de Dilma Rousseff, mas manifestou contrariedade à ideia de derrubá-la. "Muita gente vai para as ruas protestar. Há uma campanha pedindo o impeachment da presidente que foi eleita há poucos meses. Compreendo a indignação e a revolta, mas não acredito que essa seja a solução. Talvez o resultado não seja o pretendido retorno à ordem, mas um aprofundamento do caos."

De acordo com Marina, em parte da oposição predomina a lógica partidária e o desejo de sangrar o governo e enfraquecê-lo para as próximas eleições. "Mas há os que compreendem a gravidade de uma crise institucional, os riscos de aventuras autoritárias – de esquerda ou de direita –, a quebra da economia, a violência descontrolada, enfim, um cenário totalmente indesejável”, avalia. “O governo é ruim, mas temos a responsabilidade de manter não a ele, mas a democracia".

Críticas ao governo e ao PT
A ex-presidenciável não poupa críticas ao governo, apenas não concorda com a solução do impeachment. “O agravamento de todos os sintomas da crise já é visível. A insatisfação da população vai da desesperança ao desespero. A mudança na equipe econômica parece ser insuficiente para dar ao governo a credibilidade necessária à condução da economia”, observa, em seu longo artigo. “A corrupção revela-se generalizada como um câncer que se espalhou por todos os órgãos. Quantos minutos na televisão serão necessários para fazer as pessoas voltarem a acreditar no mundo cor-de-rosa que os ‘pessimistas’ queriam destruir?”

Na avaliação de Marina, o impeachment seria uma espécie de castigo ao PT, "uma resposta no mesmo padrão criado pelo partido quando estava na oposição: gritar “fora” a qualquer governo (Sarney, Collor, Itamar, FHC e incontáveis governos estaduais), com ou sem provas de corrupção, pela simples avaliação ideológica de que eram governos impopulares ou contrários aos interesses dos trabalhadores". Mas a ex-senadora, que militou por mais de duas décadas na legenda antes de romper com o PT, pondera: “é bom lembrar que, às vezes, a maior punição àqueles que ultrapassam limites éticos para alcançar seus objetivos não seja interditar-lhes o objeto almejado, mas retirar-lhes as regalias e deixá-los com a responsabilidade de dar conta do que prometeram.”

Um recado para Aécio Neves?
Marina também rebateu as críticas que recebeu pelo silêncio guardado nos últimos meses. “Não andei tão calada assim, basta ver que em minhas páginas na internet tratei das questões mais importantes da vida brasileira, como a crise hídrica, a retomada dos ataques aos direitos indígenas e, é claro, as investigações da corrupção na Petrobrás”, afirma a ex-senadora. “Se me ative às páginas da internet, especialmente nas redes sociais, deixando de lado as entrevistas e artigos na chamada ‘grande mídia’, é porque preferi não seguir a pauta convencional, onde o bate-boca pós-eleitoral e as versões da guerra partidária continuavam acirrados”.

Ao defender o desmonte dos palanques eleitorais, Marina parece ter mandado um recado para o senador Aécio Neves, do PSDB, vice-colocado nas eleições presidenciais de 2014, com 51 milhões de votos. “O respeito à democracia nos ensina a dar um prazo inicial a todo governo eleito, para que diga a que veio. Sinto que isso vale também quando o escolhido – ou guiado pelas estrelas – recebe da sociedade a cômoda ou incômoda tarefa de suceder a si mesmo.”