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Política

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"É melhor uma base mais enxuta, porém mais confiável"

por Rodrigo Martins publicado 24/11/2014 05h49, última modificação 24/11/2014 15h13
O governador do Ceará, Cid Gomes, explica o projeto de uma frente de esquerda capaz de sustentar o governo Dilma e fazer contraponto aos conservadores
José Cruz/Agência Brasil
Cid Gomes

"É melhor uma base mais enxuta, porém mais confiável", avalia Gomes

De Fortaleza

Diante de uma nova rebelião da base aliada no Congresso e dos desdobramentos da operação Lava Jato, dedicada à apuração do escândalo de corrupção na Petrobras, não resta alternativa a Dilma Rousseff senão repensar a forma como o Executivo se relaciona com o Parlamento. O diagnóstico é do governador do Ceará, Cid Gomes (Pros), defensor da criação de uma frente de esquerda para trabalhar pela estabilidade do governo e fazer um contraponto ao fisiologismo e ao avanço dos conservadores no Parlamento. “O governo está escravo do PMDB, que se considera um partido essencial, quando eu penso que ele não tem essa bola toda. É melhor ter uma base mais enxuta, porém mais confiável”. Na entrevista a seguir, ele explica a proposta e fala sobre os rumos da economia. Evita, porém, comentários sobre a possibilidade de assumir um ministério. “Ninguém fala sobre conjecturas.”

CartaCapital: Qual é o objetivo da frente de esquerda?
Cid Gomes: Temos um evidente problema de governabilidade e um debate de reforma política, que é uma unanimidade enquanto a necessidade de fazer, mas objetivamente há opiniões e desejos para todos os gostos. Reforma política, ao meu juízo, deve existir quando se inicia um novo ciclo, e não é o que está acontecendo. O País acabou de sair de uma eleição muito dividida, o resultado praticamente foi meio a meio. Essa reforma só deve aguçar e radicalizar as diferenças. O Executivo precisa de uma nova forma de se relacionar com o Parlamento ou, pelo menos, deve tentar melhorá-la, torná-la mais ética e transparente. A Operação Lava Jato ajuda nesse sentido, pois fragiliza o núcleo central desse modelo de governança instituído em meados do governo Lula. Dilma tentou mudá-lo, mas teve que se render no principal.

CC: Que modelo de governança é esse?
CG: Quais são os principais partidos da base? O PT, evidentemente, e o PMDB. Este último é um ajuntamento de seções estaduais que se unem na hora de disputar um naco do poder. Foi assim nos governos de Lula e de Fernando Henrique Cardoso. Só que, agora, o PMDB perdeu o pudor. As chantagens são feitas publicamente por quadros do partido.

CC: O senhor se refere ao deputado Eduardo Cunha?
CG: Entre outros. Eduardo Cunha é uma caricatura dessa situação. Mas uma boa parte do PT, ao longo dos últimos anos, também aderiu à tese do poder pelo poder. Não posso generalizar, mas uma parcela do partido disputa participação no governo não para apresentar novas teses ou colocar em prática uma nova linha ideológica. E sim para ter força de cooptar e se preservar no poder. O resto do apoio da Dilma é múltiplo. Há partidos ideológicos ou programáticos e também os fisiológicos, todos com expressão pequena, o que faz com que o poder fique concentrado entre o PT e o PMDB. Dilma pode estimular um reordenamento dessa base, e isso não se fará apenas com boa vontade. Se depender de boa vontade, a negativa já vem daquele bordão antigo, de que a esquerda só se une na cadeia. A presidenta precisa emitir sinais claros para fomentar a união.

CC: Quem poderia integrar esse bloco?
CG: Aqueles que têm uma linha ideológica de centro esquerda e que estejam insatisfeitos no seu partido, além das legendas dispostas a se alinhar integralmente. Não precisamos, necessariamente, de um partido novo. É um processo. Primeiro, cria-se um bloco. Depois, uma frente. Na medida em que as desconfianças são superadas, podemos pensar em outras formas de organização. No futuro, talvez isso se converta em num partido, com instâncias compartilhadas de poder. Há mil mecanismos para construir uma alternativa. Além do meu partido, o PROS, imagino que podem aderir ao projeto o PDT, o PCdoB, parcelas do PSB. Para muitos quadros deste partido, esse caminho à direita do PSB nega as suas origens, sua tradição, sua história.

CC: O senhor atribui essa guinada à direita do PSB ao projeto do falecido governador Eduardo Campos?
CG: Não é bom de falar de quem já morreu. Lamento muito a perda dele, era um grande quadro para o Brasil. Mas, em nome de um projeto que acabou ficando pessoal demais, Campos permitiu que o partido se rendesse à uma parcela que se aproximou da direita. A expressão maior disso é a seção paulista do PSB. Talvez, hoje, Pernambuco tenha até mais notoriedade. No passado, a seção paulista era a que tinha mais deputados. Embora você tivesse ali uma Erundina, ela sempre foi minoritária. Hoje, Márcio França é vice do governador Geraldo Alckmin, do PSDB. O aliado tradicional do PSB sempre foi o PT, mas houve uma série de rompimentos. O partido também se dividiu após apoiar Aécio Neves no segundo turno. O atual comando do PSB está claramente à direita, mais conservador, mas você tem a seção do Amapá que ficou com a Dilma, assim como as seções da Paraíba e da Bahia. Imagino que há outras com a mesma linha.

CC: E o projeto de Gilberto Kassab?
CG: Kassab se movimenta pelo centro. Ele é líder do PSD e trabalha para formar uma nova legenda, fazer uma fusão que permita o ingresso de quadros oriundos de outros partidos. Se ele conseguir desidratar o PMDB, atrair uns 20 deputados, os melhores ideologicamente, será um grande feito.

CC: A movimentação de Kassab está relacionada, de alguma forma, à sua proposta de uma frente de esquerda?
CG: O movimento de Kassab está em curso. No caso da frente, por ora, é uma ideia exposta por mim. O objetivo, creio, é o mesmo: dar mais estabilidade ao governo, em uma linha mais ideológica, e não fisiológica. De alguma forma, será um contraponto ao atual modelo. O governo está escravo do PMDB, que se considera um partido essencial, quando eu penso que ele não tem essa bola toda. É melhor ter uma base mais enxuta, porém mais confiável. Podemos construir caminhos pela esquerda e pelo centro. Com teses, e não cargos. Não vejo problemas de os partidos da base terem participação no governo, o que não podem é atuar como parasitas. Muitos não querem nem saber qual é a tese do governo. Querem um naco do Estado.

CC: Que tamanho essa frente de esquerda pode ter?
CG: Minha tarefa é quixotesca. Recebo aqui e acolá sinalizações de apoio. Uma vez um desconhecido me ligou não sei de onde para dizer que estava afinado com a proposta. A ideia é despertar esse sentimento. No fundo, todo político, mesmo o mais escrachado fisiológico, acredita em alguma coisa. O desafio é despertar essa defesa ideológica de um Brasil ideal que cada um tem, e usá-la como um cimento para uma aliança. Seria um realinhamento, uma nova relação do Executivo com o Congresso em cima de teses para o Brasil.

CC: Como Dilma recebeu sua proposta?
CG: Com simpatia, acho (risos).

CC: A relação que Dilma tem com o Congresso é diferente daquela que o Lula estabeleceu em seu governo?
CG: É diferente, porque o Lula não tinha remorso. A Dilma tem. Quando ela assumiu a Presidência, deu participação no governo para a base toda. Ao perceber posturas não republicanas no dia a dia, não aceitou. É o caso da Petrobras. Dilma está sofrendo por uma coisa que não tem responsabilidade. Ela apanha dos dois lados, de quem defende uma posição mais ética e de quem era beneficiário do esquema.

CC: Que impacto a Lava Jato pode ter na política nacional?
CG: Este é o enésimo escândalo de corrupção no Brasil. Mas, quando as investigações começam a ameaçar o poder econômico, o caso geralmente é encoberto. Encontra-se uma formalidade jurídica, anulam-se as provas... O Brasil precisa dessa operação para dar um passo à frente. Ela deve ir até o fim, pegar os corruptores e os intermediários da política. Isso pode estimular a formação de novos quadros políticos e induzir uma nova relação entre o governo e o Parlamento.

CC: E a política econômica, também carece de mudanças?
CG: Manter uma boa equação fiscal não tem ideologia. Qualquer governo que se pretenda sustentável não pode gastar mais do que arrecada. O Brasil tem reservas externas, mas esse colchão não é eterno. Em áreas estratégicas, como o setor secundário, a indústria, temos um rombo enorme. A importação de manufaturados deixou um déficit de 105 bilhões de dólares na balança comercial em 2013. As exportações do setor primário ajudaram a cobrir parte da diferença, mesmo assim estamos deficitários. Precisamos de esforços dirigidos para melhorar nossas exportações de manufaturados, expandir aquelas do setor primário, reduzir e conter alguns gastos supérfluos. Enfim, fazer o possível para não sacrificar conquistas sociais nem a ampliação de recursos no orçamento para áreas como saúde e educação.

CC: Os empresários têm muita desconfiança em relação ao governo e seguraram os investimentos. A indústria patina e começa a dispensar mão de obra. Como equacionar o problema?
CG: Muitos dos investimentos previstos para os dois últimos anos foram adiados por questões ideológicas e até certa antipatia. Boa parte dos patronos das indústrias do Brasil tem reservas em relação ao governo, que ao meu juízo é justa em alguns casos, mas uma parte é injusta. Eles adiaram esses investimentos para ver o que aconteceria nas eleições. O Brasil vinha em uma linha de crescimento, num círculo virtuoso. Se você gera mais produção, tem mais emprego, mais salário, mais demanda, mais produção. A interrupção dos investimentos comprometeu o ciclo. Mesmo assim, o Brasil conseguiu manter um nível de geração de emprego acima do crescimento do PIB. Então, para as pessoas comuns, pouco importa se temos um 'Pibinho' ou 'Pibão'. Vale mais ter emprego e um salário melhor.

CC: Na última década, a economia do Nordeste cresceu em um ritmo bem superior ao do resto do País.
CG: Sim, e com forte geração de empregos. No acumulado dos últimos 12 meses, o Ceará criou 50,6 mil empregos. Imagino que foi o melhor desempenho do Nordeste. Ainda somos uma região que concentra o maior número de pobres e miseráveis. Mas, nos últimos 12 anos, houve uma politica de valorização do salário mínimo, com impacto direto na renda do trabalhador e nos benefícios previdenciários, sobretudo a aposentadoria rural, que tem um impacto muito forte na economia local. No Nordeste, o percentual de trabalhadores que têm a remuneração vinculada ao salário mínimo é maior do que a média nacional. E tivemos os programas de distribuição de renda.

CC: Criou-se um mercado consumidor que não existia.
CG: Exatamente. Tenho um testemunho pessoal disso. Visitei o município Ipaporanga nas campanhas de 2006 e, agora, em 2014. É impressionante a mudança da cidade, a vitalidade do comércio, você vê as pessoas na rua, comprando. É uma cidade na fronteira do Piauí, mas o dinheiro está circulando, há mais empregos.

CC: Segundo o Ipea, cada real investido no Bolsa Família gera um retorno de 1,78 real no PIB.
CG: Nas economias mais frágeis, o impacto é ainda maior. Olha, eu estou otimista. Em matéria de investimentos, acredito que o próximo ano já será melhor. Todo mundo está meio desconfiado, mas alguns investimentos não podem mais ser postergados. A matriz fiscal precisa ser ajustada, é verdade, assim como é preciso um esforço com a iniciativa privada para melhorar as exportações. Dilma pode sinalizar com um bom Ministro da Fazenda, um bom Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio...

CC: Dos nomes cotados para a Fazenda, qual nome é melhor? Fala-se em Henrique Meirelles e Nelson Barbosa...
CG: Um ministro da Fazenda precisa ter liderança, e não enxergo isso em nenhum dos dois. Barbosa é técnico demais, não conhece o Brasil tão bem. Tem um olhar muito paulista. Meirelles tem essa relação histórica com o setor financeiro. Eu acho que não é bom. O ideal é inspirar confiança no investidor empreendedor, estimular o setor produtivo. O rentista também precisa ter tranquilidade, até para não jogar contra. Mas não é prioridade.

CC: Meirelles seria uma sinalização para os rentistas?
CG: Ao meu juízo, sim.

CC: E Barbosa?
CG: Não seria pra ninguém (risos).

CC: Quem então poderia assumir esse papel de liderança?
CG: Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, é um bom nome. É respeitado não por ser ligado ao setor financeiro, mas porque é um executivo que inspira credibilidade. Os investidores vão enxergar nele um esforço de contenção de gastos, de maior equilíbrio fiscal. Terá um papel de liderança no meio empresarial.

CC: Que outros desafios Dilma terá pela frente?
CG: O Brasil tem centenas! A saúde precisa de mais recursos, de uma melhor gestão. Tivemos uma ampliação do acesso ao em ensino superior no Brasil sem precedentes na nossa história, mas os indicadores de qualidade da educação ainda são muito ruins. Saneamento é um grande desafio. Mas, de certa forma, tudo depende do ambiente político e econômico. Vamos tirar dinheiro de onde? O Brasil precisa voltar a crescer, não tem escolha.

CC: Na banca de apostas, o senhor é sempre cotado como futuro ministro do governo Dilma. De qual pasta?
CG: Isso é um problema. Que curinga é esse? Eu, sinceramente, não me considero um curinga (risos). Meu projeto pessoal é passar uma temporada fora. Estou há 22 anos na política. Tive muitas alegrias, mas tive de fazer sacrifícios pessoais. Meu plano é trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento, que não tem a preocupação de ganhar dinheiro. O foco é social.

CC: Mas o senhor aceitaria um convite para integrar o governo?
CG: Ninguém fala sobre conjecturas. Se falar que não aceitaria, seria indelicado. Se disser que topo, estaria sendo oferecido.