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Política

Entrevista – Luiza Erundina (PSB)

“A reforma política só traria remendos a um tecido esgarçado”

por Rodrigo Martins publicado 28/03/2015 07h37, última modificação 28/03/2015 07h50
Para a deputada, é o modelo de representação política que está em xeque. Ela aposta na criação do Raiz, novo partido de organização horizontal, inspirado no espanhol Podemos e no grego Syriza
Gustavo Lima/Agência Câmara
Luiza Erundina

"Há um esgotamento dos modelos de Estado, democracia e representação política", avalia a deputada Luiza Erundina

Grande esperança da esquerda por décadas, o PT divorciou-se das suas bases populares e frustrou as expectativas de quem apostava numa transformação da política brasileira. Seu modelo de governabilidade, amparado na aliança com setores conservadores e na barganha política, está exaurido, o que explica a crescente insatisfação popular com governo Dilma Rousseff.

O diagnóstico é da deputada federal Luiza Erundina, que ajudou a fundar o PT, foi prefeita da capital paulista pela legenda e desde 1998 está abrigada no PSB. Aparentemente, não por muito tempo. A parlamentar está empenhada na construção de um novo partido: o Raiz Movimento Cidadanista, inspirado no Podemos, da Espanha, e no grego Syriza. Na entrevista a seguir, Erundina faz uma avaliação da conjuntura política e apresenta o norte do movimento que ajuda a construir. Uma organização horizontal, sem lideranças ou caciques partidários, norteado por princípios como o ecossocialismo. “Acredito nisso. E não estou mais com idade para me enganar e viver uma fantasia”, assegura, com brilho no olhar.


CartaCapital: Como entender a crise vivenciada pelo PT?
Luiza Erundina: É um ciclo histórico esgotado. O Partido dos Trabalhadores surgiu com uma base social popular, dos sindicatos, do chão das fábricas, das periferias dos grandes centros urbanos, da luta no campo pela reforma agrária. Foi um momento áureo na história do Brasil, quando as camadas populares passaram a exercer protagonismo na política. Esses grupos viam no PT, além dos demais partidos de esquerda tradicionais, a possibilidade de participar da política institucional. O PT representava, à época, uma esquerda renovada. Um partido que surgiu de baixo para cima, e começou a eleger seus primeiros vereadores, prefeitos, deputados e senadores. Mas esse ciclo se esgota quando o PT chega ao poder, muito cedo, se vermos a história dos partidos políticos no Brasil. Com a eleição de Lula, o PT deixou de lado a luta concreta do povo, dos movimentos sociais, a luta sindical e pelos direitos humanos. Aquelas lideranças populares deslocaram a sua militância da base para as estruturas de governo, para os gabinetes.

CC: Houve uma excessiva burocratização da atividade político-partidária.
LE: Exatamente. O PT deixou de ser um partido de massas, dedicado à formação política das classes populares, dos trabalhadores, dos sindicatos, das periferias. O foco da militância se deslocou. Eles saíram do chão da fábrica, das periferias, dos movimentos sociais e campesinos. Eles entraram para os espaços da política formal. Com isso, o partido perdeu a novidade que carregava. O PT se divorciou de suas bases. Não diria que isso foi intencional, uma ação planejada. A própria dinâmica do jogo político levou a esse distanciamento, a esse divórcio com as bases. De repente, as lideranças populares e sindicais estavam nos espaços institucionais, sem aquela mesma liberdade, criatividade e ativismo que representava o PT. E não havia outro partido que pudesse se aproximar e ser isso que um dia foi o PT. Essas forças sempre estiveram aliadas ao PT, mas agora dentro da lógica do presidencialismo de coalizão.

CC: E como se deu a formação dessa coalizão governista?
LE: Para garantir a governabilidade, o PT teve de se aliar a um conjunto de forças políticas sem nenhuma identidade ou compromisso com seus projetos e sua origem. Alguns partidos de esquerda ficaram como força auxiliar desse governo de coalizão, mas na condição de minoria. Na maioria, sempre estiveram forças políticas conservadoras. Certas figuras deram sustentação à ditadura. Outras lideram legendas sem projeto partidário ou ideologia alguma. Resultado: hoje temos 28 partidos com assentos no Congresso e outros tantos disputando uma vaga. Durante certo tempo, o PT até conseguiu algum resultado. Com o carisma que tem, Lula conseguiu administrar essa base tão heterodoxa e heterogênea, mediante barganha, na troca de aprovação de medidas por cargos. O que na prática isso significa? O PT abdicou de transformar a política brasileira. Ele apenas reproduziu aquele modelo antigo, tradicional, de uma democracia representativa, sem sustentação em mecanismos de democracia direta ou participativa, representada pela sociedade civil.

CC: Seria possível governar de forma diferente?
LE: Fui prefeita de São Paulo pelo PT e governei por quatro anos com minoria na Câmara Municipal, pois não cedi às pressões da barganha política entre o Executivo e o Legislativo. Foi um período muito difícil, mas consegui aprovar os Orçamentos, levar adiante políticas de saúde, educação e transporte que marcaram a vida da cidade, com mecanismos de participação popular. Meu governo não tentou silenciar os movimentos. Ao contrário, estimulou que eles tivessem vida autônoma. E eles retribuíram. Houve momentos em que essa turma acampou na Câmara, por quatro dias e quatro noites, num período de muito frio, porque os vereadores queriam cassar o meu mandato. Não caí por ter uma aliança concreta com a sociedade civil organizada.

CC: Lula não buscou essa aliança com a sociedade civil?
LE: O que Lula fazia? Ele colocava as lideranças sindicais numa mesa para negociar. Criou uma cota de 10% das contribuições para as centrais sindicais, esvaziando os sindicatos de base. Na prática, cooptou o movimento sindical. Repare: o dia 1º de maio perdeu completamente o sentido. As centrais não organizam mais manifestações, parece que nem há mais uma pauta de reivindicações. Agora tudo não passa de uma grande festa, com shows, sorteio de automóveis. E por quê? As centrais deixaram de ter uma relação de confronto com o governo, de luta por novas conquistas. Matou-se a mobilização, o protagonismo popular, a possibilidade de aliança com esses setores para fazer o enfrentamento necessário das contradições que se impõem na sociedade.

CC: A chamada “Nova Classe C” foi uma das principais beneficiárias dos avanços sociais das últimas décadas, mas agora engrossa a rejeição ao governo Dilma Rousseff e parece ter incorporado o antipetismo. Por quê?
LE: Os programas sociais não promoveram ninguém de classe. Eles deram o fundamental básico: alimentação, a comida de todo o dia. Com o boom da economia, tivemos uma expansão na oferta de crédito. No salário mínimo, houve recuperação de perdas e um aumento real. Por outro lado, o sistema tributário não fez isso, pois é regressivo. Proporcionalmente, paga mais quem ganha menos. Portanto, não foi um governo que emancipou as pessoas. Ele apenas as transformou em consumidores. Facilitou-se a compra do televisor de plasma, do celular moderno, do primeiro automóvel. Mas eles querem mais. Não há uma lealdade com os governos petistas. Num primeiro momento, até poderia haver, mas na medida em que se sentem ameaçados de perder esse poder de compra, eles se voltam contra. Até porque essas conquistas não foram resultado de uma luta por direitos, eles não foram emancipados. Se a economia vai mal, eles perdem tudo. Mas há um outro momento-chave para entender essa crise, que foram as manifestações de junho de 2013.

CC: A insatisfação já aparecia com força naquele momento...
LE: Sim, havia uma insatisfação muito grande com os políticos e com a política em geral. Tinha muitos jovens, mas também adultos, que vinham agastados com as práticas políticas do País. A palavra de ordem era: “vocês não nos representam”. Havia uma indignação muito forte com a corrupção. E essa juventude se via sem alternativa, pois os partidos ligados à organização dos estudantes também acabaram por cooptar o movimento estudantil. Na verdade, a maior parte dos movimentos sociais e populares perdeu sua autonomia, independência e legitimidade pela proximidade com os partidos no poder. Isso lhes custou a perda do protagonismo. Além da corrupção, os manifestantes reivindicavam saúde, educação e transporte de qualidade. Emergiu, ainda, uma enorme rejeição aos partidos. Nenhuma legenda conseguiu se aproximar e tomar as rédeas do movimento. Aliás, nenhum sindicato, nenhuma estrutura com organização mais orgânica.

CC: A reação do governo foi inadequada naquele momento?
LE: Muito. Foi uma resposta superficial, improvisada e sem sustentação alguma. Dilma prometeu, por exemplo, uma reforma política a ser aprovada por uma Constituinte exclusiva. Não conseguiu emplacar, até por não ter amparo legal. O programa Mais Médicos, embora importante, não é a solução para os problemas da saúde. Enfim, ela apresentou um conjunto de medidas improvisadas, que não se viabilizaram ou que eram incapazes de acenar para a resolução dos problemas. Acredito que tanto o governo quanto o Legislativo acreditaram que aquele movimento iria se esvair aos poucos e tudo voltaria a caminhar como antes. Mas a cinza estava quente, a brasa ainda estava acesa. E a insatisfação voltou a transbordar em março deste ano. Só que forma mais irada, mais odienta, com fortes preconceitos e ameaças de retrocesso. Em meio ao “Fora Dilma”, surgem mensagens de ódio. Até porque a direita está assanhada.

CC: Mas o que explica, então, a reeleição de Dilma em 2014?
LE: Na verdade, não havia uma alternativa. Aécio Neves, do PSDB, representava mais do mesmo, além de ser um candidato desgastado, tanto que perdeu no estado dele. Os candidatos tinham propostas muito parecidas, se nivelavam. Tínhamos a Marina Silva, que ameaçou chegar ao segundo turno. Ela apresentou o seu programa, mas acabou muito prejudicada, pois virou alvo constante de ataques dos adversários. Veja o porcentual de votos brancos, nulos e abstenções. Atingiu quase um terço do eleitorado. É muita coisa.

CC: Não havia uma diferença no campo econômico? Dilma prometera não ceder à ortodoxia econômica, embora tenha feito o oposto ao iniciar o segundo mandato, com o seu indigesto pacote de ajuste fiscal...
LE: É verdade. No primeiro mandato, Dilma adotou uma série de medidas que não agradaram à ortodoxia financeira, ao mercado em geral. Por isso, ela conseguiu se credenciar junto a um eleitorado que não era exatamente o dela, mas queria evitar a política econômica do outro candidato, o velho modelo tucano de governos anteriores. Mas não havia muita opção, ou era o remédio petista ou o tucano. A proposta de Marina não empolgou, ela virou alvo de ataques e não soube fazer a defesa adequada, além de não ser a cabeça de chapa do PSB. Tornou-se candidata após a morte de Eduardo Campos. Há um conjunto de circunstâncias que explicam o desempenho eleitoral. Mas o fato é que não havia um candidato favorito, e a prova disso é que ficamos o tempo todo especulando quem iria para o segundo turno.

CC: Em que medida o desgaste do PT no poder não traz prejuízos para a esquerda como um todo?
LE: E que esquerda nós temos mais? Temos algum partido de esquerda? Acredito que temos algumas pessoas, certos princípios, uma referência socialista, uma utopia que alimenta a muitos. Mas eu não posso mais dizer que o meu partido, por exemplo, é de esquerda. Aliás, o PT é de esquerda? O PCdoB também? Se a gente se refere à história dessas legendas, às suas origens, aos sonhos que eles alimentaram por décadas, podemos dizer que sim. Mas isso não se reproduz nos dias de hoje. A esquerda está em xeque, porque envelheceu. Os seus paradigmas, seus propósitos, a sua utopia se esvaziou. É um fenômeno mundial.

CC: A reforma política poderia trazer algum lampejo de esperança?
LE: Participei de todas as comissões especiais dedicadas à reforma política desde o meu primeiro mandato, iniciado em 1999. Estou convencida de que qualquer reforma traria remendos num tecido já esgarçado, absolutamente não funcional para o momento em que o País vive. Há expectativas que surgem da evolução das novas tecnologias da informação. A internet está criando novos valores, paradigmas e exigências. Hoje, temos um marco legal, institucional e estrutural absolutamente obsoleto. De que adiantaria melhorar uma ou outra norma eleitoral? Que diferença faria mudar uma ou outra regra aplicada aos partidos, se eles carregam consigo toda uma cultura ultrapassada? Há um esgotamento dos modelos de Estado, democracia e representação política. Por isso, vemos essa rebelião na Espanha, na Grécia, em Portugal, na Itália, na Tailândia. Mas há também o surgimento de uma nova onda, em que a juventude vem movida por outros sonhos e utopias. Essa é uma experiência que começou na Europa e surge agora no Brasil com o Raiz.

CC: O que este novo partido, em formação, traz de diferente?
LE: O Raiz é um embrião. Começou da luta de alguns companheiros da Rede Sustentabilidade, que se frustraram com a proposta da Marina Silva após ela fazer uma inflexão para o velho e ultrapassado modelo de fazer política. Depois, o movimento ganhou a adesão de outros cidadãos dispostos a participar. Qual é a grande novidade: o sujeito político deixa de ser a liderança partidária, e passa a ser o sujeito coletivo. Segundo Hanna Arendt, a política é a ação de sujeitos coletivos. E, atualmente, eles não querem mais se expressar pela mediação de partidos, e sim por organizações horizontais, articuladas em rede, de forma absolutamente plural. Mesmo com um apelo à utopia socialista, suas estruturas, sua forma de organização, até para disputar o poder, é absolutamente oposta a tudo o que está aí. Eu participei da elaboração do manifesto do Raiz, vi o documento ser construído coletivamente, em rede, pela internet e em encontros presenciais. Vi as teses sendo votadas por todos os participantes. É real isso, eu presenciei. E esses jovens, alguns com 16, 17, 18 anos, têm uma capacidade de análise política surpreendente.

CC: Essa turma estava nas manifestações de 15 de março?
LE: Não, não. Um ou outro poderia estar, mas não a maioria. Quem foi para as ruas em 15 de março não parece ter o interesse de construir nada, de propor uma outra coisa. Mas essa outra coisa vai vingar, pode escrever. Até porque já está preenchendo um vazio nas mentes e nos corações das pessoas. Esse é um projeto dos jovens, empenhados em fazer algo diferente. Não é o fim da política, não é o fim da disputa pelo poder, é algo muito novo em resposta à crise dos modelos antigos. É uma nova forma de organização política, sem a forma de um partido, em que o sujeito não tem dono, não tem estrutura orgânica e rígida. Vai seguir as regras eleitorais de formação de partido só para se legalizar. Mas a prática política e a relação entre as pessoas é de outra natureza.

CC: Mas qual é a proposta que orienta esse novo partido?
LE: Temos eixos que marcam a nossa proposta. É o bem-viver, e não o viver bem. Trata-se de viver em harmonia com a natureza. Propomos o ecossocialismo, uma proposta de desenvolvimento que leva em conta o equilíbrio da natureza. Evidentemente, haverá um programa, para não ficar só nas ideias abstratas. Mas a forma de fazer política é radicalmente diferente. Você viu o encontro do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, com a chanceler alemã, Angela Merkel? Fiquei impressionada. Ele é um menino, bem jovem. Conseguiu impor-se ao poder maior, forçou a Alemanha a negociar. Repare a diferença nos semblantes. Merkel, com sua postura sisuda, e o menino Tsipras sorridente, com uma desenvoltura enorme. Estamos vivendo um novo tempo. Gostaria de ter mais tempo de vida para ver os frutos dessa experiência que está sendo gestada. O poder é muito bom, necessário, útil, sem ele você não muda nada. Mas a questão central é: a quem ele serve hoje? Queremos que sirva ao sujeito coletivo, e isso é muito novo, é revolucionário. Claro que isso é uma mudança cultural, leva tempo para ser gestada. Mas eu acredito nisso. E não estou mais com idade para me enganar e viver uma fantasia.