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Sociedade

Entrevista - Eduardo Bandeira de Mello

“Os clubes só podem gastar o que arrecadam”

por Rodrigo Martins publicado 19/05/2015 04h55, última modificação 19/05/2015 16h42
O presidente do Flamengo apoia as contrapartidas de gestão responsável previstas na MP do Futebol
Agência Senado
Eduardo Bandeira de Mello

O presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, apoia contrapartidas de gestão responsável

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, é uma das principais vozes em defesa da Medida Provisória 671, assinada por Dilma Rousseff em março. Em sua essência, a MP do Futebol, como ficou conhecida, é mais um parcelamento dos débitos dos clubes com a União. Mas, pela primeira vez, exige contrapartidas de gestão responsável.

Estimada em 3,5 bilhões de reais, a dívida tributária poderá ser paga em até 240 meses, com redução de juros e multas. Para aderir ao refinanciamento, os clubes ficam obrigados a publicar demonstrações contábeis auditadas por empresa independente, manter em dia pagamentos trabalhistas, previdenciários e de impostos, além de limitar em 70% da receita os gastos com salários do departamento de futebol.

O presidente rubro-negro empenha-se na lição de casa. Em abril, conseguiu reformar o estatuto de seu clube, com a incorporação de mecanismos de responsabilidade fiscal. Agora, um dirigente que incorrer em gestão temerária poderá ser responsabilizado judicialmente.

Dos 20 maiores times do Brasil, o Flamengo é o único que reduziu o endividamento líquido de 2013 para 2014, segundo a consultoria BDO. Em grande medida, o êxito deve-se ao enxugamento da folha de pagamentos do futebol, que recuou de 78% das receitas, em 2008, para 49%, em 2014.

Com 35 anos de experiência no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o administrador considera a MP do Futebol um marco importante para a reestruturação do esporte. “Não resolverá todos os problemas, mas é um excelente ponto de partida.” Após participar de uma audiência pública sobre o tema no Senado, o presidente do Flamengo conversou com CartaCapital. Confira a entrevista a seguir.

CartaCapital: Quais são as principais inovações no estatuto do Flamengo?

Eduardo Bandeira de Mello: Buscamos adotar as melhores práticas de responsabilidade fiscal e orçamentária. A partir de agora, o Flamengo está protegido dos maus dirigentes, de quem pratica apropriação indébita, sonegação, gasta além do que pode. Nesse caso, o dirigente pode sofrer processo de impeachment e ser responsabilizado judicialmente, como pessoa física. Esse esforço é uma prova de que estamos empenhados com a responsabilidade fiscal, não é apenas um discurso da boca para fora.

CC: Como o senhor avalia a MP 671?

EBM: A MP do Futebol é um marco importante. Não resolverá todos os problemas, mas é um excelente ponto de partida. O texto precisa ser aperfeiçoado no Congresso, mas estou otimista. Chegaremos a um acordo.

CC: O senhor é favorável às contrapartidas propostas no texto?

EBM: Plenamente favorável. Algumas coisas podem ser revistas, como o Artigo 8º, que exige dos clubes uma conta única. Mas, de maneira geral, as contrapartidas são necessárias, até porque os clubes vão se beneficiar de um parcelamento da dívida fiscal em condições mais do que razoáveis.

CC: O senhor acha necessário limitar os gastos com salários de jogadores?

EBM: Alguns clubes tomaram essa medida espontaneamente, como é o caso do Flamengo. Os que não adotaram estarão competindo conosco de forma desigual. O ideal seria que todos se conscientizassem da importância da gestão responsável, mas como isso não acontece, tem mesmo que constar na lei. O Fair Play Financeiro funciona como uma espécie de antidoping. Quem gasta além do que pode deve ser coibido.

CC: Como resistir à pressão da torcida por contratações dispendiosas?

EBM: Essa pressão existe, mas a maior parte da torcida entende que, para o Flamengo ser grande a longo prazo, ele não pode agir por espasmos ou lançar mão de contratações irresponsáveis. Isso pode até render frutos esportivos num primeiro momento. Depois, gera problemas mais graves para o clube. A exemplo do que acontece com nossas famílias, com nossas empresas, os clubes só podem gastar aquilo que arrecadam.

CC: De acordo com a CBF, a MP 671 fere a autonomia das federações esportivas e representa uma ingerência do governo na gestão dos clubes.

EBM: A autonomia das instituições deve ser preservada. Mas os clubes precisam aceitar as contrapartidas. Se não concordam, podem abrir mão do parcelamento. Assim, poderão pagar suas dívidas tributárias com as condições que desfrutam hoje. A exigência das Certidões Negativas de Débito deve prevalecer. Não há por que a CBF e as federações estaduais deixarem de exigir isso dos clubes para autorizá-los a participar de campeonatos.