Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Carta nas Eleições / "Se o senhor for eleito, vai implantar o comunismo no Maranhão?"

Política

Maranhão

"Se o senhor for eleito, vai implantar o comunismo no Maranhão?"

por Renan Truffi publicado 25/08/2014 21h16, última modificação 26/08/2014 12h27
Em entrevista à afiliada da Globo, candidato do PCdoB, Flávio Dino, foi confrontado com perguntas típicas do submundo da internet
Reprodução/TV Mirante
Flávio Dino na TV Mirante

Jornalista da TV Mirante e o candidato do PCdoB, Flávio Dino (dir.)

Na sexta-feira 22, a TV Mirante, afiliada à Rede Globo que pertence à família do senador José Sarney (PMDB-AP), levou ao ar uma entrevista com Flávio Dino (PCdoB), candidato ao governo do Maranhão, e concorrente de Lobão Filho (PMDB), aliado de primeira ordem dos Sarney, como parte de uma série de entrevistas com os candidatos ao governo do estado. Mas o programa quase não tratou de propostas. Isso porque o repórter da emissora Sidney Pereira e a âncora do Jornal do Maranhão, Amanda Couto, gastaram boa parte do tempo da conversa para questionar se Dino irá “implantar o comunismo no Estado”.

Não por coincidência, há aproximadamente um mês, em um artigo publicado no jornal 'O Estado do Maranhão', também controlado pela família Sarney, o próprio senador atacou o candidato do PCdoB. Segundo José Sarney, Dino "deseja o comunismo no Maranhão". E foi a esse ponto que o jornalista da emissora de TV se agarrou. Pereira começou a entrevista citando um trecho do estatuto do PCdoB que diz que os mandatos conquistados nas urnas pertencem ao partido e não ao candidato. Diante disso, ele questionou se Flávio Dino iria submeter suas decisões à consulta de membros da legenda. “Claro que não. Pelo contrário. Na verdade nosso mandato, se acontecer, será de todos os maranhenses. O que nosso estatuto diz que é que os partidos políticos que são garantidos e assegurados pela Constituição têm a sua importância na democracia”, rebateu o candidato.

Depois de insistir no tema, o repórter partiu para outra pergunta sobre o mesmo assunto. Mas já de forma mais enfática: “Ainda segundo o estatuto do partido, ele deixa muito claro que os comunistas visam a conquista do poder pelo proletariado e seus aliados e tem como objetivo superior o comunismo. Se o senhor for eleito, o senhor vai implantar o comunismo no Maranhão?”, questionou Pereira apesar disso ser incompatível com a Constituição Federal.

Coube ao candidato, então, explicar essa impossibilidade constitucional ao jornalista. “Sidney, isso implicaria em revogar a Constituição e todas as leis brasileiras. Nenhum governo pode fazer isso. Realmente a pergunta parte de uma premissa segundo a qual o Maranhão seria algo contrário à Constituição e às leis", resumiu Dino antes de criticar o tom da pergunta. "O meu compromisso, a minha vida toda, é cumprir a Constituição e as leis e assim vai ser feito. Eu sou um democrata. O meu partido defendeu a democracia e eu não entendo, Sidney, porque tanta perseguição que tem um, inclusive, um sabor de ditadura militar. Eu acho que esse tempo passou. A ditadura faz 50 anos. Nosso partido foi legalizado há 30 anos e causa-se muita estranheza ao Brasil e ao Maranhão tanta perseguição e tanto ódio a um partido que serve ao Brasil”, rebateu.

A entrevista seguiu. Couto questionou o candidato sobre a coligação com partidos conservadores, sobre a aliança entre PT e PMDB no Estado e ainda sobre o uso da imagem do ex-governador de Eduardo Campos no horário eleitoral do PCdoB. O candidato respondeu todas as questões. Mas a vez voltou para Sidney Pereira que, novamente, quis falar sobre comunismo.  O repórter disse que "teve o cuidado" de olhar o programa de governo de Flávio Dino e que no documento consta a proposta de criar uma rede solidária em parceria com as igrejas católicas. Em seguida, perguntou: "Como comunista, como é que o senhor pretende convencer a Igreja Católica e os católicos a votar no senhor e apoiar esse projeto? Qual o argumento?".

"Primeiro que o estado é laico", retrucou Dino. "Na verdade, a religião não se confunde com a política. E eu sou católico, por isso talvez seja mais fácil até convencer os católicos. E sou cristão, por isso que há muitos evangélicos ao nosso lado. Tenho muita alegria e muito orgulho de ter milhares de militantes de várias igrejas ao nosso lado. Por isso estamos propondo uma grande parceria na campanha. Políticas sociais de combate às drogas, ao analfabetismo...a igreja tem e terá grande papel no meu governo", complementou Dino.

Se o motivo da pergunta ainda não tinha ficado claro, o próprio repórter resolveu explicar. "Então é bom esclarecer, né, porque a partir do momento em que se é comunista fica a ideia de que é [também] ateu. Não é bem assim?", concluiu ele antes de ser corrigido pelo candidato. "Eu sugiro a você, Sidney, ler o livro Ato dos Apóstolos, capítulo quatro, versículo 32, que dá uma boa definição do modo de vida dos cristãos. E como quem é comunista defende a comunhão, defende a comunidade, e é contrário ao império do dinheiro, à ditadura do dinheiro. É um bom caminho você ver que é possível, sim, como eu, ter a alegria de ser comunista, cristão, maranhense e brasileiro".

Quem acompanha a política brasileira sabe que os estatutos dos partidos são, em geral, manifestos ideológicos com pouca ou nenhuma conexão com a realidade, até porque costumam ser desatualizados. Ataques com base nesses documentos são comuns no submundo da internet, onde também viceja a teoria conspiratória de que grupos esquerdista planejam implantar uma ditadura comunista no BrasilEm maio, quem teve problemas com seus estatuto foi o PSB, então com Eduardo Campos na cabeça da chapa presidencial. Por conta dos ataques que sofria no submundo virtual, o partido cogitava atualizar seu manifesto para retirar referências a "socialização dos meios de produção" e limites à propriedade privada.