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"Somos uma entidade técnico-científica sem fins econômicos", diz Abendi

por Fabio Serapião — publicado 10/06/2014 12h27, última modificação 10/06/2014 14h53

Em sua edição 799, CartaCapital veiculou a reportagem “Falta Água, jorra dinheiro”, na qual expôs a denúncia de uma ex-funcionária da Sabesp sobre irregularidades em licitações do Programa de Redução de Perdas. O documento encaminhado à presidente da Sabesp, Dilma Pena, e ao Ministério Público detalha um suposto conluio de empresas para abocanhar os contratos. Segundo a ex-funcionária, de sua parte, a Sabesp limitava o mercado ao pedir certificação expedida pela Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos – Abendi, enquanto a associação só certificava profissionais das empresas do grupo. O caso é investigado pela Promotoria do Patrimônio Público e Social da capital paulista.

Após a publicação da reportagem, a Abendi entrou em contato com o objetivo de contestar alguns pontos da reportagem e esclarecer sua relação com a Sabesp e as licitações do Programa de Redução de Perdas.  Em entrevista concedida ao Blog Do Serapião, os diretores da Abendi afirmaram que os diretores das empresas citadas na reportagem são, apenas, eventuais membros do comitê setorial de saneamento da instituição e não associado ou membro da diretoria da Abendi.

Blog do Serapião: O que é a Abendi e qual seu trabalho no processo de certificação de profissionais de saneamento?

João Conte*: A Abendi é uma entidade técnico cientifica sem fins econômicos, de direito privado e independente.  Ela tem como função difundir a tecnologia dos ensaios não destrutivos para preservar a vida das pessoas e o meio ambiente. Essa difusão da tecnologia a gente faz por meio de uma série de atividade: treinamento e capacitação de pessoas, edição de revistas técnicas, publicações e realização de feiras e eventos e, uma atividade muito importante, que é a certificação de pessoas. Nós somos um OPC, Organismo de Certificação de Pessoas, no âmbito do Inmetro. Nós somos acreditados pelo Inmentro para a certificação de pessoas em diversas modalidades, entre as quais, exatamente o sistema de detecção de vazamento não visíveis em tubulações enterrados.

BS: Nesse caso especifico, o que acrescenta a um profissional ter esse certificado?

João Conte: Para o profissional é muito importante, porque atesta a competência, a capacidade que ele tem de fazer aquela inspeção. Para a empresa é importante  porque ela tem um profissional certificado, confia na habilidade, no conhecimento e na capacidade de execução e, mais do que isso, na emissão de um atestado um relatório final. No caso de ensaios não destrutivos, é um modelo internacional, precisa desse tipo de certificado. Estamos falando de profissionais que estão fazendo uma inspeção e que vão dizer se esse tal equipamento ou componente pode continuar operando. Esse equipamento pode ser um avião, uma usina nuclear. Então a parte de atestar a habilidade, conhecimento e capacidade é muito importante. Esse profissional se destaca no mercado pela certificação que ele possui.

BS: Na prática, qual a diferença de um profissional com e outro sem certificado Abendi?

João Conte: A diferença vai atestar que esse profissional passou por um processo esquematizado de certificação e que ele tem, comprovadamente, as suas habilidades e conhecimentos para execução daquele ensaio.

João Rufino**: Quando profissional certificado emite seu relatório da inspeção a gente pode ter segurança naqueles resultados. As ações decorrente depois - ou reparos, trocas - são executadas com maior tranquilidade, quando baseadas em uma relatório emitido por um profissional devidamente capacidade, que é isso que o profissional certificado é.

BS: Os certificados Abendi são solicitados por todas companhias de saneamento do país?

João Rufino: Em algumas sim: Sanepar, no Paraná, Cagece, no Ceará, Sanasa, em Campinas, Copasa, em Minas Gerais. Mas, notadamente, aqui em São Paulo, onde tudo começou.

BS: Qual relação da Abendi com a Sabesp?

João Conte: A Sabesp é uma empresa associada Abendi. Nossa relação especifica com a Sabesp é nessa atividade de certificação de pessoas. Além da relação de sócia, os benefícios que ela tem como associada, nós atuamos nessa parte de certificação de pessoas.

João Rufino: Nós temos um acordo de cooperação técnica com a Sabesp que é uma assessoria na parte relativa a ensaios não destrutivos de inspeção.

João Conte: Inclusive a Sabesp que nos procurou há muitos anos atrás para criar esse esquema de certificação de pessoas de detecção de vazamento e, na época, até de empresas. Depois focamos na parte de certificação de pessoas.

BS: A Sabesp solicita o certificado Abendi em seus editais relativos ao Programa de Redução de Perdas.  Segundo os senhores, o certificado aponta que o profissional tem melhor capacidade técnica que os demais. Dessa forma, a Abendi saberia responder por qual motivo, entre 2008 e 2013, mesmo utilizando profissionais Abendi e investindo cerca de 1,1 bilhão em contratos o índice de perdas aumentou ao invés de diminuir?

João Conte: Nós entendemos o seguinte: o Programa de Redução de Perdas é uma coisa muito mais ampla. Eu não conheço em detalhes o programa, mas acho que a certificação de pessoas para detecção de vazamentos em tubulações enterradas é apenas um componente desse programa que tem uma universalidade muito maior. Eu te diria que o fato de ter profissionais certificados contribuiu de forma significativa para a melhoria desse componente do programa.

João Rufino: Concordo, mas a Abendi poderia ter contribuído muito mais. Nós estamos falando de 180 profissionais, é muito poucos. Considerando que São Paulo tem 250 mil quilômetros de tubulações.

BS: Esses 180 profissionais certificados são só em São Paulo?

João Rufino: Não, não é só São Paulo não. Tem Paraná, não tem nada pra São Paulo. É muito pouco. Na área de petróleo são 18 mil no Brasil. É muito pouco.

BS: A Abendi analisa como legal a solicitação do certificado pela Sabesp em seus editais?

João Conte: Sim. A atividade está normalizada, por lei a Sabesp como empresa estatal é obrigado a usar a norma ABNT. Nós estamos implementando a ABNT. O sistema é aberto, qualquer um pode certificar. Nós somos acreditados, é legal, não tenho dúvida nenhuma.

BS: A Abendi entende por qual motivo a Sabesp pede o certificado Abendi e em outras não?

João Conte: Não sabemos responder.

João Rufino: Para nós, o que é importante, é que ela utilize a técnica mais moderna. A gente não sabe nem quanto tem licitação. Às vezes eles pedem algumas informações e a gente manda. Mas o por que, nós não sabemos.

BS: Em relação à matéria, a Abendi gostaria de dar mais alguma explicação?

João Conte: Nós não temos um critério de que para participar de um comitê setorial necessariamente tenha que ser associado da Abedi, até pra dar a independência. A maioria das empresas que participam não são sócias da Abendi. Deixar claro também que temos uma governança - a diretoria, conselho de administração e conselho fiscal – que são eleitos a cada dois anos. Também, das empresas citadas na matéria, apenas um caso de pessoa dessas empresas que participaram da diretoria da Abendi.

BS: Os membros da Abendi não são diretores de empresas citadas na matéria. São apenas membros do comitê setorial?

João Conte: Isso. O comitê setorial são profissionais que se reúnem para definir o conteúdo técnico da certificação. Eles definem como eles entendem que precisa ser a certificação. Após isso eles passam para outro comitê, o bureau, formado por especialistas em certificação. No bureau, eles vão verificar tecnicamente se é possível e se existe alguma coisa lá fora de novidade. Depois disso é enviado para o conselho que aprova ou não. O Comitê é um suporte técnico, ele não influência em nada o processo de certificação.

* João Conte é diretor executivo da Abendi.

** João Rufino é diretor de certificação da Abendi