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O PT se perde em São Paulo

por Fabio Serapião — publicado 16/05/2015 09h51, última modificação 16/05/2015 10h08
O PT paulista prefere perseguir dissidentes a se opor ao PSDB no estado mais rico do País
Vera Massaro / Alesp
Ênio Tatto e Fernando Capez

Ênio Tatto e Fernando Capez no dia da votação do "Trem da Alegria", apoiado por PT e PSDB

A votação para a criação de cerca de cem cargos por livre indicação, sem concurso público, na Assembleia Legislativa de São Paulo causou um racha no PT paulista e expôs seu atual modelo de organização partidária, cada vez mais distante da base eleitoral e dominado por caciques. O péssimo exemplo dos petistas do estado mais rico do País, quase sempre replicado na esfera federal, é uma das principais causas do desgaste atual, enfrentado apenas com um ensaio de mea-culpa veiculado na terça-feira 5 em rede nacional.

Após o apoio do PT na aprovação do projeto, três deputados dissidentes, Carlos Neder, João Paulo Rillo e Professor Auriel, classificaram como desnecessário o gasto com os novos cargos e afrontaram o comando do partido, representado pelo primeiro-secretário, o deputado Enio Tatto. A crítica mirava os caciques responsáveis por influenciar as decisões dentro da Assembleia, inclusive a nomeação de Tatto. Não é de hoje que a bancada petista descuida de sua função de maior partido de oposição, e segue estritamente a indicação desses líderes interessados nos acordos pelo poder. Nos últimos anos, os petistas apoiaram a aprovação do Código Florestal criticado por setores do partido, facilitaram a aprovação de financiamentos de obras de metrô que nunca saem do papel e são citadas em escândalos, e desfrutaram das benesses de um Legislativo pouco transparente e distante da sociedade.

O próprio Rillo, ex-líder do partido na Casa, em entrevista ao site de Carta-
Capital
, criticou o afastamento do PT de suas bases, a ausência de um projeto partidário e denunciou a interferência do presidente do diretório estadual, Emídio de Souza, e do prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, na recondução de Tatto à primeira secretaria, cargo mais importante depois da presidência, ocupada pelo tucano Fernando Capez. Tatto, disse Rillo, é o símbolo da oposição frouxa na Assembleia. 

Em vez de ouvir as vozes de sua militância e de uma minoria que ainda insiste em lembrá-lo de sua história, o PT paulista prefere perseguir os dissidentes. Após a entrevista, Rillo foi convidado para uma reunião no diretório estadual, na qual foi duramente criticado. Dias depois, suas aparições foram excluídas do programa regional de tevê da legenda, única forma de o parlamentar aparecer perante seu eleitorado, e do calendário enviado para os filiados.

O bastidor da manutenção de Tatto na primeira secretaria é interessante e revela como o antigo partido torna-se cada vez mais uma versão caricata do PMDB e do próprio PSDB, seu principal rival. Disposto a ser o próximo candidato petista ao governo paulista, Marinho visava com a recondução de Tatto garantir o aumento de seu poder na corrente interna Construindo um Novo Brasil (CNB), a maior da legenda. O antigo grupo da família Tatto, o PT de Lutas e Massas, integrou-se ao CNB guiado por Marinho, a quem apoia a partir daí. Por sua vez, Souza procurava mais força política e influência. Fora do Executivo e sem cargo eletivo, o presidente estadual precisa manter sua estrutura para continuar no comando do diretório da sigla.

Com o apoio dos dois, Tatto atropelou a discussão na bancada, retirou o deputado Geraldo Cruz da disputa e manteve seu cargo de primeiro-secretário, fato inédito na histórica da Casa. O prêmio de consolação para Cruz foi a liderança da bancada. O resultado da interferência dos caciques surtiu efeito nos primeiros dias de mandado de Tatto. Tão logo garantiu sua recondução, o deputado articulou o apoio à proposta de Capez de criação do chamado “Trem da Alegria”. 

O projeto, apresentado pela mesa diretora da Casa, propõe utilizar os novos funcionários na Ouvidoria do Parlamento, no Gabinete da Corregedoria Parlamentar e no Núcleo de Avaliação Estratégica. As despesas aumentariam em cerca de 10 milhões de reais por ano e serviriam para bancar um cabide de empregos. Em tempos de crise, sem aumento para professores, fechamento de oficinas culturais, paralisação de obras e proposta de extinção de órgãos como a Fundação do Desenvolvimento Administrativo e do Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal, a proposta não poderia ser menos oportuna. 

João Paulo Rillo
João Paulo Rillo foi recriminado pelo PT após entrevista a CartaCapital

Mesmo assim, dos 14 deputados estaduais do PT, apenas os três citados foram contrários ao projeto. Os outros seguiram a indicação de Tatto. Outro exemplo é a postura da bancada na escolha das comissões no Legislativo a serem comandadas. Após negociações de Tatto, o partido deixou de lado a presidência das comissões de Saúde, Educação e Direitos Humanos, antigos bastiões petistas na Casa. 

Optou pela presidência da comissão de Infraestrutura e pela vice-presidência em Transportes. Na visão de um dos dissidentes, a escolha é facilmente explicada. “Essas comissões debatem obras milionárias, as outras preteridas discutem o bem-estar da população, em especial daqueles que antes formavam a base eleitoral do PT.”

O diretório estadual do partido informa não ser possível posicionar-se sobre os temas relacionados à bancada da Assembleia, uma vez que as decisões são de exclusividade dos deputados. O líder dos petistas, deputado Geraldo Cruz, disse desconhecer a ingerência de Souza e Marinho na recondução de Tatto e nas votações e escolhas de comissões a serem presididas pelo PT. 

A aliança tácita com os tucanos não tem rendido bons frutos. Ao contrário. Na eleição de 2014, o PT perdeu dez cadeiras na Assembleia e seu candidato ao governo, Alexandre Padilha, ficou na terceira colocação, o que não ocorria há duas décadas. Não se entende, portanto, o motivo de a legenda insistir no erro.

Leia resposta do PT-SP a esta reportagem

*Reportagem publicada originalmente na edição 849 de CartaCapital, com o título "Fora do palco"