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Política

Minas Gerais

Minas Gerais tem a disputa mais dura entre PT e PSDB

por Fabio Serapião — publicado 18/08/2014 04h07, última modificação 20/08/2014 18h38
Na terra de Aécio Neves, o cenário apertado não deixa espaço para qualquer tipo de terceira via
Paulo Liebert / Fotos Públicas

Em meio às montanhas de Minas Gerais só existem dois caminhos para os eleitores: um vermelho, outro azul e amarelo. Em nenhum outro estado importante da Federação a polarização entre PT e PSDB se mostra tão cristalina em praticamente todos os níveis. Não há espaço para uma terceira via. Segundo o último Ibope, Aécio Neves tem 41% dos votos à Presidência no estado, contra 31% de Dilma Rousseff. Na corrida estadual, o petista Fernando Pimentel, ex-ministro do Desenvolvimento, lidera com 25%, contra 21% do tucano Pimenta da Veiga, ex-ministro das Comunicações. Tarcisio Delgado, do PSB, não passa dos 3% das intenções de voto. A maior diferença está no Senado: o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB) registra 38%, enquanto o empresário Josué Gomes da Silva (PMDB) aparece com 7%. Para atrair mais eleitores, Gomes da Silva adotou na campanha o sobrenome Alencar, de seu pai José, vice-presidente de Lula.

Há muito em jogo em Minas. O embate em busca dos 15,2 milhões de votos é peça-chave tanto para a campanha de Dilma, cujo objetivo é ao menos se aproximar dos resultados das últimas três disputas nas quais o PT venceu no estado, quanto para os tucanos, ansiosos por utilizar a gestão administrativa mineira como trunfo de Aécio Neves e ter uma vantagem de votos substancial capaz de amenizar o mau desempenho no Nordeste. A tática petista é se concentrar na Região Norte de Minas, a mais pobre. Não por outro motivo, Montes Claros foi escolhida para o lançamento da campanha de Josué “Alencar” ao Senado, com a presença de Lula e Dilma. Outra aposta é a memória da boa avaliação de Pimentel à frente da prefeitura de Belo Horizonte. Por sua vez, os tucanos investem na capilaridade do partido e no conservadorismo do eleitor das cidades de médio porte localizadas no Sul, na máquina governamental e na alta aprovação dos dois ex-governadores, Aécio e Anastasia.

A batalha é tão importante que vale até recrutar aliados nas fileiras inimigas. Na segunda-feira 4, Pimenta da Veiga chamou uma coletiva de imprensa para anunciar o apoio do vereador petista Vitório Júnior, de Ribeirão das Neves, região metropolitana de BH. Os tucanos acreditam que a boa avaliação dos seus 12 anos de governo, somada ao descontentamento com as políticas do governo federal, principalmente a baixa divisão da arrecadação de impostos, para amealhar apoiadores na sigla adversária. A expectativa é de que mais nomes declarem apoio nos próximos dias. As alianças são outro empecilho para o PT. Embora tenha sido o partido com mais votos nominais nas eleições municipais de 2012, com 2,4 milhões, a sigla conseguiu atrair apenas quatro partidos desta vez. A força da dupla Anastasia-Aécio resultou em uma chapa com 14 legendas.

Mesmo em desvantagem nas alianças, Pimentel tem surpreendido petistas e tucanos ao aparecer em primeiro nas pesquisas até o momento. Para os correligionários, o resultado dos levantamentos demonstra o cansaço do eleitorado após 12 anos de tucanato. Os adversários creditam o desempenho ao fato de Pimenta da Veiga não ser totalmente conhecido pelos mineiros. “Com nossa vantagem no tempo de tevê, em uma semana de propaganda o Pimenta vai assumir a ponta e se distanciar do Pimentel. Basta o eleitor saber que ele é o candidato do Aécio e do Anastasia”, crava um integrante da coordenação da campanha do PSDB.

O PT quer aproveitar o horário eleitoral na tevê para manter-se na liderança. Segundo o partido, além de colar a imagem do candidato às figuras de Lula e Dilma, a meta é desconstruir o discurso tucano com base na eficiência do “choque de gestão” desenhado e implementado por Anastasia desde o primeiro mandato de Aécio, em 2003. Ao expor os dados sonegados por “uma mídia pouco crítica” e camuflados pela máquina publicitária, acreditam os petistas, as chances de vitória aumentam. “É um governo que faz propaganda do que não fez. Usam os programas federais para enganar o povo. Chega desse suplício. Minas tem de reencontrar o seu futuro”, sintetiza o candidato petista. Segundo Pimentel, a campanha precisa mostrar que o resultado dos três mandatos consecutivos dos adversários resultou no caos na segurança pública, a queda na competitividade em relação a outros estados, maquiagem de dados de educação e uma política de saúde inexistente.

Antonio Anastasia rebate a acusação de proteção da mídia local. O choque de gestão, diz o ex-governador, é uma realidade e tem resultado exitoso ao mostrar ser possível administrar o estado “gastando menos com a máquina e mais com o cidadão”. Na saúde, Anastasia afirma ter entregue um hospital regional, aumentado em 300% os gastos com custeio e beneficiado 180 hospitais com o ProHosp, enquanto o governo federal teria diminuído sua participação nos investimentos de 53% para 46%. O tucano aproveita para relacionar os problemas enfrentados na segurança a duas ações do governo federal: a aprovação da Lei de Prisões, em 2011, e a ineficiência no combate ao tráfico de drogas nas fronteiras. Desta vez, a fama conciliadora dos políticos mineiros está longe de representar a realidade e a disputa promete ser quente.

*Reportagem publicada originalmente na edição 812 de CartaCapital, com o título "As montanhas se movem"