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Política

Operação Lava Jato

Alberto Youssef delatou os principais doleiros do país em 2003

por Fabio Serapião — publicado 16/04/2014 21h46, última modificação 17/04/2014 17h15
Blog do Serapião teve acesso a parte dos depoimentos do doleiro que fazem parte da delação premiada assinada com a Justiça Federal do Paraná.

Em 2003, para se livrar de uma condenação na Justiça Federal do Paraná por ter sonegado cerca de 33 milhões de reais, o doleiro Alberto Youssef optou pela assinatura de uma delação premiada. Como parte do acordo, Youssef apontou os caminhos pelos quais o MPF e PF chegariam nos responsáveis pela movimentação de parte dos mais de 30 bilhões de reais enviados para o exterior por meio das contas CC5 do Banco do Estado do Paraná, o Banestado.

O Blog do Serapião teve acesso a uma parte dos depoimentos prestados por Youssef entre o fim de 2003 e início de 2004. Neles, o doleiro conta como começou a atuar no mercado de câmbio e qual foi o caminho até se transformar em um dos quatro maiores doleiros do país.

Interrogado: Bom, na verdade eu comecei a operar no câmbio em 1992, comecinho de 1993. Eu operei muito com o Juan Carlo Garcia, que era o Bobadilla, e o cunhado que era o Victoriano Rivas. Normalmente eles tinham as contas deles lá no Paraguai, lá em Foz do Iguaçu, e nós comprávamos cobertura deles, eles nos entregavam em Foz do Iguaçu e eu direcionava à conta deles que era para que se fizesse o depósito na conta deles. Naquela época era Bamerindus e era HSBC, era Bamerindus e era Banco do Brasil, e tinha alguma coisa de Unibanco também. Depois vieram as famosas contas CC5, porque até então eram contas com CPF normal que eram operadas, dificilmente as pessoas podiam depositar dinheiro direto na conta do Banco Del Paraná ou, naquela época não existia Integracion, mas existia o Banco Sur em Pedro Juan Cabalero, existiam outros bancos.

Youssef informou as autoridades não ser possível chegar aos clientes finais do dinheiro operado nas contas CC5 pelo fato de ser ele um doleiro que prestava serviço no atacado, ou seja, para outros companheiros de profissão. Segundo ele, esses clientes finais, políticos, empresários e afins, tinham contato com outros doleiros do varejo que, muitas vezes, utilizam os serviços prestados por ele, Youssef.

Juiz Federal: O senhor mencionou, quando nós estávamos conversando, que o senhor teria condições de identificar conta, de doleiro, de político, no exterior. O que o senhor tem de informação concreta sobre isso?

Interrogado: Eu disse que tinha como identificar contas de doleiros e que contas de políticos nós teríamos que procurar e vasculhar, mas, com os dados da minha conta, lógico que de cabeça eu não vou lembrar nome de conta uma por uma, mas com meus dados eu vou identificar todas as contas que saíram das minhas empresas, todos os pagamentos lá fora que saíram, eu vou indicar quem é a pessoa, quem é o dono daquela conta e quem foi a pessoa que indicou para ser paga aquela conta.

Juiz Federal: Por exemplo, um político que o senhor tenha trabalhado, vendido dólares ou efetuado essa operação de pagamento para lá? Tem algum?

Não, eu, a única operação que realmente eu fiz, que envolveu esse pessoal foi a operação que eu acabei de detalhar ela para o pessoal do Ministério Público Estadual, eu sempre operei com o mercado de câmbio, e, logicamente, o mercado, cada um tem seus clientes, então, por exemplo, se nós pegarmos um dos clientes que operava comigo que é o Mogarabi, você pode ver que tem pagamento da minha conta para a conta dele. Se você pegar você vai ver que ele era um dos doleiros do Pitta, que era o Prefeito de São Paulo. Então é onde a gente pode trabalhar no sentido de organizar isso ‘ó, fulano opera lá, beltrano opera....’

Em outro momento, respondendo a uma pergunta do juiz federal, Youssef dedurou os principais doleiros do país à época que utilizavam as contas do Banestado: “Um era eu, a Tupi Câmbios, a Acaray, Câmbio Real, Sílvio Anspach, o Mecer do Rio, o Rui Leite e o Armando Santoni”. Foi com base nessa afirmação de Youssef que surgiram as principais operações contra doleiros da primeira década dos anos dois mil.

Ministério Público Federal: Sim. Você tem ideia de quantos são esses doleiros que trabalham para doleiros e quem são?

Interrogado: Na minha época tinham poucos.

Ministério Público Federal: Na sua época até 2000?

Interrogado: Não, na minha época que eu falo é a época que eu realmente tinha cobertura para poder vender para o mercado né.

Juiz Federal: E que época que era isso?

Interrogado: Que era de 1995, final de 1995, 1996 até 1999 por exemplo, foi uma época que existia cobertura, meia dúzia, entendeu, que dava cobertura para o mercado, não tinha mais que isso. Não eram mais que 6, 7 pessoas.

Ministério Público Federal:   E quem seriam?

Interrogado: Bom, um era eu, a Tupi Câmbios, a Acaray, Câmbio Real, Sílvio Anspach, o Mecer do Rio, o Rui Leite e o Armando Santoni. O Antônio Pires, eu nunca negociei com ele, então o meu relacionamento com ele era praticamente zero, eu conheço de nome, e sei com quem ele operava, mas nunca assim...

A Tupi Câmbios, dos doleiros José Luiz Costa e Carlos Hugo Souza Palmerola, segundo Youssef, era responsável pela conta “Tucano”. Localizada na gaveta número 310035 do banco JP Morgan Chase, em Nova Iorque, a conta teria sido utilizada por membros do alto escalão do PSDB para enviar dinheiro de caixa dois de campanha e de propina angariada nas privatizações para o exterior. Laudos produzidos por peritos criminais da Polícia Federal, apontavam para uma movimentação de mais de 1 milhão de dólares em apenas dois dias de outubro de 1996. Entre os beneficiários, estavam o ex-diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio, do ex-ministro da Telecomunicações, Sérgio Motta, João Bosco Madeiro da Costa, então diretor da Previ, e do advogado americano David Spencer, este último tido como procurador de Ricardo Sérgio em várias contas no exterior.

Ministério Público Federal: Quem é Tupi Câmbios?

Interrogado:  Bom, Tupi Câmbios é de um grupo de Campinas, chamado ‘Colibri’, dono também da conta ‘Tucano’. Essa é a Tupi Câmbios.

Ministério Público Federal: São aquelas pessoas que nós também já denunciamos, é um grupo de paraguaios?

Interrogado:  Não, você acho que não denunciou um brasileiro que, um brasileiro não, se eu não me engano é chileno, chileno naturalizado paraguaio ou argentino não sei, que mora em Campinas.

Ministério Público Federal: Qual o nome deles?

Interrogado:  Na Tupi Câmbios eu conheço o Carlitos e o Zé Luiz, as outras pessoas eu não conheço.

Juiz Federal: Carlitos quem é? Carlos Palmerola?

Interrogado: Sim.

Outros dois doleiros citados por Youssef, Silvio Anspach e o Mecer (na verdade, Dário Messer), também foram alvos das autoridades brasileiras. Na Operação Farol da Colina, a PF mandou prender Messer e Anspach. O dois doleiros seriam ligados ao banqueiro Daniel Dantas e responsáveis pelo envio de dinheiro brasileiro que alimentou o Opportuniy Fund, responsável pela aquisição de empresas públicas privatizadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Juiz Federal: Quem eram os seus clientes na Beacon Hill?

Interrogado: Eu vou tentar lembrar alguns aqui. Um era o Agnaldo, outro era o Armando Santoni, que também detinha conta lá, o próprio Mecer tinha conta lá, o Mecer que eu falo é Kiko, o Richard tinha conta lá, mantinha conta lá, quem mais mantinha conta lá na Beacon Hill, o senhor Mário Cortez,  que é Gilberto Bezecrin, lá de Manaus, também mantinha conta lá, os que eu me lembre assim vagamente são esses.

Juiz Federal: Só antes de passarmos, o que era exatamente a Beacon Hill?

Interrogado: Beacon Hill era uma casa bancária onde ela administrava várias subcontas de várias Off-Shores da América do Sul, onde ele cobrava por esse serviço, pela administração, em fazer pagamentos e receber pagamentos.

Em um dos depoimentos que integram a delação premiada, Youssef também contou às autoridades o trabalhado desenvolvido pelo doleiro Hélio Laniado. Em 2005, pouco depois de Youssef contar o que sabia, Laniado foi preso como resultado da Operação Zero Absoluto. Conhecido pelas suas belas namoradas, entre elas Daniela Cicarelli e Carolina Ferraz, o doleiro foi considerado como o maior peixe fisgado pela força tarefa CC5. Entre 1995 e 2002, ele teria feitos remessas ilegais de 1,2 bilhão de dólares.

Juiz Federal: E quem era a Split especificamente, quem controlava essa empresa?

Interrogado: Eu não tinha contato com ela, mas se eu não me engano era o Hélinho.

Juiz Federal: Hélinho? Quem é essa pessoa?

Interrogado: Eu ouço falar por Hélinho, eu não tenho o sobrenome dele.

Juiz Federal:  Chegou a ter contato com essa pessoa ou não?

Interrogado: Não, não era meu cliente.

Juiz Federal: O senhor chegou a atuar nesse esquema dos precatórios senhor Alberto?

Interrogado: Não, não atuei.

MPF:  O Hélinho operava onde?

Interrogado: São Paulo.

MPF: Esse Hélinho é Hélio Laniado ou não?

Interrogado: Sim, Hélio Laniado.

Juiz Federal: E é sócio do Dario Mecer mesmo?

Interrogado: Pelo meu conhecimento é sócio.

Juiz Federal: O Kiko e o Mecer, o senhor tem conhecimento se eles tinham conta na Beacon Hill?

Interrogado: Tinham conta na Beacon Hill.

MAIS TRECHOS DA DELAÇÃO DE ALBERTO YOUSSEF:

Sobre Armando Santoni, Rui Leite e Paulo Malta

Delegado Falcão: Ele foi denunciado né. O senhor falou em Paulo Malta, o apelido dele é Frank, lá no Rio de Janeiro, avenida Nilo Peçanha, nº 50. É o que? O que ele tem lá? Uma casa de câmbio? Uma corretora de valores?

Interrogado: É uma empresa de consultoria, mas ele opera no mercado.

Delegado Falcão: O senhor sabe qual é a empresa de consultoria?

Interrogado: Não, não sei te dizer.

Delegado Falcão: É, porque essa Nilo Peçanha, nº 50 é um prédio comercial muito grande ali né. Uma empresa de consultoria. O senhor falou também de Armando Santoni e Rui Leite.

Interrogado: O Armando Santoni e o Rui Leite, eles operavam a conta Pescara, davam bastante cobertura para o mercado e uma das pessoas que eles....

Delegado Falcão: Essa conta Pescara é onde?

Interrogado: No Beacon Hill Service.

Delegado Falcão: No Beacon Hill. E continuam operando ou não? No mercado?

Interrogado: Eles separaram a sociedade e o Rui continua no mesmo endereço, na Assembléia, nº 10, 31º andar, o Armando foi para um outro que, eu acabei perdendo o contato, eu não sei onde é.

Delegado Falcão: O Armando Santoni foi sócio de uma empresa, na Atlantic Tur, há muitos anos não é?

Interrogado: Sim.

Sobre o doleiro Armando Pires:

Juiz Federal: Continuando aqui o depoimento do senhor Alberto, não sei se ficou gravado o final aqui porque tinha acabado a fita, é bom perguntar de novo.

Ministério Público Federal: A quem pertence a Tourist Câmbio?

Interrogado: No meu conhecimento e o que o mercado diz é que a Tourist Câmbio é do senhor Antônio Pires.

Ministério Público Federal: E um filho do senhor Antônio, chamado Paulo ou Paulinho, tem algum envolvimento com a empresa?

Interrogado: Eu nunca operei com o Antônio Pires, então eu não posso dizer, afirmar coisas assim mais consistentes.

Sobre a conta Beacon Hill:

Juiz Federal: Essas contas e subcontas Beacon Hill, e ter essas subcontas operadas por doleiros e tal, como que foi montado isso aí? Como que funcionava isso?

Interrogado: Na verdade essa questão de contas e subcontas no Estados Unidos existe há muito tempo, desde a Casa Piano, vocês já ouviram falar na Casa Piano do Rio de Janeiro,que depois quebrou em Portugal, quebrou e deixou muita gente falando sozinha, então. Na verdade a Casa Piano era uma casa bancária onde ela tinha várias subcontas ta certo, um dia o pessoal levantou acampamento e largou todo mundo falando sozinho. Quebrou e sumiu com o dinheiro.

Juiz Federal: E a Beacon Hill era isso então?

Interrogado: A Beacon Hill, na verdade, era isso. A Beacon Hill não eram uma remitência, era uma casa cambiária, onde ela tinha uma conta mestre e as subcontas e cobrava por esse serviço.

Ministério Público Federal: Mas isso é, qual é então o problema com a conta Beacon Hill que teve a intervenção dos Promotores americanos? O que o mercado diz? O que ela fez de errado?

Interrogado: Na verdade, o mercado, o que eu escutei sobre esse assunto é que a Procuradoria de Nova Iorque entendeu que a Beacon Hill estaria sonegando impostos, no entendimento da Procuradoria de Nova Iorque, mas, na verdade, ele já tinha requisitado a licença para casa cambiária, estava tudo encaminhado, e ele não movimenta contas de americanos dentro da Beacon Hill, e sim só de não residentes, então ele não está sonegando dinheiro nos Estados Unidos, agora eu não sei se o que ele cobrava dos clientes, se ele estava pagando impostos sobre o que ele cobrava dos clientes, eu não sei isso, essa questão de impostos.

Juiz Federal: Quando o senhor fala ‘ele’, o senhor sabe quem controlava? Quem era o proprietário daí dessa empresa?

Interrogado: Eu sempre ouvi falar o nome dele, me sumiu da memória, mas é Aníbal (incompreensível). Ele foi companheiro, se eu não me engano, da Carolina Nolasco num (incompreensível) no Big For House, que também quebrou nos Estados Unidos e também era uma casa cambiária, isso há tempos atrás.