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Política

Corrupção

A Lava Jato abre o leque

por Fabio Serapião — publicado 25/03/2015 13h58, última modificação 25/03/2015 14h36
Ao comemorar um ano, a investigação fecha o cerco ao PT e mira novas frentes com a prisão do operador da Delta
Geraldo Bubniak/AGB/Ag. O Globo
Lava Jato

Adir Assad e Renato Duque foram presos na nova fase da Operação Lava Jato

Ao encontrar um cômodo secreto na casa do ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, e prender o operador da Delta Engenharia, Adir Assad, os investigadores da Lava Jato completaram um ano de operação com a certeza de que muito ainda está por vir. Depósito de parte das 131 obras de arte apreendidas na fase “Que País É Esse?”, o espaço com refrigeração própria e escondido atrás de uma parede falsa era utilizado como arquivo de Duque, indicado para a estatal pelo ex-ministro José Dirceu. Distribuída em prateleiras e muito bem organizada, a volumosa documentação encontrada, esperam os investigadores, mostrará o caminho do dinheiro recebido e distribuído por Duque ao desempenhar a função de operador do Partido dos Trabalhadores na diretoria.

Segundo os agentes responsáveis pela prisão, a descoberta do esconderijo de Duque deu-se após a desconfiança de que haveria algo mais em um quarto com tamanho reduzido. Ao forçar a parede, os policiais encontraram um arquivo muito bem organizado em prateleiras separadas por tipo de documento. A expectativa dos investigadores é de que a divisão esteja relacionada com as contas movimentadas por Duque no exterior e empresas remetentes dos valores, cada qual com seu espaço e organização própria no cômodo secreto. Sobre as obras de arte, a força-tarefa desconfia que sua origem seja o pagamento de propina do operador Milton Pascowitch, suposto lobista da Engevix. Foram encontrados quadros de pintores como Djanira, Alberto Guignard, Heitor dos Prazeres, Agostinho Batista de Freitas, Antonio Poteiro e Yara Tupynambá.

A própria operação foi batizada em homenagem ao ex-diretor e revela a importância de Duque para o seguimento das investigações. Ainda na fase Juízo Final, em novembro do ano passado, ao ser informado por seu advogado a respeito de sua iminente prisão e posterior encaminhamento à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Duque reclamou: “Que país é esse?”. Posto em liberdade um mês depois pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, a nova prisão do ex-diretor transformou-se em questão de honra para os integrantes da força-tarefa. A nova oportunidade surgiu com o envio de provas pelas autoridades do Principado de Mônaco acerca da movimentação do equivalente a 70 milhões de reais em contas de sua titularidade.

Somados ao relatório enviado pelos europeus, os documentos apreendidos esgotam os argumentos da defesa de Duque e o empurram cada vez mais para um acordo de delação premiada. Nesse caso, o estrago feito pelas revelações de Paulo Roberto Costa no Partido Progressista, que contabiliza 31 políticos envolvidos no escândalo, se repetiria. No caso do PT, em proporções ainda desconhecidas. Concunhado e indicado por Dirceu ao cargo, embora ambos neguem, o novo “carequinha” a tirar o sono dos petistas era o preposto na petroquímica da cúpula do partido e interlocutor das empreiteiras e seus operadores.

Seus segredos, comenta-se nos bastidores, comprometem os petistas que transformaram o antigo partido de massas em uma versão vermelha do PMDB, com caciques cujo poder se sustenta na influência sobre contratos milionários de estatais com o setor privado. Ao lado do tesoureiro João Vaccari, com quem divide a lista de denunciados na segunda-feira 16 por corrupção e lavagem de dinheiro, Duque é a esperança dos investigadores para esclarecer os crimes cometidos na Diretoria de Serviços e iniciar uma devassa em todos os contratos das empreiteiras do cartel com estatais nos últimos dez anos.

Seu tutor também não teve boas notícias na semana de aniversário da Lava Jato. A abertura do sigilo da investigação contra Dirceu confirmou as suspeitas levantadas ainda em novembro do ano passado por CartaCapital em sua edição 827. Ao escancarar as relações de sua consultoria com grandes construtoras, lobistas como Milton Pascowitch e meios de comunicação, a quebra de sigilo sugere que o destino próximo do ex-ministro tende a ser o banco de réus da 13ª Vara Criminal de Curitiba. Em seis anos foram 29,5 milhões angariados pela JD Consultoria em contratos com empreiteiras do porte da OAS, UTC, Camargo Corrêa, Galvão Engenharia, Egesa e Delta Engenharia.

Em depoimento ao juiz Sergio Moro na terça-feira 17, o vice-presidente da Engevix, Gerson de Mello Almada, afirmou ter contratado os serviços do ex-ministro para fazer “lobby internacional” para a construtora. “O contrato previa duas fases. Ele não queria correr riscos. A primeira foi assinada com um valor para achar clientes. Uma segunda fase previa acerto de comissionamento”, afirmou o executivo.

Enquanto a prisão de Duque é um sinal de problemas para Dirceu e passo importante para a sequência da devassa nos contratos federais, a inclusão do paulista Adir Assad na lista de detentos da carceragem da PF de Curitiba aponta que a Lava Jato cada vez mais se aproxima de escândalos do passado recente. Descoberto nas investigações contra o bicheiro Carlinhos Cachoeira, Assad figuraria no papel de “Marcos Valério” da Delta Engenharia, em alusão ao operador do mensalão do PT e do PSDB, da empresa de Fernando Cavendish. Seu aparecimento na CPI do Cachoeira seria o motivo de a comissão ter encerrado seus trabalhos sem ao menos produzir um relatório final. A Operação Saqueadores descobriu que o engenheiro civil e empresário do setor de entretenimento movimentou por meio de suas empresas de fachada cerca de 1 bilhão de reais, entre 2006 e 2013. Proveniente de mais de 130 empresas com contratos públicos, o montante teria o mesmo destino dos bilhões desviados da Petrobras.

Flagrado em negócios suspeitos com as empresas fantasmas ligadas a Alberto Youssef, Assad terá mais uma chance para detalhar sua relação com a Delta, Andrade Gutierrez, UTC, Camargo Corrêa, Grupo JBS, Galvão Engenharia e Egesa, entre outros. O operador poderá esclarecer o motivo de a empresa de Cavendish ter em poucos anos saído do zero e se tornado uma das maiores construtoras até ser abatida pela CPI do Cachoeira. Nesse caso, um dos alvos principais seria o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, e os peemedebistas cariocas, entre eles o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Assad poderia contribuir ainda no esclarecimento das dúvidas levantadas pelas operações Vegas e Monte Carlo, que atingiram o governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB. O conhecimento do operador abarca, além das licitações federais, as gestões de José Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo e a de Gilberto Kassab na prefeitura da capital. Nos dois casos, a Delta ganhou licitações bilionárias.

No estado mais rico do País, o avanço da Lava Jato pode significar muita dor de cabeça para o tucanato. Não bastassem as obscuras e ainda não explicadas investidas da Delta e Assad nos contratos paulistas, os desdobramentos das investigações em Curitiba podem reavivar ao menos quatro escândalos dos 20 anos de PSDB no Palácio dos Bandeirantes. A começar pela temida Castelo de Areia. Com a delação dos dois executivos da Camargo Corrêa, Eduardo Leite e Dalton Avancini, os investigadores pretendem encontrar o caminho do dinheiro desviado nas fraudes flagradas pela operação de 2009 sem precisar das provas colhidas pela PF e anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. Como a empresa desistiu de colaborar, a tática dos investigadores é pressionar os executivos delatores. O acordo poderia ser rompido se eles não revelarem o que sabem.

Conta a favor das autoridades a quebra dos sigilos da construtora que pode levá-las às transações com as empresas de fachada e contas movimentadas pelos doleiros Kurt Pickel, José Diney Matos, Jadair Fernandes de Almeida e Maristela Sum Doherty. Assim como as empresas de Youssef na Lava Jato, na Castelo de Areia o núcleo operacional utilizava a Surpark, Admaster e Soft para mascarar os repasses da Camargo Corrêa aos operadores financeiros responsáveis por enviar o dinheiro da propina ao exterior. Ainda em 2009, as provas colhidas apontavam para o cartel de empreiteiras. Empresas como a Toyo, a OAS e a Queiroz Galvão foram citadas à época.

Um caso interessante investigado pela operação e que pode novamente ser alcançado é o cartel em obras do metrô de Salvador, São Paulo e Brasília. Por meio do compartilhamento das provas das investigações do cartel na Justiça Federal em São Paulo e no Cade, a força-tarefa teria a chance de esclarecer de que forma as empreiteiras atuaram no conluio para fraudar obras do sistema metroferroviário no Brasil inteiro. Um trunfo é o doleiro Raul Srour. Preso na primeira fase da Lava Jato, Srour é apontado por um diretor da empresa alemã Siemens como responsável por utilizar a conta Cristal Financial Services para receber, via Luxemburgo, pequeno país europeu, dinheiro da multinacional. Os destinatários da propina seriam agentes públicos. Com o conhecimento do doleiro, a Lava Jato explicaria o mistério em torno do cartel de trens e avançaria no caminho do dinheiro movimentado na Castelo de Areia.

Outro escândalo paulista a ser revisitado é a Operação Fratelli. Popularmente conhecida como Máfia do Asfalto, a investigação desmontou um esquema de venda de emendas parlamentares que abasteciam obras de recapeamento asfáltico no estado. No centro do caso está o Grupo Scamatti, de Votuporanga. Ligado a tucanos, o grupo ganhou milhões em licitações financiadas por meio de convênios mantidos por emendas de deputados estaduais e federais. Um dos casos envolve a BR Distribuidora. Sem motivo aparente, o que chamou a atenção dos investigadores de Curitiba, a BR Distribuidora foi contratada pela prefeitura de Mauá para executar uma obra de recapeamento de 25 milhões de reais. A execução foi repassada para uma das empresas comandadas por Olivio Scamatti. Em uma lista de propina apreendida com o empresário, constam os nomes de Donizete Braga, prefeito de Mauá, e dos deputados petistas José Mentor e Candido Vaccarez-
za, os dois últimos integrantes da lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviada ao STF.

Responsável pela queda do ex-prefeito Hélio de Oliveira, do ex-vice-prefeito Demétrio Vilagra e pela prisão da ex-primeira-dama de Campinas Rosely Nassim Jorge Santos, a Operação Sanasa é outra a se interligar à Lava Jato. Parado na Justiça, o caso tem como personagem o diretor da Camargo Corrêa Dalton Avancini. Ele chegou a ser preso naquela ocasião, acusado de pagar propina para conseguir uma obra na empresa municipal de saneamento que denomina a investigação. Relacionada ao caso da Sanasa, a Operação Durkheim igualmente entrou na mira da Lava Jato. As provas colhidas durante a ação policial podem auxiliar a força-tarefa a mapear os passos de Sergio Machado, indicado por Renan Calheiros para a presidência da Transpetro.

Alvo da Durkheim, o doleiro José Carlos Ayres operou por meio da Dester Terraplanagem em uma licitação da Transpetro para a construção de 80 barcaças no valor de 239 milhões de dólares. No relatório final da operação, a PF chama Ayres de doleiro atuante na prática do dólar-cabo por meio de contas sediadas nos principais paraísos fiscais do mundo. Além de ter repassado dinheiro a Ayres, o ERT, formado pela Estre Ambiental e SS Participação, tinha como gerente um sócio de Paulo Roberto Costa. Diz o MPF sobre o caso: “Coincidência ou não, o gerente do contrato do ERT, Alexandre Bruno, é ou foi consultor/sócio, líder de projetos em gestão empresarial no Grupo Pragmática”. Segundo a Polícia Federal, a Pragmática era utilizada por Costa para receber dinheiro oriundo da propina paga pelo pool de empreiteiras envolvidas no esquema comandado por Youssef. Em sua delação, Costa confirmou ter recebido 1,4 milhão de reais da Estre Ambiental pela licitação na Transpetro.

Como revelou CartaCapital na sua edição 833, quem deve estar de orelha em pé por conta do andamento da Lava Jato é o banqueiro Daniel Dantas. O banqueiro aguarda o avanço das investigações sobre a relação do grupo de Youssef com o doleiro Miguel Jurno e o banco português Carregosa.

Com suas 19 ações penais instauradas, 485 cidadãos e empresas investigadas, 36 pedidos de cooperação internacional, 12 acordos de delação premiada e mais de 110 inquéritos instaurados, a Lava Jato pode, enfim, responder à pergunta de Duque que nomeou a última fase da operação. Que País é esse?