Cultura

Pau da Visagem

por Haroldo Junior — publicado 20/11/2014 12h32
O pau da visagem era uma árvore que ficava na Estrada da Nação, nome do caminho na mata que levava até outras comunidades, que amedrontava todos na comunidade e servia para afugentar invasores
Haroldo Júnior

Haroldo Júnior, quilombola do Bacabal

Pau da visagem era uma árvore de sucupira que existia ao lado da Estrada da Nação, ou Estrada Funda.

Essa estrada levava até as comunidade de Barro Alto e Pau Furado, além de ao cemitério e ao porto dos pescadores denominado Porto da Cabeceira (ou Porto Matupirituba).

Certa vez, dois pescadores de Bacabal, compadre Apolinário e compadre Ambrósio, saíram para pescar. E se foram os dois aventureiros. Chegaram no local da pesca, taparam igarapé, puseram linha de anzol e foram descansar na feitoria na beira do rio Cateua, que é um braço do rio Paracauari, até chegar a hora de despescagem, lá pelas seis horas da tarde.

Eles mataram uma boa quantia de peixe, mas o sal que tinham não dava para salgar todos eles. Assim, um falou ao outro:

"Compadre!", disse Apolinário. "Nós temos que ir embora, o sal não vai dar pra salgar todos os peixes!" E Ambrósio respondeu: "Compadre, o senhor já pensou na hora em que vamos chegar no porto?"

Disse Apolinário: "O senhor não vai dizer que está com medo de passar no pau da visagem..." E o compadre Ambrósio respondeu: "Acontece que, quem passa lá em altas horas sai corrido se não quiser apanhar do fantasma que aparece!".

E o compadre Apolinário disse: "Deixe de besteira, homem, nós vamos é agora, homem de Deus!". E voltaram os dois pescadores rumo ao porto da Cabeceira.

Chegaram lá por volta das dez e meia da noite, desembarcaram primeiro os materiais de pesca e depois os peixes. Amarraram todos no calão (o pedaço de pau que se coloca no ombro), cada um fez seu porronca, abasteceram as lamparinas, colocaram nas porongas e botaram o pé na estrada rumo ao Bacabal.

O Ambrósio sempre desconfiado falou: "Compadre, não é melhor ficarmos aqui e ir só depois do galo cantar?" Apolinário respondeu: "Deixe de se frouxo, compadre!".

E seguiram os dois. Quando se aproximaram da tal árvore, sentiram arrepios no corpo todo e ouviram em seguida um alto e longo assovio. Logo apareceu uma mulher toda de preto, unhas grandes, cabelos pretos e longos que encobriam seu rosto.

Apolinário gritou: "Valei-me Nosso Senhor Jesus Cristo!" "Para sempre seja louvado!", respondeu Ambrósio. "Eu lhe avisei, compadre. Agora é Deus conosco e São Miguel com as almas. Vamos correr!"

Correram e deixaram tudo pra trás, voltando para o porto da cabeceira, onde ficaram até o dia amanhecer. Quando retornaram para casa, encontraram os materiais jogados e os peixes todos estragados.

*Pesquisa de Haroldo Júnior, quilombola do Bacabal, Salvaterra, Marajó.