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Política

Especial Chico Mendes

"Chico Mendes está pulando dentro do túmulo", diz amigo

por Felipe Milanez publicado 22/12/2013 12h44, última modificação 22/12/2013 14h44
Para companheiro de luta de Chico Mendes, não há o que ser comemorado hoje: "Temos é que protestar. Estamos sendo derrotados pela politica do governo ao lado do agronegócio"
Osmarino: uma voz crítica

Companheiro de luta de Chico Mendes diz que hoje o capitalismo está destruindo a floresta e os rios, "enquanto o nosso movimento mostrou que existe forma de viver que não ameaça o meio ambiente." No documentário de Miranda Smith, "Chico Mendes: Voice of the Amazon" (de onde foi extraída essa foto, com autorização da diretora), ele lembra outros companheiros mortos, como Wilson Pinheiro.

Osmarino Amâncio Rodrigues estava na mesma lista da morte que levou Chico Mendes, em 1988. Até hoje, ele continua vivendo na reserva extrativista, junto da floresta. Numa eventual saída para a cidade, consegui contatá-lo por telefone, e ele me relatou o depoimento abaixo. Osmarino é um grande crítico da transformação do sistema capitalista que encontrou um meio mais suave e mais verde de tomar conta das florestas. Para ele, Chico Mendes era libertário, e muitos dos companheiros traíram seus ideais, entre eles, Marina Silva. "Não temos o que comemorar no aniversário da morte de Chico Mendes. Temos é que protestar", diz.

 

Da morte de Chico Mendes aos dias de hoje

Aconteceu muita coisa depois da morte do Chico Mendes para cá.

Primeiro, temos que falar das conquistas que tivemos, nos processos dos anos 1980 e 1990. Os conflitos começaram na década de 1970, se estenderam nos anos 1980, e década de 1990 foram conquistas importantes vitórias. Conseguimos fazer com que a historia da Amazônia fosse reconhecida no Brasil e fora do Brasil, fazer saber que a Amazônia estava cheia de gente, chamados de seringueiros, de índios, quebradeiras de coco, extrativistas, populações tradicionais.  A história da Amazônia que não era contada pela chamada "descoberta" dos invasores europeus. Depois da morte do Chico Mendes, houve uma série de perdas também.

Conquistamos as Reservas Extrativistas (Resex) na Amazônia. Com as resex, criamos renda e direitos territoriais. Naquele tempo, era como se 10 pessoas, fossem donas de metade do estado do Acre. Hoje, 80% do estado está preservado, e são basicamente ou terras indígenas ou reservas extrativistas. O modelo depois foi expandido para outras áreas na Amazônia, como as reservas marítimas, para os pescadores tradicionais. Foram conquistas muito grande para nós, seringueiros.

Depois, a coisa mudou. Tivemos uma ministra do meio ambiente, uma companheira, a Marina Silva, que acabou sendo a nossa grande derrota. Por que? Porque tudo o que tínhamos conquistado, ela conseguiu organizar uma logística para que tudo virasse mercado, transferindo para a iniciativa privada os bens naturais. Ela aprovou a lei dos transgênicos sem garantia de garanta alimentação saudável. Criou uma lei de florestas publicas que privatiza as florestas públicas por 40 anos, podendo ser refeita por 30 anos, no total, privatizadas por 70 anos!. Milhões de hectares foram a leilão, sendo só no Acre mais de 1 milhão. Foi uma grande surpresa, e eu vejo como uma grande traição.

Além disso, hoje ainda há no Acre prospecção de petróleo e agora o REDD+. Com o REDD+ os proprietários arrendam as florestas, poluindo lá fora e protegendo aqui. Hoje não podemos mais pegar nosso peixe artesanal. É tudo certificado "FSC" por uma série de ONGs que entraram na logica da expansão do capitalismo verde. A Amazônia virou motivo de negocio e mercantilização. No Acre, extração de madeira é desordenada e o seringueiro não pode tirar madeira para a sua casa. Madeira só para exportação pelo FSC, aprovado pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), como na Resex Chico Mendes. Esses grandes projetos de expansão do capitalismo na Amazônia vieram para detonar, e todos em nome do Chico Mendes, que agora está pulando dentro do tumulo.

Chico Mendes não propunha a mercantiilização da floresta. A gente tinha o direito de trabalhar em 10% da área. Veio a Marina, e esse governo, e privatizaram a Amazônia inteira, com a lei do mercado de carbono, o REDD+, hidrelétricas que estão sendo construídas e vão inundar milhares de hectares de floresta e sítios arqueológicos, terras ocupadas por populações tradicionais. Tudo, em nome da sustentabilidade, para dar mais capital para meia dúzia de empresas para continuarem poluindo, depredando e criminalizando o seringueiro.

Estão propondo bolsa de R$ 100 por mês em nome da "sustentabilidade", enquanto mineradoras, madeireiros, ONGs, e todo o negócio de exportação de matérias primas estão ficando ricos. Eu mesmo estou sendo vitima de criminalização porque tirava madeira para mim e minha mãe, enquanto as madeireiras tiraram tudo e não sofrem nenhum tipo de criminalização. Nós, índios e seringueiros, estamos sendo criminalizado para sermos submisso à expansão capitalista na nossa região.

Não temos o que comemorar no aniversário da morte de Chico Mendes. Temos é que protestar. Estamos sendo derrotados pela politica do governo ao lado do agronegócio e grandes madeireiras, construtoras, ruralistas.

Ao invés de criarem Resex, começaram a criar projetos de assentamento onde não se discute com a comunidade, e permite madeireiros. Assim mataram a irmã Dorothy Stang, em Anapu, no Projeto de desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, e o Zé Cláudio e a Maria, em Nova Ipixuna, no Projeto de Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira. Nas não há título de propriedade privada, solicitamos direito de usufruto, e há mais proteção e garantia para a comunidade.

Existia a forma de vida das populações tradicionais que com a criação das Resex foi possível garantir a sobrevivência da população e do bioma da Amazônia, sem ameaças e respeitando as decisões das comunidades. Esse novo projeto expansionista não respeita as populações tradicionais e incentiva depredação e desmatamento para exportar soja, madeira, minério. A Usina Jirau eliminou mais de 50 igarapés! Foram sete mil pessoas expulsas.

 

Capitalismo verde e movimento ambiental

O capitalismo está detonando como a mata e os rios. Enquanto o nosso movimento mostrou que existe forma de viver que não ameaça o meio ambiente.

Chico mendes abriu a discussão sobre uma parceria com o movimento ambiental, mas a sua preocupação era social e fundiária. A terra era vista por ele com a função social. Ele tinha visão da conjuntura. Criticava o sistema que só implementa a barbárie, a concentração nas mãos de poucas pessoas. Ele colocava isso nas discussões. Nossa vida é de acordo com a natureza, e só temos condições de sobreviver com a floresta em pé. A gente vive da castanha, da pesca, da caça. A gente achava que os ambientalistas podiam ser nossos parceiros. E o Chico Mendes sabia compreender o momento para fazer as parcerias e as alianças.

Só que hoje, com o FSC, WWF, essas ONGs, a Marina implantando o capitalismo verde, o Chico Mendes está sacudindo. Chico Mendes era um libertário. Um socialista convicto. Queria a reforma agrária, e era acusado de terrorista. Parece que estão assassinando o Chico outra vez pintando ele de um ambientalista desses, porque querem matar a figura do libertário, lutador pela vida, por igualdade social, contra preconceito e discriminação.

Ele sofreu preconceitos, eu sofro preconceitos. Éramos analfabetos porque não tínhamos diploma, e tratados como objeto de pesquisas por antropólogos. Tive já várias desavenças com intelectuais. O preconceito contra seringueiro e extrativista é muito grande. E muitos intelectuais calaram a boca sobre a politica expansionista da década de 2.000 pra cá. A economia verde vem se alastrando muito na região e a gente vai sofrer as consequências. Vamos ter que organizar empate não só contra  os madeireiros, as mineradoras e o latifúndio, mas também contra o estado que está sendo o gerenciador de todo esse processo. É necessário um levante e um novo empate contra essa política expansionista de desenvolvimento insustentável.

Não levam em consideração as populações tradicionais na construção de barragens, e o que está acontecendo em Belo Monte é um absurdo. Em Jirau, Santo Antonio, no Madeira, e no Tapajós onde querem começar a construir agora. Mas estamos tentando respirar. O Estado é pesado, o sistema é bruto, e as leis hoje garantem a depredação total, com essa lei de florestas públicas, os transgênicos, o Código Florestal. Chico estaria com essas mesmas convições, tenho certeza. Mas hoje, no Acre, ficam tentando modificar o posicionamento dele. Vi coisas absurdas numa exposição agropecuária, a ExpoAcre, de seringueiro junto de madeireiro e fazendeiro.

Eu tinha um carinho especial, o Chico Mendes era verdadeiro. Foi uma cicatriz em mim que nunca vai sarar. Chico está vivo em cada reunião, no movimento, em cada confronto, nos debates. A lembrança dele não vai ser o que tão pintando ele de ecologista e verde. Chico era revolucionário contra o sistema capitalista. Sonhava com uma sociedade socialista. Era libertário. E um poeta, como aquele poema que escreveu, para os jovens do futuro:

"Atenção jovem do futuro,

6 de Setembro do ano de 2120, aniversário ou centenário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem…Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos; que eu mesmo não verei mas tenho o prazer de ter sonhado.”