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Sociedade

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Isolados, índios Mashco Piro são alvo de 'safári humano'

Organização peruana FENAMAD denuncia contato de crianças da etnia com turistas e com missionária evangélica, o que é proibido desde os anos 1990
por Felipe Milanez e Glenn Shepard — publicado 09/09/2014 23h43, última modificação 11/09/2014 07h22
FENAMAD
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Missionária e turistas foram flagrados pela FENAMAD tentando estabelecer contato com povo em isolamento voluntário no Peru. troca de roupas e alimentos podem provocar epidemias fatais

A cena se repete: jovens indígenas se aproximam dos estranhos. Curiosos pelos bens materiais, aceitam os presentes, sem imaginar que podem carregar ali uma bomba epidêmica para o seu povo. Por trás da aparente boa intenção dos estranhos, pode estar escondida uma estratégia de proselitismo religioso ou de conquista territorial. Além disso, a própria iniciativa de estabelecer contato com povos isolados é proibida por lei, seja no Peru ou no Brasil.

A organização indígena peruana FENAMAD divulgou nesta semana fotos tiradas no último sábado, 6, que mostram um grupo de crianças da etnia Mashco-Piro recebendo roupas e comida de uma missionária indígena ligada a grupos evangélicos internacionais.

A denúncia da FENAMAD tem por base um flagrante do contato captado por uma equipe de fiscalização da Reserva Comunal Amarakaeri ECA-RCA, enquanto voltavam de uma viagem em um barco do Pnud. O relato é o seguinte:

“Ao descer o rio por volta das 10 horas da manha, a equipe do ECA observou na praia um grupo de pessoas e um bote de uma empresa turística, que se retirou ao vê-los chegar. Minutos antes, um outro bote turístico também esteve na área. Na praia ficaram cinco jovens e a senhora Nelly, da comunidade Diamante, uma missionária evangélica e cinco jovens indígenas isolados vestindo roupas.

A senhora Nelly respondeu que sempre leva bananas porque os isolados pedem, mas que seriam as empresas turísticas que teriam entregue roupas às crianças que estavam na praia, enquanto seus pais caçavam na floresta”.

Os indígenas da comunidade Diamante foram advertidos da proibição de contatar os isolados e de fornecer alimento ou outros produtos em razão do risco de contaminação dessas ações. O dirigente da FENAMAD, César Augusto Jojajé, por outro lado, questionou a inoperância do Estado na relação com os povos em isolamento voluntário: “Não há presença do Estado nesse setor. Queremos que as autoridades assumam sua responsabilidade e implementem o plano que estabelece, entre outros, a integridade territorial do povo Mashco Piro”.

Agências turísticas que operam no Parque Nacional de Manu, na beira do Rio Madre de Dios, têm explorado a situação de isolamento dos Mashco-Piro. Há notícias recentes de avistamento de grupos Mashco Piro chamando os barcos turísticos e aparentemente pedindo coisas. Há relatos de turistas que deixaram roupas, comidas e até refrigerante e cervejas para os Mashco-Piro. Algumas agencias turísticas da região até vendem “safáris humanos” de forma clandestina, segundo denúncia da Survival International (que fala de uma “propagação de safáris humanos” na região), oferecendo avistamentos dos Mashco-Piro a turistas como se faz com onças no Pantanal.

Entre as fotos divulgadas pela FENAMAD desses episódios, há uma jovem mulher Mashco-Piro com uma grande ferida na perna, provavelmente decorrente da doença tropical leishmaniose. Este contato com a missionária, porém, é o primeiro que se dá de uma forma tão próxima.

Nessa mesma região do Madre de Dios, em dezembro de 2011, um indígena da etnia Matsigenka, Shaco Flores, foi morto por um arqueiro Mashco-Piro numa roça onde ele deixava os Mashco-Piro colherem comida. Shaco, que falava a língua Piro e conseguia se comunicar com os Mashco-Piro, havia tentando durante mais de 25 anos convencer os Mashco-Piro a saírem de seu isolamento e deixarem para trás uma vida nômade baseada somente na caça e na coleta, sem atividade agrícola nem de pesca.

Shaco chegou a coletar algumas peças da simples cultura material Mashco-Piro, que antes de sua morte passou para o professor Alejandro Smith e hoje são salvaguardados no Museu Paraense Emílio Goeldi. Mas Shaco acabou pagando por suas boas intenções com a própria vida.

Massacre de Fitzcarraldo na Praia Mashco

Os Mashco-Piro pertencem ao grupo linguístico Arawak, considerados os índios civilizadores da Amazônia pré-colonial, que espalharam num grande território, desde o Caribe até o sul do Brasil, o cultivo de mandioca, aldeias circulares, grandes redes de troca inter-étnica e jogos com bolas de borracha.

No final do século XIX, os Mashco Piro viviam de agricultura, caça e pesca em aldeias grandes no alto Rio Manu, mas foram massacrados na “Praia Mashco” pelos operários do infame “Rei da Borracha” Carlos Fermin Fitzcarraldo em 1894. Os sobreviventes fugiram para o mato, perdendo seus cultivos e voltando para uma vida nômade de caça e coleta. Mas apesar dessa redução drástica na sua vida econômica e cultural, os Mashco-Piro mantiveram o jogo de “cabeçabol” — esporte com bola de borracha praticado por outros grupos Arawak, como os Paresi e os Enawenê-Nawê. Entre os itens coletados pelo Shaco no seu intercâmbio com os Mashco-Piro antes de morrer está incluído uma pequena bola de borracha.

Em 2005, um grupo grande de Mashco Piro voltou para essa mesma Praia Mashco para atravessar o rio Manu na seca, aparentemente fugindo para o interior do parque do Manu em decorrência de enfrentamento com grupos madeireiros no Rio de Las Piedras. Ali eles cruzaram um grupo de Matsigenka da aldeia de Tayakome. Nessa ocasião, os Mashco Piro repulsaram a tentativa de aproximação pacífica dos Matsigenka lançando uma chuva de flechas. Deixaram bem claro que não queriam qualquer tipo de contato. Um professor Matsigenka, Mauro Metaki, tirou uma foto desse momento.

Os Mashco-Piro hoje são divididos em vários grupos na região da fronteira do Peru com o Brasil, território próximo a populações que falam língua da família Pano, como os Xatanawa que recentemente entraram em contato com indígenas Ashaninka no alto rio Envira no Acre.

Apesar de a FUNAI ter sido criticada pela atuação perante o contato com os Xatanawa, como acusou o antropólogo Kim Hill na BBC, e do risco de serem exterminados por “despreparo da Funai”, a situação com os Mashco-Piro no lado peruano é muito mais grave. O Peru não tem um órgão do Estado, a exemplo da Funai, com profissionais experientes para intermediar essa situação precária de contato inicial e oferecer atendimento de saúde de forma apropriada. Se no Brasil a situação é critica por falta de verbas e “vontade política”, lá a estrutura é ainda mais deficitária.

Logo após o contato com os Xatanawa – chamados pela Funai de “isolados do Xinane” – eles contraíram infecção respiratória. Mesmo com dificuldades orçamentárias e burocráticas para montar uma equipe especial para o contato, a FUNAI conseguiu lidar com a situação junto da SESAI, do Ministério da Saúde, em equipe composta por sertanistas, como o chefe da Frente de Proteção Etnoambiental Guilherme Dalto Siviero, o experiente sertanista José Carlos Meirelles, e o médico Douglas Rodrigues, do departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Dr. Rodrigues foi aluno de Roberto Baruzzi, pioneiro na medicina preventiva com povos indígenas desde que começou a trabalhar com Orlando Villas Bôas, no Parque Indígena do Xingu, em 1965, através do Programa Xingu, que ele criou na Unifesp.

Não há, no Peru, estrutura semelhante tanto à FUNAI, quando à Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente contato – uma especialidade da Fundação criada por sertanistas em 1987. Apenas após a crise que o governo peruano prometeu agir em parceria com as organizações indígenas locais. Já no Brasil, todo relacionamento com povos indígenas considerados em “isolamento” ou em “recente contato” são exclusivos do Estado brasileiro, especificamente pela Coordenação Geral de Índios Isolados.

Desde o início dos anos 1990, é vedado o trabalho de missões evangélicas nos contatos. Foi nesse momento que, durante a presidência do órgão pelo sertanista Sydney Possuelo, a New Tribes Mission foi expulsa do trabalho com o povo Zoé, acusada de ter espalhado uma epidemia de gripe e de malária que teria matado 30% dos Zoé.

Há mais de dez anos a Funai procura uma interlocução no Estado peruano para lidar com a situação precária na fronteira, desde o tema de narcotráfico e madeireiros ilegais até a situação de índios isolados. Sempre o diálogo foi limitado pela pouca atenção dispensada aos problemas sociais, ainda que estes dois países tenham se unido com muito mais eficiência para construir a estrada Interoceânica e avancem rapidamente em projetos conjuntos de construção de hidrelétricas e prospecção de petróleo e gás. Seria fundamental que os dois países avançassem em ações efetivas e emergenciais para a proteção e garantia de direitos dos povos isolados e seus territórios.

Em 2008, a missão Jocum (“Jovens com uma Missão”, Youth With A Mission, no original) foi expulsa do trabalho com os Suruaha, acusada de uma série de crimes e de irregularidades pelo Ministério Público Federal no Amazonas (leia aqui as denúncias que levaram a expulsão da Jocum, publicadas na CartaCapital).

No Peru, a missão, também norte-americana, Pioneer, vem há anos tentando o contato com os Mashco-Piro, financiando, para isso, o trabalho de missionários entre os povos indígenas com contato estabelecido. Essa é uma estratégia semelhante à praticada pela New Tribes Mission no Brasil, financiando, no Vale do Javari, indígenas Kanamari para que entrem em contato com Korubo em isolamento, ou então com os Wai-Wai e Tirió, na Calha Norte, para que tentem se aproximar e evangelizarem os Zoé.

No início do século, Euclides da Cunha tomou conhecimento de um massacre coordenado por Fitzcarraldo contra os Mashco. Era uma tentativa de “contato”. Há razões de sobras para os Mashco preferirem a distância da sociedade que os cerca, mesmo que sejam indígenas aparentados do povo Piro, conforme escreveu Cunha:

"Quando Carlos Fiscarrald chegou em 1892 às cabeceiras do Madre-de-Dios, vindo do Ucaiali pelo varadouro aberto no istmo que lhe conserva o nome, procurou captar do melhor modo os mashcos indomáveis que as senhoreavam. Trazia entre os piros que conquistara um intérprete inteligente e leal. Conseguiu sem dificuldades ver e conversar o curaca selvagem. A conferencia foi rápida e curiosíssima.

"O notável explorador depois de apresentar ao “infiel” os recursos que trazia e o seu pequeno exército, onde se misturavam as fisionomias díspares das tribos que subjugara, tentou demonstrar-lhe as vantagens da aliança que lhe oferecia contrapostas aos inconvenientes de uma luta desastrosa. Por única resposta o mashco perguntou-lhe pelas flechas que trazia. E Fiscarrald entregou-lhe, sorrindo, uma cápsula de Winchester.

"O selvagem examino-a, longo tempo, absorto entre a pequenez do projétil. Procurou, debalde, ferir-se, roçando rijamente a bala contra o peito. Não o conseguindo, tomou uma de suas flechas; cravou-a de golpe no outro braço, varando-o. Sorriu, por sua vez, indiferente à dor, contemplando com orgulho o seu próprio sangue que esguichava... e sem dizer palavra deu as costas ao sertanista surpreendido, voltando para o seu tolderio com a ilusão de uma superioridade que a breve trecho seria inteiramente desfeita. De fato, meio hora depois, cerca de cem mashcos, inclusive o chefe recalcitrante e ingênuo, jaziam trucidados sobre a margem, cujo nome, Playamashcos, ainda hoje relembra este sanguinolento episódio."

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