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Política

Memória

"Na Amazônia, ainda há muitos conflitos", diz Gomercindo Rodrigues

por Felipe Milanez publicado 22/12/2013 18h44, última modificação 22/12/2013 20h49
Gomercindo Rodrigues, que acompanhou Chico Mendes por dois anos, diz que no Acre a situação ficou mais branda, mas no resto da Amazônia segue a tensão
"Ambientalistas tentam desvincular imagem de Chico de sindicalista"

Para Gomercindo Rodrigues, muitas idéias de Chico Mendes foram incorporadas e hoje são políticas públicas. E as Reservas Extrativistas, ainda que com crise, preservaram mais as florestas do que as fazendas. Imagem extraída do filme "Voice of the Amazon", de Miranda Smith, de 1989, com uma bela e longa entrevista com Rodrigues.

Gomercindo Rodrigues, agrônomo e advogado, foi um dos mais engajados aliados de Chico Mendes nos últimos anos de vida do líder seringueiro. Ele havia se mudado do Mato Grosso do Sul para o Acre,em 1986, para ajudar na cooperativa que estava surgindo. E terminou percorrendo os seringais na mobilização da luta dos seringueiros. Gomercindo publicou o belo livro "Caminhando na Floresta com Chico Mendes", pela UFAC, traduzido pela Universidade do Texas. No depoimento abaixo, concedido por telefone, ele faz uma análise das disputas em torno do legado de Chico Mendes, bem como os resultados das lutas dos seringueiros.

Conflitos

Na Amazônia, os conflitos continuam. No Acre, aconteceu a diminuição dos conflitos com a criação das reservas extrativistas. E, no caso do assassinato do Chico, a primeira punição de mandante de assassinato. Depois disso, houve algumas condenações.

O assassinato de Ivair Higino, morto em 18 junho de 1988, foi julgado apenas recentemente. Atuei como assistente de acusação. Um filho do Darly Alves foi condenado. Oloci Alves da Silva, filho do fazendeiro Darly Alves, recebeu como punição uma pena de oito anos de reclusão em regime semiaberto. Embora o crime tenha sido cometido mediante uma emboscada, o júri entendeu que não houve premeditação ou “meio que impossibilitasse a defesa da vítima” e a pena foi baixa. Isso aconteceu em 2008, julgamento do crime cometido em 1988. E por conta da pena baixa, ocorreu a prescrição e ele sequer foi preso.

Eu continuei em Xapuri até 1992, trabalhando na cooperativa. No final de 1992, conversei com o pessoal e diziam que estavam precisando de advogado, e fui fazer vestibular de novo, dez anos depois que eu tinha terminado o curso de agronomia. Fiz direito na UFAC e atuei em vários processos, conseguindo a absolvição de seringueiros acusados da morte de um fazendeiro em Tarauacá, por exemplo, e também no caso dos seringueiros de Brasiléia, acusados da morte de Nilao. Todo mundo achava que o Nilão era fazendeiro, mas era o capataz, suspeito de ser o mandante do assassinato do Wilson Pinheiro, em 1980. Em 1999, foram a julgamento os companheiros de Brasiléia. E todos foram absolvidos. Depois ainda atuei no caso de um grupo de seringueiros acusados do assassinato de um fazendeiro perto de Rio Branco, ocorrido em 1984.

Eu venho do Mato Grosso do Sul, e lá a questão indígena sempre foi muito tensa. A questão das terras indígenas do MS é mais ou menos parecida como foi a questão das terras dos seringueiros na Amazônia. É uma tensão permanente, com a tentativa de se extinguir a população indígena inteira. Quando a UDR surgiu, tinha essa coisa do orgulho, de se dizer "sou fazendeiro, sim senhor". Os caras fazem questão de ressaltar e afirmar isso o tempo inteiro. Dizem que têm que se organizar porque os índios é que estariam invadindo. Deixam de considerar o fator histórico, as terras tradicionais. Os índios foram expulsos e empurrados para fora de suas terras, e a questão só começou a mudar a partir de 1988, com a organização deles. E essa violência não é nova, vem desde o Marçal de Souza, assassinado há 30 anos.

A situação de tensão entre índios e fazendeiros no MS se parece com aquela que existiu no Acre, com a chegada dos "paulistas", como eram chamados os fazendeiros, contra os seringueiros. E continua hoje no Pará, desse mesmo jeito, com lideranças sendo assassinadas, ameaçadas. Mais de duas mil pessoas assassinadas na Amazônia pela questão da terra. E lideranças e apoiadores, como irmã Dorothy, padre Josimo, e mais recente, Zé Cláudio e Maria.

Soft Chico

Há hoje uma negação dos princípios do Chico Mendes na questão da memória. O Chico era um cara com formação de esquerda, mas era um conciliador. Era muito firme e sempre foi muito seguro de ser uma pessoa de esquerda. Houve um abrandamento do discurso. Quando o PT chegou ao poder no Acre, algumas coisas foram encaminhadas, outras transformadas numa proposta mais palatável, e sendo colocadas como se fossem os ideais de Chico.

Agora não há mais o enfrentamento que havia na época. Algumas atitudes oficiais, como a criação das Reservas Extrativistas (Resex), reduziram bastante o conflito. Parou de ter uma mobilização maior. Mas muitos empates foram realizados ainda após o assassinato do Chico. Até 1994, ainda houve empates em Xapuri. Eu mesmo fui processado por procurar uma juíza em busca de um habeas corpus, na calçada da casa dela porque um companheiro tinha sido preso. Vários companheiros ainda enfrentaram processos depois do assassinato do Chico.

A manutenção das mobilizações, junto com a mudança da politica local e regional, e a criação das Resex, levou a um abrandamento dos conflitos.

De forma geral, o discurso oficial passou a  incorporar um bocado de propostas que o Chico defendia para os seringueiros. E teve, efetivamente, um abrandamento da situação de conflito, aqui na nossa região. Mas não na Amazônia. Não foi igual para toda a Amazônia, e ainda há muitos conflitos como os que existiam antes.

Muitas das ideias do Chico foram adotadas e hoje são políticas publicas. Seringueiros foram alfabetizados na escola do Projeto Seringueiro, em Xapuri, e hoje são graduados pela UFAC (Universidade Federal do Acre) em convenio do governo do estado com a universidade. Isso é fantástico. Companheiros que eu conheci dentro do seringal hoje são pedagogos, geógrafos, professores, formados a partir de políticas do estado de qualificação de professores para atender à Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Crise na Resex

Nos limites da Resex Chico Mendes, até onde não começa a reserva, destruíram tudo. Mas quando passa o travessão da Resex, se começa a encontrar floresta. A Resex ajudou a  manter a floresta. Dentro dela, nas áreas próximas à fazendas, ou pelos rios, há desmatamento, há casos dos fazendeiros arrendando áreas dos seringueiros. Isso ocorre nessa  parte onde há contato direto. Os fazendeiros acabam com o pasto e botam gado para dentro fazendo cria de meia com alguns seringueiros, a cada dois bezerros, um é seu. Isso ocorre em alguns locais da reserva, mas em pontos específicos. Só que a reserva, como um todo, na área total, ainda não atingiu o limite de 10% de desmatamento. São 970 mil hectares e não tem 90 mil desmatados. Mas nas colocações limítrofes com fazenda, nessas áreas, em algumas regiões, sim tem desmatamento acima de 10 %.

Madeira, a política oficial

A política oficial é do manejo florestal. Mas na verdade é um plano madeireiro,  política apoiada pelo governo do Estado. Não é florestal, é madeireiro. Só as árvores escolhidas são serradas, mas acontece que tem área onde o pessoal não faz manejo e tira madeira. E mesmo nas áreas onde há manejo madeireiro, eu sou cético com relação a que seja possível fazer um manejo sustentável. Não conheço nenhum exemplo que tenha dado certo, no mundo, nem na Costa Rica, que é um lugar citado, ou no México. Em nenhum lugar a floresta conseguiu se recompor. Teria que esperar 50 anos para ver, e os que defendem o manejo de madeiras dizem que não dá para esperar tanto tempo e é melhor fazer logo. Mas por que tem que desmatar tudo agora e não dá pra deixar para os filhos?

Quando se derruba uma árvore de 40 metros de altura, ela quebra outras, pequenas, quando ela cai, leva muitas junto dela, por mais que se escolha onde vai ser derrubada. Na minha opinião, precisava haver um manejo florestal, manejo da floresta, com resinas, corantes, óleos, princípios ativos, bioquímica etc. Algumas tecnologias já estão amansadas, mas muitas outras não. Usar o potencial não madeireiro, que só usamos uma pequena parte, alguns óleos e resinas. Eu sou contra o manejo de madeira, mas isso não é uma crítica que atinge a reserva como um todo. Pois se não houvesse reserva já teria sido tudo desmatado, como é no entorno.

Aos inimigos, interessa mostrar que tem desmatamento lá dentro. Mas a comparação é simples: onde não é reserva, está destruído, e onde é, se nota quando se atravessa o travessão. Tem muito mais floresta. Xapuri está totalmente destruído tudo até o limite. Aos que interessam combater o modelo, dizem que não deu certo e que os seringueiros estão destruindo.

Para os preservacionistas, o ser humano é predatório, então se tem população humana, necessariamente está destruindo. Havia na época dois modelos para o desenvolvimento. Um bancado pelo governo central, com financiamento do Banco da Amazônia, com juros para desmatar, e o INCRA concedia título de terra desde que desmatasse. Era o modelo oficial da ditadura. Depois do surgimento das Resex, surgiu um outro modelo de desenvolvimento, com conservação e uso sustentável, que é como fazem as populações tradicionais.

Os ambientalistas olham para o Chico só como ambientalista, e tentam  desvincular a postura de sindicalista e a militância partidária. Como se isso o contaminasse. A sua militância era consequência do sindicalismo, e a raiz dele era o sindicato. Para o Chico, primeiro eram os trabalhadores, o cerne da militância dele era essa. Era ligado às bases das organizações dos trabalhadores, para uma conquista de uma sociedade diferente. Os ambientalistas esquecem dessa parte ou tentam puxar o ambientalíssimo para a direita, para o centro, que é à direita da posição dele, para tornar o discurso mais palatável. Buscam levar o Chico para uma posição mais conservadora.

No movimento operário, entre os próprios trabalhadores, havia também um mal estar, aquele negócio da cidade só. A CUT pensava em apoiar esse negócio de reserva lá na Amazônia, mas não havia uma discussão verdadeira e profunda da aliança dos operários urbanos e os camponeses, sem discutir com mais profundidade essa possibilidade, como uma forma de organização geral dos trabalhadores e uma proposta de desenvolvimento diferente.

A atuação política do Chico era diferente nisso. Não era só para o seringueiro, mas para o planeta. O Chico disse certa vez: “No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade”.

A proposta de organização dos trabalhadores é para mudar a sociedade. Isso esta no texto que ele deixou pregado no meu telefone, a mensagem para os jovens do futuro.

Ele tinha deixado pregado no telefone esse texto, eu guardei na carteira e só li na missa de corpo presente, em Xapuri. É um texto muito claro e muito forte das propostas dele:

"Atenção jovem do futuro,

6 de Setembro do ano de 2120, aniversário ou centenário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem…Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos; que eu mesmo não verei mas tenho o prazer de ter sonhado.”

 

O papel da Igreja

O bispo que tinha em Rio Branco, dom Moacyr Grechi, sempre foi muito progressista, da linha de D. Tomás Balduino, D. Pedro Casaldáliga. Hoje é bispo emérito em Porto Velho. Na época, ele trazia Frei Betto, Leonardo Boff, tanto para dar formação para os padres quando para as comunidades eclesiais de base. O início da organização dos seringueiros foram as comunidades eclesiais de base. Os sindicatos não existiam ainda. E não havia, na época, para quem reclamar. Todo mundo ia reclamar da sua vida para o bispo, que era dom Moacyr. A Igreja começou a organizar as comunidades de base, foram as primeiras sementes da organização, no início dos anos 1970. Depois, chegou a Contag.

Empates

Enquanto a Igreja ia até um pedaço, o sindicato avançou e foi para os empates. Foi para a luta de forma pacifica, não teve tiros. Levava crianças e mulheres. O empate era uma ação de diálogo com quem estava desmatando, que também era, normalmente, ex-seringueiros que tinham sido expulsos para a cidade, e voltavam como desmatadores.

A gente ia em um monte de trabalhadores, onde estava sendo desmatado. Lá, primeiro trazia todos os peões para um mesmo lugar, então, o Raimundão, o Chico ou o delegado sindical da área diziam, "companheiros, vocês estão desmatando, e sabem que sem a floresta a gente não vive, a gente não tem um trabalho, as famílias vão ficar sem comer. Companheiro, vocês estão do lado errado, mas estamos aqui para dizer: não vai mais haver desmatamento."

Com respeito, tiravam as coisas de dentro e derrubavam os barracos onde eles estavam acampados. Eram trabalhadores, embora trabalhando para o lado errado. Depois, a polícia vinha e eles continuavam desmatando. Alguns iam embora. Os empates surgiram depois da organização do sindicato, em 1975, em Brasiléia.

Quando o Chico ouviu as notícias da criação do sindicato, ele se lembrou das aulas que teve como Euclides Távora, que dizia para ele entrar no sindicato. Ele foi alfabetizado pelo Euclides Távora, um ex-militante comunista e ouvia as rádios, e aprendia como a mesma notícia era dada de forma diferente, da Central de Moscou, da BBC, da Voz da América, que ele conseguia sintonizar em português na Amazônia. Euclides fez com que ele entendesse isso e também ensinou os fundamentos do sindicato. Quando ouviu a notícia do sindicato, era um dos poucos que sabiam ler e escrever, e se tornou o primeiro secretario do sindicato de Brasiléia, em 1975. Depois, ajudou na fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, onde foi vereador atuante de 1977 a 1982. Deixando a vereança, elegeu-se presidente do STR de Xapuri, onde ficou até o dia do seu assassinato.

Foi o STR de Xapuri, sob sua direção, que convocou o I Encontro Nacional de Seringueiros, que ocorreu entre 10 e 17 de outubro de 1985, em Brasília, na UnB. Lá foi lançada a proposta da criação das Reservas Extrativistas, que ganhou o mundo como a proposta de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, primeiro, depois, para qualquer bioma onde haja atividade humana por comunidades tradicionais, de forma sustentada.