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Sociedade

Mostra de filmes em Portugal homenageia Chico Mendes (1944-1988)

por Felipe Milanez publicado 05/12/2013 13h05, última modificação 05/12/2013 14h40
"Ecologia e lutas sociais", organizada pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, promove sessões de filmes e debates em homenagem a líder seringueiro, assassinado 25 anos atrás
"Ecologia e Lutas Sociais", 25 anos da morte de Chico Mendes

Mostra de filmes na Universidade de Coimbra e na Universidade de Évora, em Portugal, faz homenagem a memória de Chico Mendes e "outros chicos" ao redor do mundo

A luta de Chico Mendes em defesa da Amazônia inspirou pessoas e movimentos sociais ao redor do mundo a se organizarem e defenderem seus direitos fundamentais, principalmente aquele de poder viver no meio ambiente em que vivem. O seu trágico assassinato, que nesse ano completa 25 anos, não diminuiu a relevância e poder de influência de suas idéias. Chico Mendes era um sindicalista que organizava e defendia os trabalhadores da floresta, os seringueiros. É luta pela justiça ambiental, como a liderada por Ken Saro Wiwa, na Nigéria, Wangari Maathai, no Quênia, Samarendra Das, na Îndia.

A memória do ativismo de Chico Mendes é tema da mostra cinematográfica Ecologia e Lutas Sociais, organizada pelo Centro de Estudos Sociais e o projeto Rede Européia de Ecologia Política, onde eu sou pesquisador. A mostra ocorre essa semana na Universidade de Coimbra e em Évora, com a presença de Vicente Rios, da PUC de Goiás, câmera e co-produtor do filme dirigido por Adrian Cowell, "Chico Mendes: Eu Quero Viver", e Amy Miller, que acompanha o lançamento internacional do filme "No Land, No Food, No Life", sobre a grilagem de terras na África.

Na projeção do filme sobre Chico Mendes, Rios destacou a postura conciliatória do sindicalista, sua habilidade política e genialidade na capacidade de construir pontes para defender os direitos dos seringueiros. Rios, na palestra "Filmando Chico Mendes", destacou o clima de violência reinante no Acre na época, e todos os companheiros de Chico Mendes que foram assassinados, crimes até hoje impunes. "Como no Sul do Pará, onde filmamos 'Matando Por Terras', o Acre estava sob o mesmo ambiente de terror e violência. Muito cruéis".

A violência ecológica, no entanto, continua tanto de forma bruta e cruel, quando mais lenta e sistêmica. O Acre de Chico Mendes agora vai explorar gás nas margens de terras indígenas, e a homenagem organizada pelo atual governo, que se defende como seguidor dos ideias de Chico Mendes, envolvia a beleza plástica de iluminar a floresta na beira de um lago na Universidade, cuja energia elétrica é produzida pela queima de óleo e a luminosidade ainda provoca poluição luminosa, afetando insetos, anfíbios e animais em geral que ali vivem. Uma certa contradição, pequena com relação aos grandes desafios que vivem os povos da floresta no Acre, agora ameaçados de terem que enfrentar uma luta gigante pela exploracão de gás que, espera-se não lembre a luta que levou ao assassinato de Ken Saro Wiwa na Nigéria.

Assim como Chico Mendes, os ambientalistas Zé Cláudio e Maria foram mortos no Pará, em 2011. O casal era profundamente inspirado pelos ideais de lider seringueiro. O mesmo sistema de violencia e exploração levou a morte, nessa semana, do lider kaiowa Ambrósio Vilhalva, cujo crime está sendo investigado no Mato Grosso do Sul. É triste ver que na mesma semana em que Ambr´øsio foi morto, o governo federal tenta impor aos índios uma nova regulamentação que vai or fim a demarcação de seus territórios, o que irá provocar mais conflitos, e mais mortes no futuro.

Em reunião registrada por Cowell, Chico Mendes disse aos representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que financiavam a construção de estradas na Amazônia e, supostamente o "desenvolvimento": "esses investimentos privilegiam apenas poucas pessoas, aumentando a da terra e destruindo a floresta e a vida das pessoas que vivem nela". Se o atual governo federal não sabe disso, ou finge não saber, ele precisa ser informado, e cobrado pela "dor, sofrimento, e morte" que está produzindo, tempos atuais como Chico Mendes descreveu em um belíssimo testamento.

“Atenção jovem do futuro,

6 de Setembro do ano de 2120, aniversário ou centenário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem…Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos; que eu mesmo não verei mas tenho o prazer de ter sonhado.”

Abaixo, informações da mostra em homenagem a Chico Mendes, "Ecologia e Lutas Sociais":

 

Na noite de 22 de dezembro de 1988, uma semana após completar 44 anos de idade, Chico Mendes foi alvejado na porta de sua casa por um tiro de espingarda no peito. A tocaia foi armada pelo fazendeiro Darly Alves e executada por seu filho, Darcy. O motivo da morte por encomenda foi a disputa pelo Seringal Cachoeira, que Darly queria transformar em fazenda, expulsar os seringueiros e desmatar a floresta. Porém, o que estava por trás do crime era a destruição da Amazônia. Chico Mendes representava a resistência dos povos da floresta, as lutas sociais e a defesa ecológica das populações que ele, como poucos, soube organizar e liderar.

O assassinato de Chico Mendes a mando do fazendeiro Darly Alves, representante da então União Democrática Ruralista (UDR), entidade de classe dos grandes latifundiários (hoje representada pela Confederação Nacional da Agricultura, CNA), provocou uma imensa repercussão internacional. Ambos, pai e filho, foram condenados a 19 anos de prisão, cujas penas, hoje, já foram cumpridas.

Chico Mendes foi um dos mais influentes ambientalistas de sua época, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e o ideólogo das "reservas extrativistas", na qual a população local que habitava a floresta teria o direito de manter seu modo de vida de coleta sustentável dos produtos florestais. "A reserva extrativista é a reforma agrária do seringueiro", ele dizia. Suas ideias giraram o mundo e inspiraram diversas lutas sociais. Chico Mendes havia conseguido interromper o financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a Ditadura, no Brasil, construir estradas na Amazônia, mostrando que o benefício dos empréstimos atingia apenas a uma pequena elite, provocando violência e destruição ambiental.

O líder seringueiro teve uma brilhante trajetória política, que havia iniciado com a alfabetização pelo militante comunista Euclides Távora, militante da Coluna Prestes refugiado na Amazônia, culminando com a organização do sindicato dos seringueiros, o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Nos últimos dois anos de vida, Chico Mendes foi acompanhado pelo documentarista inglês Adrian Cowell e o câmera Vicente Rios, que registraram sua vida em Xapuri, as viagens internacionais, e a sua militância até o dia do seu trágico assassinato. O resultado foi o filme "Chico Mendes: eu quero viver", que abre a mostra cinematográfica no Teatro da Cerca de São Bernardo (TCSB), e será apresentado e debatido por Rios.

Chico Mendes era um ecologista em defesa da Amazônia assim como Ken Saro Wiwa foi na Nigéria, como Wangari Maathai é ainda hoje no Quênia, ou como anônimos produtores familiares o são no interior da África ou do estado do Pará, na Amazônia brasileira. Na mostra Ecologia e Lutas Sociais serão apresentadas conexões dessas histórias de lutas, as trajetórias de vida de "outros Chico Mendes", do ecologismo popular e da luta social por justiça ecológica.

Outros chicos

A mostra tem início no TCSB na quarta-feira 4 de dezembro, as 19 horas, com a pesquisadora do CES e coordenadora do projeto Entitle, Stefania Barca, seguida pela apresentação do filme "Chico Mendes: eu quero viver", do documentarista britânico Adrian Cowell, com debate com o câmera, co-produtor e co-diretor do filme, Vicente Rios, membro do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia, da PUC de Goiás. Na sequência, será apresentado o filme "Delta Force", de Glenn Ellis, outro documentarista britânico, sobre a disputa entre o povo Ogoni e a petroleira Shell na Nigéria, que culminou com a execução do líder Ogoni Ken Saro Wiwa e outros oito ativistas, em 1995.

No segundo dia, a partir das 14 horas, na Casa das Caldeiras, serão apresentadas e debatidas outras lutas ecológicas ao redor do mundo. A premiada documentarista canadense Amy Miller irá apresentar e debate o recém concluído No Land, No Food, No Life, sobre a grande grilagem de terras na África. Está será uma apresentação excepcional do filme em Portugal, cuja World Première aconteceu recentemente no Vancouver International Film Festival. Informações sobre o filme estão disponíveis nesse website: http://nolandnofoodnolife.com/ Amy Miller, que também dirigiu Carbon Rush, debatera com o público os conflitos ambientais que registra em seus trabalhos ao redor do mundo e a técnica que utiliza para cruzar histórias em diferentes países.

Violências contra ecologistas

Hoje, 25 anos após a morte de Chico Mendes, a América Latina continua a ser região mais violenta do mundo no que toca aos assassinatos de ecologistas, de acordo com a Global Witness. Segundo dados divulgados pela organização em um estudo recente, entre 2002 e 2012 ocorreram 711 mortes em 34 países. De todas essas mortes, 592 ocorreram apenas na América Latina, sendo 365 desses assassinatos cometidos no Brasil.

O objetivo da mostra não se restringe, no entanto, a abordar o tema da violência física contra ecologistas, mas também apresentar filmes que provoquem um debate sobre a dinâmica das lutas ecológicas na atualidade, com temas como por exemplo o acesso a recursos naturais e a participação das populações locais no debate sobre projetos que impactem seus modos de vida.

História da Amazônia

Ecologia e Lutas Sociais inclui uma parceira do Centro de Estudos Sociais com o Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA), da PUC de Goiás, onde estão arquivados os filmes e fotografias de Adrian Cowell, documentação realizada ao longo de mais de 50 anos de trabalho na Amazônia. Informações sobre o arquivo "História da Amazônia: 50 Anos de Memória Audiovisual" podem ser acessadas no website: http://imagensamazonia.pucgoias.edu.br/

Esta mostra integra a programação paralela do IV Colóquio Internacional de Doutorandos/as do CES - Coimbra C: Dialogar com os Tempos e os Lugares do(s) Mundo(s).

Organização: Centro de Estudos Sociais (CES), Oficina Ecologia e Sociedade e European Network of Political Ecology – Entitle, em parceria com o Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia, da PUC de Goiás (IGPA/PUC-GO).

Comissão organizadora: Felipe Milanez, Stefania Barca, Lúcia Fernandes, Irina Castro e Santiago Gorostiza.

 

PROGRAMA

Quarta-feira, 4 de dezembro
Local: Teatro da Cerca de S. Bernardo (Coimbra)

19h00 | Abertura com Stefania Barca (CES/Entitle)
19h30 | Projeção dos filmes Chico Mendes: eu quero viver (dir. Adrian Cowell, 1989, 56 min) + Financiando o Desastre: Com Chico Mendes (dir. Adrian Cowell, 1987, 15 min)
20h45 | DebateFilmando Chico Mendes, com Vicente Rios (IGPA/PUC/GO)
22h30 | Projeção do filme Delta Force (dir. Glen Ellis, 1995, 56 min). Legendas em português.


Quinta-feira, 5 de dezembro
Local: Casa das Caldeiras (Coimbra)

14h00 | Projeção do filme Taking Root: A Visão de Wangari Maathai (dir. Alan Dater e Lisa Merton, 2012, 80 min). 
15h30 | Projeção do filme No Land, No Food, No Life (dir. Amy Miller, 2013, 75 min). Legendas em português.
17h00Debate: Países distantes, histórias conexas, com Amy Miller (Realizadora, Films de l'Oeil)
18h00 | Projeção do filme Wira Pdika (dir. Samarendra Das e Amarendra Das, 2005, 124 min). Legendas em português.
21h00 | Projeção do filme Matando por Terras (dir. Adrian Cowell, 1991, 56 min)