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Política

Memórias da luta pela Amazônia

por Felipe Milanez publicado 14/08/2013 16h24, última modificação 14/08/2013 16h47
Senador João Capiberibe lança livro sobre luta política na Amazônia. Confira a entrevista de Felipe Milanez com político, o autor de "Floresta do meu exílio"
Valter Campanato / ABr
João Capiberibe

João Capiberibe (PSB-AP) toma posse como senador, em 2011

Com os anos de chumbo da ditadura, principalmente após o AI-5, a perseguição às vitimas do terror do Estado fez com que verdadeiras odisseias fossem empreendidas em busca da sobrevivência. O caminho era o exílio. Mas como chegar lá? Rever esses trajetos, essas lutas pela sobrevivência em meio à luta pela democracia é um fator fundamental para se entender a história contemporânea do país. Mostram uma complexa rede de alianças e solidariedade que eram construídas. E, em termos físicos, desenham uma geografia diversa, igualmente complexa e fascinante. Ambos aspectos, humano e geográfico, vieram a ser transformados profundamente pelo período de terror e violência da ditadura civil-militar. Como era a Amazônia antes das estradas, da migração que era chamada de "grande diáspora", do desmatamento que desde então consumiu quase 20% da maior biodiversidade do mundo, um processo que é considerado um "holocausto ecológico" por alguns historiadores ambientais?

Nesta quinta-feira será lançado em São Paulo o livro Floresta do Meu Exílio (Terceiro Nome, 368 p., R$48,00), do senador João Capiberibe (PSB). A história da vida de "Capi" é um desses grandes casos que ilustram um longo período histórico, e servem de apoio para se entender as transformações do país. Para sobreviver, ele e sua família atravessaram, literalmente, toda a floresta. Do Amapá até a Bolívia, e depois o Chile. E depois da queda de Allende, o Canadá. Capiberibe é reconhecido um dos grandes defensores da Amazônia. Ele, senador, e sua esposa Janete, deputada federal (PSB), são algumas das raras vozes, em um Congresso dominado por ruralistas e desenvolvimentistas, que se levantam em defesa das populações indígenas, caboclas, quilombolas, ou simplesmente "locais", aquela gente que se convencionou chamar de "tradicional", já que são vistos como oposição a ideologia tacanha do "progresso pelo progresso".

João Alberto Rodrigues Capiberibe nasceu em Afuá, na Ilha de Marajó, no Pará, em 1947. Cursou economia na UFPA e teve envolvimento com a Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi preso em 1970, de onde fugiu em 1971, escapando até o Chile, junto de sua espoa e a filha Artionka. No meio do caminho, nasceram os gêmeos Camilo (hoje governador do Amapá) e Luciana. Com o golpe de Pinochet, mudou-se para o Canadá, onde estudou zootecnia. Mudou-se para Moçambique e, com a anistia, voltou ao Brasil. Foi prefeito de Macapá em 1988, governador do estado em 1994 e reeleito em 1998. O livro foca nesse período da fuga da família. A luta da família, no entanto, se estendeu: o casal foi barrado pela Lei Ficha Limpa, acusado de compra de voto. Ele teve mais de 130 mil votos. Foi liberado para assumir após decisão do STF. Havia suspeitas de uma armação política contra a família, pois a acusação era da compra de dois votos por R$ 26.

O lançamento acontece nesta quinta-feira 15 de agosto, as 20 horas no Sesc Pompéia, com o pocket show "Canções de uma geração" e a participação de Chico Cesar, Marlui Miranda e Nilson Chaves. Outros lançamentos ocorrem em Macapá (23 de agosto), Belém (12 de setembro), Brasília (17 e 26 de setembro).

A luta em defesa pela Amazônia não terminou quando a família retornou do exílio após a anistia. Ao contrário. Como explica o senador na entrevista abaixo, concedida por e-mail: "Os governos da ditadura e os atuais pensam a Amazônia de forma similar. Tanto é verdade que projetos mirabolantes da ditadura foram desarquivados e estão sendo implantados na Amazônia."

 

CartaCapital Por que decidiu fazer um livro sobre as memórias da luta política durante a Ditadura?

João Capiberibe O livro trata de revelar às gerações que nasceram durante e pós-ditadura civil-militar de 1964, o quanto foi e continua sendo difícil retomar o fio da meada da democracia, rompido pela violência das armas, que impôs ao país um regime intolerante e repressivo, condenando-nos ao atraso politico-institucional, e nos mantendo, enquanto sociedade, entre as mais injustas e desiguais do planeta. Também deixa claro que resistimos, a democracia que desfrutamos hoje é consequência de um passado de lutas.

CC As memórias são reflexões do passado, feitas hoje, no momento contemporâneo. Como é que hoje o senhor analisa esse passado, e a transição da Ditadura para a Democracia?

JC Diria que, para recuperar a democracia interrompida por essa longa noite de obscurantismo imposta pela ditadura, que durou 21 anos, vamos precisar ainda de muito tempo. O processo de aquisição de costumes democráticos é lento, esbarra na exclusão histórica do povo brasileiro na composição do poder político. O Estado republicano organizado ao longo do século XX foi obra de poucos, e em benefício de poucos. A Constituição republicana de 1891, ao negar o direito do voto aos analfabetos, cassou os direitos políticos de cerca de 97% da população brasileira, entregando a uma elite de letrados o destino político do país,   institucionalizando dessa forma, junto com a exclusão, o apartaid social.

Não se detém os processos sociais, que no Brasil foi interrompido, em fase avançada em 1964, e retomado em 1985. Hoje sentimos que, mesmo caminhando a passos lentos, a democracia só fez bem ao país. Nas grandes mobilizações de junho se questionou tudo e todos, menos o estado de direito democrático.

CC Com relação a Amazônia: o que a luta durante a ditadura pode ensinar para quem quer defender a Amazônia hoje?

JC A ditadura civil-militar, ancorada nos grandes projetos e na transferência massiva de populações de outras regiões para projetos de colonização, passou a considerar a Amazônia como solução para o crescimento econômico do pais, e seu slogan de integrar para não entregar, levou à ocupação desenfreada da região gerando conflitos fundiários que enfrentamos até hoje. Mas uma vez é preciso destacar, mesmo ao custo de pesados sacrifícios, houve resistência, as populações tradicionais da Amazônia reagiram a política de ocupação criminosa.

Daqui pra frente, é preciso corrigir. Os conflitos de terra na região entre brancos e índios são fruto da política de ocupação praticada pelos ditadores, que distribuíram terras indígenas para colonos vindos do Sul e para nordestinos, retirados da caatinga, com a promessa de um futuro promissor na região da Transamazônica. Um crime ecológico, pois a bandeira dos militares era a ocupação da região pelo desmatamento e pelo aniquilamento das tradições regionais, daí a luta de Chico Mendes no Acre e de outros mártires que tombam pela Amazônia até hoje.

CC Desenvolvimentismo ditatorial e o desenvolvimentismo atual do PT. Há algum paralelo com relação a politica imposta à Amazônia?

JC Infelizmente existe a mesma visão. Os governos da ditadura e os atuais pensam a Amazônia de forma similar. Tanto é verdade que projetos mirabolantes da ditadura foram desarquivados e estão sendo implantados na Amazônia. Tanto os ditadores e os atuais governos vêm a Amazônia como provedores de desenvolvimento para suprir o país de suas necessidades, mas a recíproca não é verdadeira. As verdadeiras necessidades da região são postergadas. Para eles a Amazônia serve apenas para suprir as necessidades das demais regiões. Um exemplo disso é a Hidrelétrica de Tucuruí, cuja construção começou em 1974 e só terminou em 1984, quando foi inaugurada pelo último general-ditador, mas que até hoje não supre de eletricidade a maioria da região Amazônica, ao contrário ela supre o restante do país. Só agora, 29 anos depois de inaugurada, é que um linhão deverá  levar a energia de Tucuruí a Macapá e Manaus.

CC Por que há um ataque tão grande contra os direitos indígenas hoje?

JC Esse ataque é fruto da política de ocupação da Amazônia pela ditadura civil-militar que durou de 1964 até 1985. Para os governos da ditadura, os indígenas eram um empecilho ao desenvolvimento da região, por isso acobertados pela falta de uma legislação ambiental, eles fizeram uma farta distribuição de áreas de terras indígenas para colonos. Os índios foram expulsos de suas terras e hoje graças à democracia reivindicam a volta do que lhes pertence.

CC Como está o balanço de poder entre os indígenas e seus aliados, e os ruralistas e a industria extrativista mineral, em Brasilia?

JC Esse é um jogo bruto. Volto a repetir que estamos colhendo os frutos apodrecidos do que foi plantado na ditadura civil-militar. Além disso, o crescimento do país é fruto das exportações do agronegócio e das mineradoras. Vai daí que entre os indígenas e esses dois pilares econômicos a tendência dos governos, desde a redemocratização, é pender para os ruralistas e mineradores, o que enfraquece o movimento indígena. A tática utilizada pelo  Executivo é a omissão, o que deixa a solução dos conflitos de terra para a Justiça.    

CC Na sua opinião, como salvar a Amazônia?

JC A Amazônia precisa de um desenvolvimento sustentável, precisa aproveitar as suas riquezas sem destruir as florestas. Isso é possível, foi uma experiência exitosa em meus oito anos de governo no Amapá. É preciso agregar valor aos produtos da Floresta, que são muitos. A técnica agro-florestal é um caminho que precisa ser disseminado pela Amazônia.

CC O que há em comum entre o Amapá e outros estados da Amazônia? E quais as diferenças, por que a situação lá é menos conflituosa?

JC O Amapá é o estado-síntese da Amazônia, pois seu território reúne todos os biomas amazônicos. Arrisco afirmar que se não houvesse a descontinuidade do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá, que ficou conhecido no mundo inteiro pela sigla PDSA, o estado seria hoje um exemplo a ser desenvolvido pelos demais estados da região. Infelizmente, estamos tendo que reconstruir há dois e meio tudo o que foi abandonado pelos governos que me sucederam. Estar ao norte do Rio Amazonas proporciona ao Amapá uma proteção natural que impediu que a degradação se ampliasse nos oito anos de desgoverno. Hoje o desafio do Amapá é o da reconstrução e da conscientização de que o caminho do Amapá é o desenvolvimento sustentável.

CC Como está o manejo das unidades de conservação no Amapá? Invasões, garimpos, fazendeiros, quais as maiores ameaças econômicas à floresta?

JC O manejo das unidades de conservação foi retomado. Esse não é um problema, é a solução. A praga que infelicitou o Amapá é a corrupção e a impunidade. Essa é grande ameaça, pois eles corruptos e corruptores pretendem retomar o poder para desta vez se locupletar da floresta.

CC Há quem defenda que deve-se atribuir valor a floresta para salva-la. Ou seja, criar mercados, e os mercados salvariam a natureza. Um problema levantado por outros é que há uma diferença entre as "valorações". Uma cachoeira vale diferente para quem vive e depende dela, ou que a vê sagrada, da visão de uma empreiteira que imagina produzir energia e ganhar dinheiro. Qual a saída para esse conflito?

JC A meu ver a floresta precisa ser explorada de forma sustentável aproveitando toda a sua biodiversidade. Se agirmos assim a floresta continuará de pé e produzindo renda. Se agregarmos valor aos produtos da Floresta todo mundo sairá ganhando.

CC As usinas hidrelétricas podem ser a salvação para uma autonomia econômica? Ou representam uma ameaça tão grande quanto o desmatamento, pois determina o fluxo hidrológico de acordo com necessidades de mercado?

JC Devemos evitar a construção de grandes usinas hidrelétricas na Amazônia, mas podemos de forma sustentável gerar energia para as cidades da Amazônia através de pequenas hidrelétricas. Infelizmente, os governos pressionados pelas grandes empreiteiras do país só se interessam por mega hidrelétricas. Um exemplo do desinteresse com a PCHs é que no Amapá a PCH do Salto da Cafesoca luta para sair do papel desde os anos 1990.

CC Sarney é publicamente conhecido como um desafeto. A disputa no Amapá é "Sarney" e "anti- Sarney", ou há outros componentes ideológicos em jogo sobre o futuro do Estado? Há condições políticas no Amapá para uma discussão mais ampla sobre o papel do Estado?

JC No Amapá, o José Sarney chefia o que existe de pior na política do Estado. Seus seguidores só pensam em se locupletar dos orçamentos. O pessoal do Sarney é recordista em prisões por operações da Polícia Federal. Não existe a menor possibilidade de uma ampla discussão sobre o estado com o pessoal do Sarney, por que eles não são ideológicos, eles são uma praga política que só enxerga o próprio bolso.