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Política

Genocídio brasileiro, por Vincent Carelli

por Felipe Milanez publicado 12/06/2013 13h27

A crise atual entre povos indígenas, governo e fazendeiros, tem provocado um intenso debates nas redes sociais. O debate é importante, fundamental para aprofundar o conhecimento sobre esse drama. As vítimas estão aí para mostrar que um problema histórico é também um problema contemporâneo.

Vincent Carelli, indigenista e diretor de documentários, começou em 1987 o projeto Vídeo nas Aldeias, colocando o vídeo a serviço dos projetos políticos e culturais dos índios. Entre diversos trabalhos produzidos em parceria com povos indígenas, um dos mais fundamentais, que é um dos principais filmes jamais realizados sobre a violência contra os povos indígenas no Brasil, é o filme Corumbiara (2009), disponível na íntegra no Youtube. Assistir Corumbiara hoje é fundamental para se compreender como processos de violência do passado podem se repetir, caso suas causas e fundamentos não sejam resolvidos. Corumbiara aborda o genocídio dos povos Kanoe, Akuntsu e do "índio do tanaru", em Rondônia, entre os anos 1980 e 1990.

O depoimento de Elpídio Pires na Comissão da Verdade que Vincent apresenta é muito esclarecedor sobre o drama a que estão submetidos os povos indígenas.

Elpídio está ameaçado de morte. Em 2011, após o assassinato do líder guarani Nísio Gomes, eu acompanhei uma reunião da associação Aty Guasu. Os depoimentos dos kaiowa e guarani podem ser vistos nesse vídeo. E aqui, assista ao depoimento que Elpídio me concedeu. Abaixo, a opinião de Vicent Carelli sobre a atual crise, e o continuado processo de genocídio dos povos indígenas.

Genocídio brasileiro

Por Vincent Carelli

Vocês querem saber qual é o estado de espírito, qual o sentimento dos índios Guarani-Kaiowá, Terena, Munduruku... neste momento?

O depoimento de Elpídio Pires, do povo Guarani-Kaiowá, nos traz, num desabafo sofrido e sincero, um retrato desse sentimento: após descrever a expropriação e o martírio a que tem sido submetidos de maneira invisível ao país, ele encerra sua fala com uma mensagem clara: “Basta, não podemos esperar mais nada, vamos retomar o que é nosso!”. Os índios estão sacrificando suas vidas pelo resgaste de sua dignidade, dos seus direitos e de alguma esperança para os seus filhos. Há trinta anos que eu ouço eles declararem após cada expulsão: “Eu vou voltar, porque essa terra é nossa, se quiserem me matar, podem me matar”. E foi essa mesma declaração do acampamento de Puelito Kuy que, interpretada como o anúncio de um suicídio coletivo, comoveu parte da sociedade brasileira no final do ano passado.

Elpídio Pires prestou este depoimento no dia 28 de maio deste ano (2013) perante vários membros da Aty-Guasu, Assembléia Geral dos Guarani-Kaiowá, e Marcelo Zelic, do grupo Tortura Nunca Mais e assessor da Comissão Nacional da Verdade.

No domingo do dia 02 de junho, o Fantástico, programa de maior audiência no país, assume de maneira tendenciosa e irresponsável, a versão de que os índios “invadiram propriedades”. Eu diria mais que irresponsável, um jornalismo criminoso. Como se, de repente, os índios tivessem, num surto de demência, decidido expropriar terras alheias. Sem ouvir a outra parte, os índios são pré-condenados à revelia. É o clamor nacional da mídia brasileira contra a demanda indígena. Enquanto isso, o Ministro da Justiça diz que “agitadores” inflamam as redes sociais. Pois este é o último espaço de livre circulação democrática de informação que restou neste país para denunciar a impunidade dos assassinos das lideranças indígenas, e a opção do governo pelos espoliadores de suas terras. Isso me lembra os tempos da ditadura, quando éramos chamados de “subversivos”.

Indignados com as inverdades propaladas tendenciosamente pela mídia, e em estado de choque com a sucessão de assassinatos que ocorreram desde a morte do cacique Nísio, no final de 2012, decidimos percorrer algumas aldeias Guarani-Kaiowá para entender o momento e produzir um documentário capaz de trazer à tona testemunhos que possam restabelecer de forma contundente a verdade dos fatos. Diante da urgência destes esclarecimentos, resolvemos antecipar pela internet capítulos do documentário que o Vídeo nas Aldeias está produzindo sobre o tema e que terá o nome “Martírio”.

Afinal que terras são essas que os índios “invadem”? A verdade histórica que todos fazem questão de omitir é que o grande responsável pela situação em que os índios do Mato Grosso do Sul se encontram é o Estado brasileiro. A partir de 1928, o governo criou umas poucas reservas e decidiu que todos os Guarani-Kaiowá do estado deveriam ser alojados nelas, à força. Os índios, que a princípio acolheram os novos colonos, trabalharam na implantação das fazendas, sem se darem conta que suas terras estavam sendo alienadas pelos papéis dos “brancos”. Num segundo momento, foram jogados em acampamentos de beira de estrada ou deportados de suas aldeias e confinados nas reservas criadas pelo governo, onde eles nunca concordaram em permanecer.

Durante 60 anos, essa política de deportação e confinamento foi executada por fazendeiros, auxiliados por pistoleiros, policiais militares, e com o apoio do SPI e da Funai, sem que o país tomasse conhecimento dos acontecimentos. Até que o Estado brasileiro começasse a assumir, em meados da década de 1980, que era necessário rever a questão fundiária dos índios. É então que começa uma série macabra de assassinatos de lideranças indígenas cometidos por fazendeiros.

A situação se transformou numa tragédia humana: o mais alto índice de mortalidade infantil por desnutrição do país, um recorde em suicídio de jovens e assassinatos de lideranças. O presidente Lula então, além da operação emergencial das 30 mil cestas básicas mensais, pede à Funai a formação de um grupo de trabalho para resolver a questão fundiária dos índios. E são hoje esses estudos, feitos com muito critério sim senhor, que o governo Dilma, atendendo as alegações mentirosas da classe ruralista, está desautorizando. O governo endossa a alegação dos ruralistas de que a Funai não tem critérios claros para demarcar terras indígenas. Desmoralizado pelo próprio governo, o único órgão governamental que tem por atribuição defender os direitos indígenas, agora é tratado com adjetivos vulgares pela classe política: “O índio morto foi vítima de vigarice patrocinada pela Funai” diz o deputado Alceu Morreira (PMDB-MS). E o velho lenga-lenga de que ONGs são os agitadores, defendendo interesses estrangeiros e ideologias “irreais”.

O governo é incapaz de negociar diretamente com os índios e o projeto desenvolvimentista está sendo tocado goela abaixo. Vejam o caso de Belo Monte. Todas as vezes que os índios ocuparam os canteiros de obras e que houve negociações, elas foram descumpridas assim que os índios deixaram o local. É preciso tocar as obras a todo custo, questões ambientais e sociais podem ser deixadas para depois. Aos índios não interessa papel, o que interessa é a sinceridade nas negociação e a palavra cumprida, assim como o presidente Lula cumpriu sua palavra de resolver a questão da área indígena Raposa-Serra do Sol.

Uma sucessão de erros do governo só tem alimentado a revolta dos índios. Depois da Polícia Federal ter matado um índio Munduruku no ano de 2012 num episódio mal esclarecido, o governo manda uma equipe de pesquisadores ao Rio Tapajós para estudos das próximas hidrelétricas escoltados por uma tropa de 250 homens da Força Nacional, enquanto os índios insistiam em serem ouvidos. Conclusão, o governo arrumou um problema que antes não existia: 100 índios Munduruku, entendendo que eles seriam a próxima bola da vez, se deslocaram para Altamira e passaram a liderar a resistência em Belo Monte.

Vejam o caso das hidrelétricas do Rio Madeira, onde não havia índios para “atravancarem o progresso do país”, resultou numa rebelião de 25 mil operários, fruto do capitalismo selvagem praticados pelas grandes construtoras que terceirizam mão de obra para se eximirem de qualquer responsabilidade. O caso do Museu do Índio no Maracanã no Rio de Janeiro é outro. Um prédio histórico, símbolo do indigenismo brasileiro do início do século XX, tinha tudo para ser tombado, restaurado, e fazer o orgulho de todos nós brasileiros perante o mundo que virá nos visitar na Copa do Mundo. Mas querem derrubar para ampliar a área do estacionamento do estádio! Quanta ignorância e quanta truculência!

Enquanto isso alguns pedem mais sangue: o dono da fazenda Buriti, onde um índio foi morto na semana passada, o Sr. Bacha se declara no jornal Folha de São Paulo, pedindo a intervenção da “força pacificadora” alegando que sua fazenda virou um “Morro do Alemão”, ou seja, os índios são considerados por ele marginais ligados ao tráfico no Rio de Janeiro e o remédio é tropa de choque. Sábado passado a presidente Dilma anunciou que vai lançar um programa milagroso que tornará os povos indígenas economicamente autônomos.

Me lembrei da época do governo militar em que povo Xavante recebeu do governo federal um mega projeto de agricultura mecanizada de arroz, abandonado dez anos mais tarde com consequências desastrosas para os recursos naturais de suas parcas reservas.  Este foi o projeto da ditadura para aplacar os protestos dos índios xavante pela demarcação das suas reservas, encabeçados pelo único deputado federal indígena que o Brasil já teve, o Mario Juruna, que queimava a imagem do Brasil no exterior num momento em que o país precisava de empréstimos de fora.

O que nos preocupa é que numa reunião emergencial da presidente com seus ministros, o único órgão do governo que tem informações confiáveis sobre os índios, e que tem por atribuição cuidar deles, a Funai, sequer é convidada! Parece piada de mau gosto. O que esperar daqui para frente? Será que não compreendem que eles não querem ser como nós, que eles não se tornarão pequenos empresários do agro negócio? O que os índios reclamam é um espaço para viver a sua vida, exercer o direito à diferença, reflorestar as áreas que lhes forem devolvidas para que floresçam as árvores medicinais, que uma nova harmonia se restabeleça nesta terra devastada, com o auxílio de suas rezas e do apoio do governo para se restabelecerem da opressão degradante a que foram submetidos no último meio século. Sequelas terríveis físicas, psicológicas, socioculturais são marcas visíveis desse flagelo: alcoolismo, suicídios, mortes por desnutrição, atropelamentos, assassinatos.

Hoje a Comissão da Verdade, instituída pelo governo Dilma, investiga os abusos praticados pela ditadura, inclusive contra os índios. Mas de que adianta se hoje se praticam agressões semelhantes àquelas praticadas naquela época e se o Estado não reconhece a sua responsabilidade pela política indigenista equivocada que resultou no desterro desses povos? Se os presos políticos da ditadura recebem reparação do Estado brasileiro pelos abusos sofridos, porque os índios não merecem a sua reparação. Por desprezo? Por considera-los cidadãos de segunda categoria, entrave ao desenvolvimento nacional, ameaça à soberania do território nacional? Por racismo? Aos índios é negado o direito à memória, a verdade histórica, o direito a voz!

Enquanto se consuma o genocídio brasileiro dos nossos tempos, só nos restará apelar paras as cortes internacionais. Não adianta querer deslegitimar a demanda indígena por terras. Os índios reclamam a devolução de uma parte ínfima do seu território, 2% do estado (e não 20% como blefam os ruralistas para pressionar o governo ne ganhar a adesão da opinião pública desinformada) o que não vai afetar em nada a produção do agronegócio. O estado tem que assumir a sua responsabilidade e pagar a conta, indenizando as “propriedades constituídas de boa fé” e retomando aquelas terras devolutas do estado que foram griladas ilegalmente. Que a justiça seja feita! Que os fazendeiros sejam indenizados, e as terras devolvidas. Que a gente não seja obrigado e entrar numa guerra. Para que isso não aconteça é que a gente reza todos os dias!”, finaliza Elpídio Pires.

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