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Política

Povos Indígenas

Dinheiro é veneno no Xingu

por Felipe Milanez publicado 31/10/2014 13h10, última modificação 31/10/2014 17h34
Pirakuman Yawalapiti e Afukaka Kuikuro, duas das principais lideranças do parque, refletem sobre a expansão do capitalismo nas terras indígena
Reflexões sobre o capitalismo

Pirakuman Yawalapiti, uma das mais destacadas lideranças do Xingu, faz uma reflexão sobre a expansão do capitalismo dentro do arque Indígena do Xingu e os riscos associados. Foto de Felipe Milanez no Kuarup na aldeia Tuatuari em agosto de 2014

Na festa dos mortos deste ano no alto Xingu, que aconteceu em agosto, durante o período da seca, duas histórias sobre os desafios das sociedades indígenas frente a uma expansão cada vez mais ampla do capitalismo se cruzaram nos pátios de diferentes aldeias.

Na aldeia Ipatse, dos Kuikuro, um dos homenageados era um jovem kalapalo, Kuangi Kalapalo, que, como muitos jovens do Alto Xingu, tentam a vida na cidade com subempregos. Morreu trabalhando num silo de soja. Um acidente de trabalho que custou sua vida. Foi soterrado por soja, literalmente. E seu corpo foi trazido para ser enterrado na aldeia, onde recebeu a homenagem espiritual dedicada aos grandes chefes. Afukaka Kuikuro, o cacique em Ipatse, é um dos mais dedicados defensores da cultura xinguana e se opõe ao fato de jovens abandonarem a vida na aldeia para se mudarem para a cidade. Simbolicamente, esse ritual em homenagem ao jovem também serviu para alertar muitos outros de que o que os espera, fora das lindas aldeias, é um trabalho degradante, às vezes escravo, e difíceis condições de vida cotidiana, sofrendo racismo, preconceito e discriminação.

Um outro homenageado era um velho Yawalapiti que viu seu povo quase desaparecer no passado e viu crescer e se multiplicar nos últimos tempos — porém, também com alguns jovens tentando a vida fora dos limites do Parque e sofrendo na mãos de exploradores. Mapukaiaka, nome do homenageado no Kuarup na aldeia Tuatuari, dos Yawalapiti, era um dos últimos falantes da língua que hoje é compartilhada apenas por sete pessoas.

Quando os Yawalapiti eram poucos, após sofrerem uma terrível epidemia de sarampo e ataques de inimigos, eles se espalharam por algumas aldeias de diferentes povos no Xingu. Mapuaiaka foi para os Mehinaku. O povo Yawalapiti voltou a se recompor com o apoio de Orlando Villas Bôas pouco antes da criação do Parque do Xingu, em 1961. Com muitos casamentos interétnicos com seus povos vizinhos, algumas línguas tornaram-se predominantes, como o Kuikuro, da família Karib, e o Yawalapiti, da família Arawak, passou a ser pouco falado dentro das casas. Quando Villas Bôas ajudou os Yawalapiti a se reunirem, no final dos anos 1950, Mapukaiaka já tinha ouvido, pelo próprio sertanista, que em breve a floresta estaria cercada de fazenda e cidades.

Pirakuman, importante liderança dos Yawalapiti, e Afukaka, dos Kuikuro, são dois dos 14 coautores de um livro que será publicado pela editora Sesc, e do qual sou organizador. O livro se chama Memórias sertanistas - Cem anos de indigenismo no Brasil (São Paulo: Edições Sesc SP, 2014, NO PRELO), e será lançado no início de 2015. No seu depoimento, Pirakuman propõe uma longa reflexão sobre a relação de seu povo com o indigenismo de Estado no Brasil, em especial com o sertanista Orlando Villas Bôas. Uma parte de seu depoimento, no entanto, trata de um tema fundamental no momento: a relação dos povos indígenas com as políticas públicas. E isso vai muito além da questão da terra — o problema fundamental e mais urgente. No caso do Xingu, o problema é também o dinheiro, que opera tanto pela sedução do capitalismo no entorno, quanto pela suposta compensação de impacto de grandes projetos ou por contratações, feitas pelo governo, de funcionários indígenas e a mercantilização nas relações internas nas aldeias.

Parte do depoimento de Afukaka foi publicada aqui nesse blog, ano passado, momento em que Afukaka criticou o atual governo por desrespeitar direitos indígenas, e a pressão dos ruralistas contra os territórios: “A política do governo não deixa mais recuperar nossa terra. Querem mudar a lei, estão enfraquecendo Funai. Não estamos conseguindo recuperar nenhum lugar sagrado.”

Durante o Kuarup no Yawalapiti, dentro do Parque Indígena do Xingu, em agosto de 2014, conversei longamente com estas duas lideranças. Alguns funcionários da Funai, a partir de Brasília, tentaram impedir a minha entrada na área, mesmo a convite das lideranças para acompanhar o ritual, escutá-los e auxiliá-los, na posição de jornalista comprometido com a luta indígena, a difundir suas ideias, com intimidações e ameaças que foram reportadas para a chefia da instituição — isso acontecia ao mesmo tempo em que a Funai fechava os olhos para a entrada, no mesmo ritual, de deputados em campanha, advogados negociando créditos de carbono, turistas, etc... Felizmente, durante o trâmite do processo, a situação foi controlada com o auxilio da assessoria de comunicação do órgão e o envolvimento de funcionários também comprometidos com a causa indígena. A regulamentação atual da Funai para o trabalho de jornalistas pode não apenas atingir a liberdade de expressão da sociedade, mas a própria capacidade de articulação política dos povos indígenas na opinião pública frente a uma sociedade marcada cada vez mais por sentimentos racistas e anti-indígenas.

A reflexão que Pirakuman propõe sobre o dinheiro, no atual momento de instabilidade da Funai enquanto instituição e uma desarticulação das políticas públicas para os povos indígenas, deveria servir como referência para aperfeiçoar o diálogo entre o governo e indígenas na produção conjunta de uma política indigenista progressista, marcada pelo protagonismo das sociedades indígenas e visando autonomia e emancipação. Pirakuman, como muitas lideranças indígenas pelo Brasil, não votou em Dilma. Esse talvez seja o recado para serem, finalmente, escutados e parte do diálogo que propõe a presidenta. Não apenas quando são atingidos por mega-projetos, mas mesmo na elaboração de programas como bolsa família, educação e saúde.

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"O dinheiro é veneno", por Pirakuman Yawalapiti

Estamos muito preocupados com o futuro do Xingu. A gente não sabe o que vai acontecer daqui a cinquenta anos. De lá para cá, tudo correu bem. Mas a gente lutou muito. Eu sei que temos contato com o branco já há quase cem anos. Até agora, com muita luta, estamos mantendo a cultura. A minha preocupação é o futuro.

Nos, Yawalapiti, toda noite e à tarde a gente reúne os jovens, falando sobre essa preocupação, falando do futuro deles. Como Orlando e meu pai faziam quando eu era pequeno.

Mas, nesse tempo, o que mudou a rapaziada hoje lá no Xingu... é coisa triste.

A principal mudanças na juventude é o dinheiro. Esse é o problema. Dinheiro que veio do emprego. A saúde oficial do Estado entrou ali e empregou os rapazes como auxiliar de enfermagem. A educação entrou ali e empregou os rapazes e as meninas como professores. Os jovens viraram funcionários públicos. Dentro da aldeia. Mas não é emprego para muito tempo. É emprego que dura pouco, e leva o dinheiro pra dentro da aldeia. E o que isso quer dizer? Significa que os que têm emprego dizem que querem ir morar na cidade: “Eu vou sair da aldeia, eu vou morar na cidade. Eu vou arrumar outro emprego”. Um emprego faz com que o jovem queira arrumar, depois, outro emprego. E assim deixa de lado o custume, a cultura.

O governo hoje dá emprego para quem sabe escrever um pouco. Esses jovens recebem emprego para trabalhar na saúde, como agente de saúde, e ajudar a comunidade, ou educação, como falei. Mas o problema é em seguida. Quando termina o contrato de um ano, eles querem sair para a cidade para procurar outro emprego. Isso me preocupa muito. Emprego e dinheiro. E os empregos que els vão encontrar na cidade são sub emprego dos brancos. Eles trabalham para fazendeiros. Trabalham para sojeiro. Já está acontecendo. Ate um rapaz morreu trabalhando a soja, quando despencou soja nele. Um jovem kalapalo. Esse circulo de emprego e dinheiro é um problema muito perigoso.

Vários rapazes de outras etnias estão trabalhando como varredor de rua, peão de fazenda, fazendo tijolo na olaria, fazendo asfalto na estrada junto do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte), e não querem voltar para a aldeia. Porque acostumaram a pegar dinheiro e não querem mais voltar. O pessoal que mora na cidade não sabe mais história nem a sua cultura. Tudo o que a gente sabe ele não sabe mais. Isso está deixando a gente ficar doente. Eu, meu irmão, outros caciques, a gente tenta falar e o jovem recusa ouvir.

E é do jeito que o Orlando falava pra mim, é como está acontecendo.

Sobre o dinheiro, especificamente, o Orlando falava assim: “O que vai acabar com vocês é o dinheiro. O dinheiro é a arma mais perigosa que o branco tem. É veneno. O dinheiro faz tudo. O branco vai te comprar, vai fazer vocês virarem inimigo do seu próprio irmão, do seu parente. Dinheiro vai trazer inveja, ciúme. Vai provocar briga. Tudo isso, o dinheiro”.

Está acontecendo tudo o que o Orlando falava. Daí, com o dinheiro, o jovem esquece a cultura e passa a se preocupar com as coisas do branco.

É uma coisa que eu queria entender. Por que tem que ir atrás do emprego, morar na cidade? Eu não vejo nenhum problema se você está morando na aldeia. Lá, você não tem nada de gastar, como na cidade. De pagar aluguel, pagar água, energia, comida. Não existe esse tipo de coisa na aldeia.

Agente de saúde que foi demitido vai embora para a cidade procurar emprego. E nesse caminho, tem jovens também que fazem a cabeça dos pais, levam os pais para se aposentar. Alugam uma casa na cidade. O velho se sente bem na aldeia. Mas, por influência dos jovens, ele vai pra cidade, e sofre. Falta comida. Falta tudo.

Esse é o problema do dinheiro. Problema que atinge dentro de nós. Só que esse não é o único problema lá no Xingu.

Produção de soja, poluição de água, veneno caindo na água, isso nos atinge iretamente. Atinge o nosso território e atinge a nossa vida. O Xingu está cercado de soja, não tem mais aquela mata. Os rios estão ficando contaminados, e o ar está seco. Cada ano que passa, tem mais queimadas. Agora, qualquer fogo é perigoso, porque as fazendas estão secando o ar. Em 2012, nossa aldeia queimou todinha num grande incêndio, tivemos que reconstruir.

Agora, as fazendas e as cidades chegaram na porta do Xingu. Nossos filhos estão entre esses dois mundos. E a gente precisa lutar.

 

*Colaborou Maíra Kubík Mano