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Política

Mudanças Climáticas

COP20: reflexões ecológicas de Joan Martinez Alier

por Joan Martinez Alier — publicado 01/12/2014 16h23, última modificação 01/12/2014 18h57
O economista catalão Joan Martinez Alier propõe reflexões ecológicas para o debate em torno da COP 20, reunião das Nações Unidas sobre o clima que acontece em Lima, Peru
Tatiana Roa
O economista contra a corrente

Joan Martinez Alier propõe deixar o petróleo debaixo da terra e reduzir o metabolismo social global de consumo de recursos naturais

Entre 1º e 12 de dezembro, acontece em Lima, Peru, a 20ª Convenção das Nações Unidas Sobre as Mudanças Climáticas (COP20). É difícil imaginar que essa reunião da ONU consiga produzir avanços necessários para mudar o curso de emissão de carbono que ameaça o planeta, ou mesmo preparar algum documento mais ousado para a reunião em Paris, daqui um ano, cujo objetivo é alcançar um acordo juridicamente vinculativo e universal sobre o clima entre todas as nações do mundo.

Acontece que os problemas ecológicos vão além das emissões de carbono, e os milhares de conflitos relacionados ao ambiente envolvem tanto a extração dos recursos naturais quanto o despejo dos dejetos. O economista catalão Joan Martinez Alier, que desenvolveu a teoria do "ambientalismo popular", produziu importantes reflexões nos últimos anos sobre a crise climática e as lutas por justiça ambiental. Os artigos foram, em grande parte, publicados no jornal mexicano La Jornada, e com autorização do autor, traduzi para publicar no blog.

As reflexões ecológicas de Joan Martinez Alier são fundamentais para o debate em torno do ambientalismo na América Latina, e leitura necessária não apenas agora, no momento da COP20, mas para a articulação de resistências ao processo de despossessão territorial e ecológica. Martinez Alier é autor do livro O Ecologismo dos Pobres (Ed. Contexto, 384 p., R$69,00) e professor da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB).

 

Reflexões ecológicas, por Joan Martines Alier

1: Argumentos econômicos contra o extrativismo predatório dos recursos naturais

Em toda a América do Sul, há enormes exportações em volume (toneladas de petróleo, carvão, minério de ferro, soja, madeira, cobre...) e, contudo, vários países (Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela, Argentina, Equador) não conseguem sequer pagar as suas importações. As exportações não pagam suas importações. Um exemplo: a Colômbia vende para o exterior cinco vezes mais toneladas do que compra de fora, e não consegue pagar suas importações com as exportações que, nesse caso, são em grande parte em carvão mineral.

Permanece uma estrutura desfavorável no comércio exterior, exportam-se mais toneladas do que se importam, e vende-se muito mais barato por tonelada do que se compra. E essa grande exportação física não permite pagar as importações. As balanças comerciais destes países medidas em dinheiro estão em déficit, apenas a Argentina e o Equador possuem um pequeno superávit.

Dá no mesmo se os governos forem nacional-populares ou neoliberais. No Brasil e na Argentina, igual a outros países e na Venezuela, as exportações são persistentemente maiores do que as importações — em toneladas. Mas o Brasil entrou em déficit comercial entre janeiro e março de 2014 de 6.072 milhões de dólares, o maior em um trimestre em 21 anos, enquanto a Argentina vê seu superávit quase desaparecer. Isto ocorre apesar de a moeda de ambos os países ter se desvalorizado, com o objetivo de exportar ainda mais quantidades e frear as importações. A balança comercial brasileira apresentou, em outubro de 2014, um déficit de 1,177 bilhão de dólares, seu pior resultado para o mês desde 1998, quando houve um déficit de US$ 1,443 bilhão.

Há uma relação estrutural de intercâmbio desfavorável que se observa em dois âmbitos: de um lado, se registram persistentes déficits físicos, quer dizer, se exportam mais toneladas de materiais do que se importam. Chamamos de déficit porque se perdem recursos naturais, se esgotam os recursos. Em anos recentes, essa trajetória está acompanhada em países grandes e pequenos de um contraproducente déficit na balança comercial monetária que compõe o segundo âmbito da deterioração estrutural no comércio exterior da economia.

Por que é contraproducente? Porque em princípio conduz a um endividamento maior e a uma pressão para exportar mais e mais, causando maiores danos ambientais e mais conflitos sociais. Os déficits comerciais exigem outros ingressos no balanço de conta corrente ou no balanço de capitais. Investimentos estrangeiros podem compensar o déficit comercial, mas vão gerar rendas que depois fogem do País.

Um leve resfriado na China se transforma numa pneumonia na América do Sul, ainda que se possa imaginar que a demanda por matérias primas que não se reciclam (como os combustíveis fósseis), ou que se reciclam apenas em parte (como os metais), tende a ser perene, inclusive sem crescimento econômico mundial. Se hoje o mundo queima 90 milhões de barris, amanhã vai queimar outros 90 milhões, um pouco mais ou pouco menos. A energia não se recicla. A demanda se mantém, mas os custos econômicos, sociais e ambientais da extração são crescentes, enquanto se extrai minerais e petróleo ou gás de lugares mais distantes, como também acontece com a extração de madeira ou soja. Ao mesmo tempo, com ofertas abundantes, os preços podem baixar muito em relação apenas a pequenas oscilações na conjuntura de países importadores.

Por essa razão, as críticas dos pós-extrativistas sul americanos, como Maristella Svampa, Eduardo Gudynas, Alberto Acosta, possuem um duplo fundamento econômico. A exportação de matérias primas esgota os recursos naturais, produz contaminação e causa conflitos com as populações locais, degradando moralmente governos que utilizam a repressão como método para a extração, como o presidente Rafael Correa, no Equador, esquecendo dos princípios do Buen Vivir e Sumak Kawsay, ou Dilma Rousseff, no Brasil, rasgando a Constituição Federal de 1988 para construir usinas hidrelétricas na Amazônia. Por outro lado, os preços dessas grandes exportações são baratos em relação com as exportações. Se exporta muito e no entanto não se cobre o custo da importação. Esse e um novo caminho para o endividamento.

2: Deixar o petróleo debaixo da terra

Quando Svante Arrhenius, químico sueco e ganhador do prêmio Nobel, publicou os primeiros ar­tigos sobre mudanças climáticas, em 1896, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era de  300 partes por milhão (ppm). Ano passado, ultrapassou os 400 ppm e segue subindo 2 ppm por ano. Arrhenius havia anunciado que ao queimar carvão que estava debaixo da terra, os países industrializados estavam colocando mais e mais dióxido de carbono na atmosfera e isso iria fazer aumentar as temperaturas. Ele não poderia imaginar que no século XX a queima de carvão aumentaria sete vezes nem que à queima de carvão se somaria a queima de muito mais petróleo e gás natural. Além dos efeitos do desmatamento.

Acontece que a nova vegetação e os oceanos não absorvem todo o dióxido de carbono que produz a economia humana. Os combustíveis fósseis são como fotossíntese engarrafada há milhões de anos. Nos os removemos e queimamos com extrema rapidez. O aumento do efeito estufa (assim classificou Arrhenius) será cada vez mais rápido.

É no mínimo razoável a proposta de deixar de baixo da terra uma parte do petróleo, do carvão e do gás. Devemos diminuir pela metade a velocidade da extração dos combustíveis fosseis. Essa proposta vem de lugares onde a extração do petróleo, carvão ou gás esta produzindo muitos danos. Por exemplo, na Amazônia no Equador ou no Peru, ou no delta do rio Níger, na Nigéria. No México, o petróleo destruiu o ambiente em Tabasco e Campeche, e a BP causou um grande derrame em 2010 no Golfo do México. Há ainda desastres ligados a mineração de carvão na Colômbia, na China e na Índia e pela extração das areias betuminosas no Canadá

A idéia de deixar o petróleo na terra se espalhou. No delta do Niger, alguns falam de Ogonizar, mais do que yasunizar, porque o povo ogoni, desde 1995 e  morte de Ken Saro-Wiwa, conseguiram expulsar durante muitos anos a Shell. Lá eles dizem: deixe o óleo no solo, leave oil in the soil. Em outros lugares: leave coal in the hole, leave gas under the grass.

Na Guatemala foi proposto não extrair o petróleo na Laguna del Tigre, um sitio Ramsar no Petén (uma zona húmida catalogada internacionalmente). Nas ilhas de San Andrés y Providencia, na Colombia (próximo da Nicarágua), se decidiu oficialmente deixar o petróleo no subsolo em razão de protestos locais. Na distante Nova Zelândia, há quem se oponha a bestial extração de lignito, e o mesmo acontece em Quebec, na França, na Bulgária, no País Basco, onde se conseguiu parar a extração de gás que colocava em risco o lençol freático. Até nas ilhas Lofoten, na Noruega, existe a proposta de deixar o petróleo e o gás no fundo do mar. Nas Ilhas Canárias, o governo quer um referendum para decidir sobre a exploração petroleira da companhia Repsol.

Existem razões locais e globais, como as mudanças climáticas, para deixar o petróleo debaixo da terra.

3. Por uma Justiça ambiental mundial

Justiça ambiental é uma força importante para se conseguir uma maior sustentabilidade ecológica. Entretanto, a pesar da sua importância, as organizações de justiça ambiental, as ongs que são ligadas a justiça ambiental, faltam recursos econômicos necessários. No Instituto de Ciencia e Tecnologia Ambiental, da Universidade de Barcelona, temos um projeto financiado com fundos europeus chamado EJOLT (Environmental Justice Organisations, Liabilities and Trade), que desde 2011 tem por objetivo estudar os conflitos socioambientais em todo o planeta. No Brasil, faz parte do Ejolt a Fiocruz, coordenada por Marcelo Firpo Porto. O Ejolt funciona até 2015 e conta com a participação de 23 organizações acadêmicas e grupos de ativistas de justiça ambiental (veja em www.ejolt.org e http://www.ejatlas.org/)

Estudamos temas relacionados a legislação, saúde e também de valoração econômica dos passivos ambientais, como, por exemplo, a valoração incluída nas sentenças de 2011 e 2012 contra a Chevron-Texaco pelos impactos produzidos no Equador.

O metabolismo social da economia mundial e a competição por recursos naturais exercem uma pressão cada vez maior sobre o meio ambiente e as comunidades humanas mais vulneráveis. Essa tendência não tem previsão de mudar, e é certo que os conflitos irão aumentar. Nesses conflitos, as organizações a favor da justiça ambiental intervém, grupos sociais locais que por vezes conseguem um alcance nacional ou internacional. Estas organizações nasceram de conflitos socioambientais que surgem entre comunidades, governos e empresas, seja pela extração de recursos ou a eliminação de resíduos. E participam destes conflitos. São ONGs que devem ser chamadas de OJA (Organizações de Justiça Ambiental), porque a sua tarefa é a justiça ambiental. Seu trabalho é fundamental para não se esquecer que a segurança ambiental e um direito humano básico. Elas empurram a economia mundial para a sustentabilidade. Um trabalho difícil, quase impossível.

Em termos acadêmicos, esses estudos e inventários de conflitos ambientais fazem avançar o campo da ecologia política, já que coletamos, analisamos e comparamos muitos conflitos sobre mineração, extração de biomassa, hidroeletricidade, combustíveis fósseis, energia nuclear e outros. Por exemplo, há melhores estatísticas de assassinatos de ativistas, ou sobre estudos da intervenção de empresas chinesas na África e na América Latina.

É preciso aprender com as OJA e as comunidades, e ajuda-las a denunciar injustiças, para reforçar-se mutuamente, para reivindicar e defender direitos. As comunidades pobres, ou indígenas, muitas vezes sofrem uma parcela desproporcional dos danos da poluição e da perda de recursos essenciais para a sua subsistência, desde a mineração e a extração até o descarte de resíduos, passando pelo processamento. Aqueles que são os mais afetados são os setores mais marginalizados da população, como os pobres e as minorias indígenas, quilombolas, que dependem de forma muito direta dos recursos naturais para a sua subsistência. Os conflitos surgem quando a indústria tenta apropriar-se dos recursos e isso provoca a expropriação e a contaminação. Estes conflitos são cada vez mais frequentes nas fronteiras de extração de recursos ou commodities, lugares remotos mas muito valiosos, pois possuem os ecossistemas melhor conservados.

Hà o que chamamos de uma “cegueira de consumidores”, e que queremos ajudar a curar. Ao se reabastecer de gasolina nos Estados Unidos ou na Europa não se percebe que o combustível pode vir de comunidades contaminadas no delta do Niger ou de um desastre ambiental como são as areias betuminosas em Alberta, no Canadá. A intenção é tornar mais evidente o metabolismo da sociedade e colocar em destaque os conflitos que surgem na produção de bens de consumo e na evacuação de resíduos. Por exemplo, existe um movimento internacional de justiça climática que protesta contra as mudanças climáticas que vá derreter glaciares e fazer subir o nível do mar, afetando todo o mundo. Nenhuma culpa tem os países pobres cujas emissões de gases de efeito estufa são escassas. Trata-se, portanto, de se alcançar uma justiça socioambiental e de colocar na mesa conceitos como a dívida ecológica e o comércio ecologicamente desigual.

4. Os conflitos pela extração de recursos no mundo

Ha muitos conflitos por mineração no mundo, mas, ainda que pareça mentira, ninguém os conta, nem o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente nem os grupos ambientalistas. Estima-se que sejam milhares. Há dúvidas sobre se contamos apenas com critérios restritos, ou os conflitos que envolvam dezenas de pessoas, ou conflitos que saiam na imprensa, ou que tenham causado mortes, o numero pode se reduzir, mas é enorme.

É errado buscar causas locais ou nacionais nesses numerosos conflitos. Suas raízes estão no aumento do metabolismo social (fluxos de materiais e energia) que chega ao extremo. Nessas fronteiras de extração há gente pobre, muitas vezes indígenas, que protestam para defender seus territórios, como a montanha Wirikuta, no México, ou a montanha Niyamgiri, em Odisha, na Índia, ou o rio Tapajós, defendido pelos Munduruku, no Brasil. Enquanto no Peru o governo de Ollanta Humala enxerga terroristas do Sendero Luminoso ou do MRTA por trás destes movimentos, ao lado, no Equador ou na Bolívia, acusam ONGs de serem direitistas financiadas pelo dinheiro europeu e norte-americano. Semelhante discurso nacionalista acontece no Brasil.

Enquanto isso, as vitimas do ecologismo popular vão caindo mortas uma atrás da outra.

A causa dos conflitos na mineração, igual que os outros conflitos por extração de petróleo ou gás, ou os conflitos pela extração de biomassa (pelo desmatamento, madeira ilegal, eucalipto, biocombustíveis) não está no neoliberalismo, como se costuma pensar. A causa é o aumento do metabolismo social. Não há diferença se a economia mundial siga uma política neoliberal ou se siga um modelo keynesiano ou social democrata. Não se pode dizer que a economia chinesa seja neoliberal. O embaixador chinês em Quito, no Equador, de fato, está atrás é do cobre e de petróleo.

Durante a Rio+20, não se falou dos mortos pelas injustiças ambientais. Na última década, segundo relatório da organização inglesa Global Witness, 908 pessoas foram mortas por defender o meio ambiente. Somente em 2012, mesmo ano do encontro mundial no Rio, 147 ambientalistas foram assassinados. O Brasil é o país mais violento do mundo, com 448 assassinatos entre 2002 e 2013.

Muitas vezes ha mortes em conflitos ambientais, mas também há resistência e as vezes exemplos vitoriosos de como parar projetos e propor alternativas.

5. O novo livro de Naomi Klein: Isso muda tudo

O novo livro de Naomi Klein, “Isso muda tudo: capitalismo vs clima”(Allen Lane, London, 2014), coloca a mudança climática no centro da política. Ela traça as conexões locais e globais dos movimentos que, por toda parte, atuam contra o petróleo, o carbono e a extração de gás. Podem-se acrescentar movimentos no Brasil e em outros lugares contra a devastação de florestas. “Seja ou não a mudança climática seu motivo principal, (tais movimentos locais) merecem ser reconhecidos como “guardiões do carbono” anônimos, que mediante a proteção de seus amados bosques, montanhas, rios e costas, estão ajudando a proteger a todos nós” (p. 352).

Naomi Klein louva a “Ogonização” (ogonization) e a “Yasunização” (citando relatórios do projeto EJOLT), e está de acordo com a ecologia dos pobres e dos indígenas. Naomi Klein ficou impressionada pela força da demanda da Dívida Ecológica ao falar, em abril de 2009, com Angélica Navarro, a jovem embaixadora boliviana na ONU. O livro denuncia a falta de ação das Nações Unidas durante e depois de Copenhague 2009, e o fracasso dos principais políticos mundiais para fazer frente a questão.

Narra com bom humor a participação da autora como convidada (ou penetra?) das reuniões do Heartland Institute, nas quais se organiza a negação, por motivos políticos, da mudança climática, e também em uma reunião dos principais especialistas sobre métodos de geo-engenharia, incluindo Ken Caldeira e David Keith. O evento foi patrocinado pela Royal Society no Chicheley Hall, uma esplêndida casa de campo na Grã-Bretanha que, nos mesmos dias, foi compartilhada com a empresa de automóveis Audi. Ela brinca amargamente com a organização conservacionista The Nature Conservancy, que extrai petróleo de uma reserva natural no Texas, à qual tem acesso sob a desculpa de preservar a espécie “galo Attwater da campina” (Tympanuchus cupido attwateri). Naomi Klein acredita na ecologia dos pobres e dos indígenas muito mais do que na ecologia das grandes organizações verdes.

O livro explica suas correrias com as barricadas e bloqueios contra a mineração de ouro a céu aberto na Grécia por parte da empresa canadense Eldorado; contra a fratura hidráulica de gás de xisto na Romênia pela Chevron; contra oleodutos no Canadá; nos terrenos úmidos da Luisiana para inspecionar os danos do vazamento da British Petroleum. Baseando-se nos relatórios do EJOLT e outras fontes, reconstrói a história real da proposta de deixar o petróleo no solo na região dos Ogoni no delta do Níger e na Amazônia do Equador, bem como a fundação da Oilwatch em 1995, que já combinava a resistência local contra a indústria dos combustíveis fósseis com ênfase em “combustíveis que não devem ser queimados” – combustíveis fósseis que devemos deixar na terra, pois o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera deve ser evitado.

O livro inclui viagens à devastação das areias betuminosas de Alberta, no Canadá, e a participação na resistência de “vaqueiros e índios” contra o oleoduto Keystone XL e outros meios de transporte. Neste caso, os vaqueiros e os índios estavam do mesmo lado. Narra também os êxitos dos movimentos de resistência contra o fracking na França e em outros lugares (eles se opõem por conta das emissões de metano e dos danos locais à água e a paisagens), e também da resistência à mineração de carbono sobre as montanhas.

Naomi Klein, sem dúvida, poderia ter viajado ainda mais, poderia ter visitado outras terríveis minas de carvão na Índia e na China para reforçar seu argumento da convergência potencial da resistência local e da resistência global à indústria dos combustíveis fósseis. Mas viajou o suficiente – e, enquanto escrevia este livro, tratou de ter um bebê, agora um menininho que se chama Toma. Sofreu um par de abortos involuntários; ela dedica algumas páginas a estes acontecimentos tão normais na vida de mulheres, mas que são muito duros.

É incomum que apareçam em um livro sobre a justiça climática, mas ela pensa que nós (suas centenas de milhares de leitores) queremos conhecê-la melhor como pessoa, ela quer que entendamos que a reprodução social e o cuidado é mais importante do que a produção econômica, e quer mostrar o poder da regeneração da vida, como em sua própria experiência íntima. Poderia ter citado Georges Bataille sobre as potencialidades antientrópicas da vida. Naomi Klein não é pessimista. Suas dores e trabalhos, sua obra escrita e seus documentários não são apenas para movimentos sociais atuais, mas também para nossos filhos e netos, e para o benefício da vida no planeta. Cita também o artigo 71 da Constituição do Equador sobre os Direitos da Natureza, incluída a obrigação de respeitar e restaurar os poderes regenerativos da Natureza.

O “direito a regenerar” é uma expressão-chave desse livro. Namo Klein quer contribuir com esse livro ao movimento pela justiça climática global. Não dá instruções detalhadas sobre a forma de colocar isso em prática e sobre como devemos proceder. É necessário ir a Paris em 2015? não há necessidade disso, pois já existem muitos outros movimentos ambientais de resistência em qualquer lugar que estejamos vivendo. No entanto, talvez alguns de nós também não devêssemos ir às ruas de Paris, um milhão de pessoas pacíficas, e pressionar a COP?

O movimento contra a mudança climática deve estar aberto a outros movimentos – por exemplo, o movimentos nos diferentes países que defende uma renda universal de cidadania e que questiona todo o sistema socioeconômico. O movimento deve ser tão vigoroso e exitoso como foi o movimento contra a escravidão de africanos ou o feminismo, ou ainda mais. O movimento deve ser consciente de si mesmo, colocando a mudança climática no centro, “a coisa que muda tudo”, como ela mesmo se deu conta depois de ter publicado seus dois famosos livros “Sem logo” e “A doutrina do choque”.

Se devemos ainda acompanhar as reuniões insuportáveis das COP, se a tese da dívida climática e a dívida ecológica (e agora, em um novo vocabulário, os enormes “danos e prejuízos”, loss and damage) não são aceitas pelo países ricos nas reuniões oficiais internacionais, isso é devido ao fato de o movimento ter se debilitado ou ter sido comprado.

Naomi Klein defende que o ecologismo das décadas de 1960 e 1970 foi mais forte do que nas décadas posteriores. Na América do Norte, depois de Rachel Carson, em 1962, conseguiram-se alguns êxitos legislativos e práticos, enumerados neste livro, que foram reforçados no início da década de 1980 nos EUA pelo movimento da Justiça Ambiental contra o “racismo ambiental”. Sua força se perde na era neoliberal de Ronald Reagan e, posteriormente, com Stephen Harper no Canadá, que é o país de Naomi Klein. O mercado autorregulado se transformou em um slogan político triunfante, ainda que muito debilitado depois da crise financeira e econômica de 2008. Na Europa, os mercados de crédito de carbono falharam. É hora de ter políticas mais radicais. Mas elas não virão de políticos ineficazes, como Obama, nem da ONU.

A tarefa histórica e muito urgente de diminuir as emissões de gases de efeito estufa recai sobretudo nos numerosos movimentos de base que formam redes, na força de suas batalhas frente às empresas privadas ou estatais de combustíveis fósseis, contra poços de petróleo e minas de carbono, seus polidutos e seus transportes marítimos, suas refinarias e centrais térmicas. Parem de uma vez, pelo bem da humanidade e outras espécies!

O livro tem 570 página. Contém explicações cuidadosas da química e da economia política da mudança climática, e tem 70 páginas de notas de rodapé e referências em letra pequena. É um livro muito sério e também inspirador, que deve ser lido de uma vez só (em uma noite tranquila ou em um fim de semana) para absorver toda a sua força no próprio sangue, a fim de estar pronto para a ação local. Nas últimas páginas, existe mais uma anedota, aqui resumida.

Em dezembro de 2012, “Brad Werner… abriu caminho entre a multidão de 24 mil cientistas da reunião de outono da União Geofísica Americana em São Francisco… a própria sessão de Werner…foi intitulada “A terra está f*d*da?”.. De pé, em frente a sala de conferências, o professor da Universidade da Califórnia, San Diego, continuou sua conferência por meio do modelo de computador avançado que estava usando… falou dos limites do sistema, as perturbações, a dissipação, os atrativos, as bifurcações… na teoria de sistemas complexos. Mas o resultado final foi bastante claro… Quando um jornalista pressionou Werner para uma resposta clara à pergunta “a terra está f*d*da?”, ele deixou o jargão de lado e respondeu: “Mais ou menos”. Contudo, havia um fator dinâmico no modelo, o que oferecia alguma esperança. Werner o descreveu como a “resistência”, esclarecendo que isso inclui “a ação direta dos ambientalistas, a resistência de fora da cultura dominante, como nos protestos, bloqueios e sabotagens dos povos indígenas, trabalhadores, anarquistas e outros grupos de ativistas”. É necessária essa “fricção” para deter a máquina econômica que se precipita fora de controle”.

No fim de semana de 20 de setembro, produziu-se a maior mobilização contra a mudança climática na história da humanidade – com centenas de milhares de pessoas marchando em 2.700 eventos em 156 países. Um dos manifestantes foi um promotor do distrito do condado de Bristol, Massachusetts (EE.UU.), que há poucas semanas se negou a processar ativistas que ancoraram de maneira pacífica seu pequeno barco exatamente onde um grande navio estava chegando para descarregar carvão para uma central térmica. Esse é o tipo de ação que dá esperança: ativistas do clima que tomam os assuntos em suas próprias mãos e funcionários que se arriscam. Os ativistas que bloqueiam portos de carvão fazem parte do que Naomi Klein chama “Blocagem” e é í que podemos depositar nossa esperança.

Como talvez Walter Benjamin diria, tais movimentos de resistência devem ir além do fato de exercer um pouco de “fricção”; devem pisar com força nos freios de emergência do trem que está produzindo mais e mais gases de efeito estufa. O Antropoceno é a era em que a humanidade se transformou em uma força geológica que danifica a face da terra, mas também poderia ser a época em que a humanidade, por meio de seus movimentos de resistência locais e globais, retém a mudança climática e ajuda a regenerar a diversidade e a riqueza da vida na terra.