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A picanha tem sua nobreza

por Marcio Alemão publicado 11/08/2014 09h43, última modificação 11/08/2014 10h07
Volto ao Rodeio e me encontro com a delícia de um corte tão maltratado
Flickr / Victor Bayon
Picanha

Vamos combinar que ficou fácil esbarrar com uma picanha até no meio da rua

Já falei algumas vezes sobre meu desapontamento com a churrascaria Rodeio. Hoje vai ser diferente. Acabo de comer uma picanha extraordinária. Vou além: há muito não comia uma picanha tão saborosa e delicada.

Vamos combinar que ficou fácil esbarrar em picanha até no meio da rua. Por motivos óbvios, não cabe dizer que a tal virou carne de vaca, mas virou. Hambúrguer é de picanha. Cachorro-quente já tem de picanha. Picadinho, idem. Invertida, com alho, com mostarda, com molho barbecue. Dentro do pastel, moída, é só pedir. Empadinha ainda não vi, mas eis uma ideia, meu caro Junior.

Agora, infelizmente, a que mais prolifera é a de má qualidade. Sabemos que tem boi que não vale grande coisa. Melhor dizendo, para não ofender a espécie e ser processado por algum sindicato, diria que alguns bois se prestam mais ao serviço pesado que às iluminuras. E deles também se extrai a picanha. Não só dos bovinos, diga-se. Tem picanha de porco, de cordeiro, de bode e aguardo ansiosamente a de saint-peter, de lagosta e de bacalhau.

Muito por conta de toda essa confusão e apropriação indébita de um corte nobre de um bicho ainda mais nobre, fui me desencantando e deixando a picanha de lado. Confesso que meus vencimentos também não me permitiam degustá-la lá e cá. O naco dessa carne ficou e está muito caro.

A de búfalo deu uma sumida, a maturada continua em alta. Picanha de raça ganhou prestígio: angus, black angus, wagyu. Essa última, então, vale quase o valor do resgate de uma pessoa simples, sem muitas posses.

Mas a de hoje, no Rodeio do Iguatemi, me fez lembrar quão especial é esse corte. A de hoje valeu cada centavo, até pela saudade que matou, juntamente com a fome. O suco abundante da carne com gosto de carne e, vou repetir, com a delicadeza que uma boa matéria-prima oferece. A parte triste ficou por conta do boi, quando tentei imaginar que belo animal teria sido. Ao mesmo tempo consolei-me com a certeza de que o tal teve boa vida, ainda que breve. Comeu e ruminou do bom e do melhor.

Medalha de ouro também para o churrasqueiro que a fatiou. Tal qual um escoteiro, sempre alerta, não deixou que o ponto se perdesse nenhuma vez, o que é admirável, considerando a sutileza de cada fatia. Saí feliz, muito feliz. Graças ao Rodeio, voltei a acreditar que a picanha é um corte nobre.

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