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Internacional

Opinião

O novo lugar da periferia no mundo globalizado

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 18/09/2014 13h51
Diante da crise sistêmica, da desordem mundial e da financeirização, cabe aos emergentes construir uma ordem que proteja os trabalhadores
Andrew Burton / Getty Images / AFP
Bolsa de Nova York

Operadores na bolsa de Nova York em 17 de setembro. As finanças seguem bem, mas os trabalhadores precisam de proteção

Por Marcos Costa Lima

O contexto macroeconômico mundial nos últimos trinta anos foi marcado por dez traços distintivos: i) Taxas muito baixas de crescimento do PIB, inclusive no Japão, que tradicionalmente serviu como “locomotiva” para o restante da economia mundial; ii) uma taxa de crescimento muito forte dos indicadores relativos ao valor nominal dos ativos financeiros (de acordo com a natureza dos ativos, sobre elas incide um componente fictício, mais ou menos importante); iii) A limitação e redução das políticas de bem-estar social, associada à perda de regulação pela maioria dos Estados nacionais; iv) Altos índices de desemprego estrutural nos países da OCDE, associados a formas de emprego temporárias e com baixo nível de remuneração, provocando um aumento da pobreza nesses países; v) Ampliação das desigualdades entre países ricos e pobres. Segundo o PNUD (1999), "em 1820, a renda per capita dos países mais ricos era 3 vezes maior do que os mais pobres. Em 1870, foi 7 vezes; em 1913 era 11 vezes maior e em 1960, 30 vezes mais. Em 1997, um quinto da população mundial que vivia nos países mais ricos era 74 vezes mais rica que o um quinto da população nos países mais pobres"; vi) Uma conjuntura mundial instável, entrecortada de sobressaltos monetários e financeiros, com alto nível de contágio internacional (México, 1994, Malásia,1997 e a seqüência que vai da Rússia à Argentina em 2001 e posteriormente a sub-prime em 2008); vii) Uma deflação aberta e crescente entre os países industrializados, principalmente entre os países produtores de bens primários e, finalmente viii) A marginalização de regiões inteiras do globo com relação ao sistema de comércio internacional; ix) o surgimento da China como um possível novo centro sistêmico. x) O crescimento econômico mundial sendo puxado pelos países emergentes, mas já em esgotamento.

David A.Stockman, que foi diretor do Office of Management and Budget de Ronald Reagan, afirmou no New York Times em março do ano passado que, ao longo dos últimos 13 anos, o mercado de ações caiu duas vezes provocando graves recessões. As famílias americanas perderam um trilhão de dólares na crise dot.com em 2000 e mais do que sete trilhões quando da crise subprime de 2007. Neste período o número de auxílios-refeição e os benefícios por invalidez mais que dobraram, para 59 milhões de pessoas, ou um em cada cinco americanos. Estes números assustadores crescem em relevância quando sabemos que a dívida pública dos EUA alcançou 56 trilhões de dólares no início deste ano. A questão da saúde nos EUA é um aspecto relevante da crise que vive o país. São 50 milhões de pessoas que hoje não dispõem de seguro saúde, ou seja, 1 em cada 6 pessoas, segundo Louis Gill.

No tempo em que Alan Greenspan esteve à frente do Federal Reserve (o banco central do EUA) – agosto de 1987 a janeiro de 2006 - se deu o maior equity boom do país, com o mercado de ações crescendo cinco vezes entre a crise de 1987 e aquela da dot.com em 2000.

A farra rentista terminou com  a bancarrota do grupo Lehman Brothers em setembro de 2008 e Stockman nos diz que “Washington, com a arma de Wall Street virada para sua cabeça, foi ao socorro dos protagonistas desta bagunça financeira, imprimindo dinheiro para o resgate de grandes empresas em pânico, o que segundo ele, consistiu no singular e mais vergonhoso capítulo da história financeira americana”.

O fantástico crescimento da construção civil e dos investimentos em infraestrutura na China ao longo dos últimos 15 anos vem arrefecendo. O Brasil, a Rússia, a Índia, a Turquia e a África do Sul e todas as outras nações de renda média em crescimento não podem compensar a queda da demanda.

Paul Krugman, em seu livro A consciência de um liberal, publicado no Brasil em 2010, apontava que não houvera um grande aumento da desigualdade nos Estados Unidos até a década de 1980. Para o economista, a reviravolta se deu a partir daí, quando os vencedores foram uma pequena elite de 1% no topo da distribuição de renda.

Joseph Stiglitz, em seu último livro sobre o crescimento da desigualdade de renda e da riqueza nos Estados Unidos nos últimos trinta anos, é ainda mais incisivo do que Krugman. Diz Stiglitz logo no prefácio, e em tom quase bombástico, que “existem momentos na História quando as pessoas em todo o mundo parecem levantar-se para dizer que algo está errado”. Seus dados são contundentes sobre os efeitos de políticas econômicas que geraram desigualdade de renda e riqueza nos Estados Unidos após os anos 1980; que há trinta anos atrás os 1% das maiores rendas entre os americanos recebiam apenas 12% da renda nacional e, em 2007, passaram a perceber 65% do total do ganho nacional dos rendimentos. A renda de um trabalhador masculino típico de tempo integral estagnou por mais de um terço de século.

Quando olhamos para a Europa a situação é ainda mais dramática. Segundo o Fundo Monetário Internacional, 61 países voltaram ao nível do Produto Interno Bruto de 2007, entre os quais 22 dos 27 países da União Europeia, e seis dos sete países do G7 à exceção da Alemanha. Em 10 dos 25 países da OCDE, os salários reais (corrigidos pela alta dos preços) eram inferiores em 2010 aos níveis de 2007. Havia desemprego de 24,3% na Espanha e de 21,7% na Grécia em abril de 2012 e, 51,5% para os menores de 25 anos de idade. A Alemanha conseguiu se distinguir dos demais países europeus graças a políticas de desregulamentação do mercado de trabalho e da proliferação do trabalho flexível e precário, que deram lugar aos baixos salários. Neste país o emprego a tempo integral caiu de 29,3 para 23,9 milhões entre 1991 e 2001, enquanto crescia o número de empregos a tempo parcial que aumentou de 5,7 para 12,5 milhões.

Conforme Dani Rodrik, mesmo na Europa, onde as instituições regionais são relativamente fortes, o interesse nacional e os políticos nacionais, em grande medida na pessoa da chanceler alemã, Angela Merkel, têm dominado a definição de políticas. Segundo ele, se a chanceler Merkel tivesse se mostrado menos apaixonada pela austeridade com relação aos países endividados da Europa e se tivesse conseguido convencer os seus eleitores da necessidade de uma abordagem diferente, a crise da Zona do Euro teria tido contornos bastante diferentes.

Para François Chesnais, a situação de conjunto da economia mundial é marcada pela incapacidade do “capital” (os governos, os bancos centrais, o Fundo Monetário Internacional e os centros privados de centralização e de poder do capital tomado coletivamente) de encontrar, ao menos por agora, os meios de criar uma dinâmica diferente. A crise da Zona do Euro e seus impactos sobre um sistema financeiro opaco e vulnerável é uma das expressões. Esta incapacidade não é para o economista francês sinônimo de passividade política. Ela significa simplesmente que a burguesia está se movendo cada vez mais completamente pela vontade única de preservar a dominação de classe em toda sua nudez. Portanto, esse projeto tem implicações políticas ainda mais graves para os trabalhadores, pois ele é acompanhado pelo endurecimento do caráter pró-cíclico das políticas de austeridade e de privatização, e contribui para a ocorrência de uma nova recessão, que está em marcha.

Todo o impacto desta crise refletiu diferentemente em regiões periféricas e, em especial, em algumas economias emergentes, em particular na China, Índia, Brasil e Rússia. No caso brasileiro, os aspectos mais positivos estão por conta da consolidação do processo democrático e de políticas sociais de distribuição, com respostas positivas na educação, na saúde e no consumo alimentar das camadas populares, mas que não são suficientes para estruturar um novo padrão de desenvolvimento alternativo para o país. Há que seguir avançando, seja no Mercosul, na Unasul ou na Celac. A estruturação e consolidação dos BRICS e do Novo Banco de Desenvolvimento são demonstrações inequívocas de que precisamos construir uma outra ordem sistêmica em novas bases que atendam, sobretudo, aos anseios da maioria dos trabalhadores.

*Marcos Costa Lima é professor do Departamento de Ciência Política da UFPE, doutor pela Unicamp e pós-doutorado pela Université Paris XIII. Graduado em Filosofia Política pela Université Paul Valéry- França.

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