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Internacional

Análise

O Banco dos BRICS e as novas agendas

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 16/07/2015 13h49
Instituição pode liderar o surgimento de uma nova ordem que incluirá agendas inovadoras, como a participação da juventude na sociedade
Roberto Stuckert Filho / PR
Dilma Rousseff e BRICS

Dilma com os outros líderes dos BRICS, em Ufá, na Rússia

Por Fernando Pacheco 

No marco das atividades que antecederam a reunião de chefes de estado dos BRICS, entrou em operação no último 3 de julho o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), instituição financeira cuja criação foi aprovada na cúpula de Fortaleza, em 2014.

Sua missão é a de financiar projetos de desenvolvimento sustentável e infraestrutura, dentro de uma lógica de girar as economias emergentes para o crescimento com distribuição de renda. Junto à fundação do banco, consolidou-se o Arranjo Contingente de Reservas (ACR), uma espécie de "FMI do bem", que não só aponta para um cenário de maior estabilidade monetária dos países do grupo, como também recoloca na ordem do dia a discussão sobre a transição do centro gravitacional do mercado cambial, o que inclui a permanência do dólar como moeda de reserva internacional. 

O Banco dos BRICS pode ser uma semente de um novo mundo que emergirá ao sairmos da crise. Em meio a povos e nações soterradas pela ideologia da austeridade, pelo poder tecnocrático de instituições não-eletivas e megacorporações multinacionais, uma nova instituição de financiamento e fomento ao crescimento econômico serve de acalanto para outros modelos de desenvolvimento, em maior consonância com as urnas e lutas democráticas por justiça social e desenvolvimento. 

O NDB e o ACR, enfim, elevam o caráter estratégico da pauta econômica dos BRICS. É avanço que se potencializará ainda mais se a eles se somar a agência de classificação de risco dos BRICS, que constituiria em uma efetiva semente antineoliberal, por desconstruir quatro pilares essenciais do Sistema de Bretton Woods (quais sejam FMI, Banco Mundial, Agências de Risco e hegemonia do dólar), contrapondo-se à hegemonia norte-americana e europeia do pós-Segunda Guerra Mundial.

A evolução da pauta econômica permite a abertura de novas avenidas de cooperação que renovam os desafios que devem ser enfrentados concomitantemente ao crescente sucesso destas novas instituições. 

O agrupamento que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul passou do mero acrônimo à alternativa econômica concreta. Abrem-se, então, oportunidades para construir as pautas que engendrarão esta Nova Ordem por completo.

Assim é que a sétima cúpula dos BRICS, na cidade russa de Ufá, foi antecedida pela Cúpula de Juventude dos BRICS, Primeira Reunião de Ministros e Altas Autoridades de Juventude do bloco, no dia 6 de julho, em Cazã, capital da República do Tartaristão, também na Rússia. Não foi apenas o primeiro diálogo governamental em alto nível sobre temas juvenis, mas uma das primeiras iniciativas fora dos marcos puramente econômicos. 

A Cúpula de Juventude dos BRICSs foi realizada entre os dias 3 e 5 de julho e teve caráter de atividade da sociedade civil. Reuniram-se cerca de 300 jovens dos cinco países para elaborar um primeiro documento delineando a visão da juventude sobre a agenda estratégica do grupo.

No fórum, as discussões se dividiram entre as esferas política, econômica, de cooperação humanitária, ciência e tecnologia, e tecnologia da informação e mídia de massa. São temas que transcendem os marcos mais restritos das temáticas juvenis e criam um campo no qual a juventude pode projetar o futuro estratégico do bloco. 

No marco da Reunião de Ministros e Altas Autoridades de Juventude dos BRICS foi firmado memorando de entendimento e cooperação sobre temas de juventude pela Federação da Juventude da China, do Ministério de Juventude e Esportes da Índia, da Agência de Assuntos de Juventude da Federação Russa, da Agência Nacional para desenvolvimento da juventude da África do Sul e pela Secretaria Nacional de Juventude do governo brasileiro. 

O documento definiu cinco campos de cooperação: intercâmbios juvenis internacionais, trocas de experiências e informação sobre implantação de políticas públicas de juventude, empreendedorismo e inovação, atividades de pesquisa e atividades de cooperação juvenil; e criou a Reunião de Ministros e Chefes de Órgãos Executivos de Juventude, a ser realizada a cada dois anos, assim como a reunião técnica sobre juventude do grupo, a ser realizada anualmente. 

Que este exemplo se prolifere para os temas dos direitos humanos, segurança alimentar, energia, defesa, educação, saúde, infraestrutura, cultura, trabalho, participação social, entre outros, avançando, inclusive para uma coordenação melhor dos partidos políticos que governam os BRICS.

Há que se reconhecer que tais ambições ainda têm um longo caminho a ser percorrido. A pactuação estratégica em temas econômicos é apenas o primeiro de muitos passos a serem tomados pelo grupo. Trata-se de conjuntos de países cujas assimetrias nos campos social, cultural e institucional são tão grandes quanto suas populações e territórios, e que individualmente possuem identidades e culturas fortes e distintas entre si.

A magnitude do desafio de se construir uma pauta sobre desenvolvimento mais transversal em tal contexto, no entanto, é compatível com os benefícios que a agenda de cooperação e integração pode desencadear.

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul juntos correspondem 40% da população mundial, 25% do território, 20% do PIB, e 43% das reservas monetárias em moeda estrangeira. Segundo as projeções, suas economias, somadas, ultrapassarão a soma do G7 em menos de duas décadas. Cooperações e iniciativas neste contexto podem potencialmente transformar concretamente a agenda de desenvolvimento do globo. 

Mais que isso, é sempre presente e desejável manter a ambição de envolver as nações das regiões em que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se situam e lideram processos de integração regional, como o nosso caso da América Latina, como é, aliás, a intenção do NDB e ACR.

E que estes novos instrumentos da Nova Ordem Mundial possam financiar este rol de temas da esperança supracitados, rumo a um mundo sustentável, pacífico, desenvolvido, justo, onde caibam todos os mundos. 

Fernando Pacheco, 29 anos, é economista, assessor de relações internacionais da Secretaria Nacional de Juventude e membro do GR-RI.