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Política

O ano em que nos tornamos “bolivarianos”

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 06/11/2014 16h37, última modificação 10/11/2014 06h15
Os governos progressistas da América do Sul são resultado de lutas sociais contra a crise neoliberal dos anos 90, e compartilham a redução da pobreza. Hoje, apresentam dilemas políticos decisivos
George Vale / Flickr / Creative Commons

Por Josué Medeiros

Eleições geram não somente vencedores e perdedores. Das urnas emergem também agendas e projetos. O voto, por mais importante que seja, é um dos momentos da cidadania, e a síntese produzida pelo sufrágio não encerra os conflitos sociais. Da escolha dos governantes/representantes, nasce uma nova dinâmica de contradições, debates, de ruas e de luta. Esse processo é a própria essência da democracia, e por isso a vitória de Dilma Rousseff abre um novo tempo de possibilidades. A disputa acirrada, com alta polarização dos dois lados, terminou com a derrota da cruzada conservadora diante da intensa mobilização progressista. A vitória mais programaticamente à esquerda desde 2002 nos aproxima das demais dinâmicas políticas sul-americanas, em que a mobilização popular produziu conjunturas quentes e invenções democráticas importantes.

Os derrotados nas eleições também identificam semelhanças entre a conjuntura brasileira e a situação política dos nossos vizinhos, denunciando a radicalização e a “divisão” do País em pobres e ricos. É a “Venezuelização” do Brasil, termo que deixa evidente a arrogância e os preconceitos das classes dominantes, menosprezando, bem ao estilo “Casa Grande”, as experiências populares sul-americanas. Os mais sofisticados conceituam o “bolivarianismo” brasileiro, combinação de aparelhamento do Estado com clientelismo, os pobres (menos instruídos segundo o sociólogo ex-presidente) capturados pelos programas sociais e pela democracia participativa. Por mais elaborado que seja o argumento, não esconde a demofobia estrutural das nossas elites, ignorando o sentido estratégico da Constituição de 1988 enquanto organizadora da prática cidadã e da cultura de direitos no Brasil e que autoriza tanto as políticas sociais quanto o aprofundamento da democracia.

Vamos contrapor a esse autoritarismo uma narrativa democrática sobre o virtuoso processo sul-americano, sem deixar de encarar de frente as contradições. Os governos progressistas são resultado das lutas sociais contra a crise neoliberal nos anos 1990. Em comum, apresentam uma vigorosa redução da pobreza. A ONU registrava 190 milhões de pobres na América Latina (41,7% da população) em 2000 e 133 milhões hoje, ou 25% da população. Conquistamos marcos civilizatórios significativos: o fim do analfabetismo na Bolívia e na Venezuela e a saída do Brasil do Mapa da Fome. Outras dimensões estão presentes, porém são desiguais entre os países. Fortalecimento do Estado, integração regional, processos constituintes que aprofundam a democracia, dinâmicas de regulação do capital, geração de emprego e aumento salarial, expansão de direitos (saúde, educação).

Hoje essas experiências apresentam dilemas políticos e estruturais decisivos. A crise internacional aumenta o poder de chantagem do capital. Ademais, a principal contradição está na própria virtude da ascensão social. Esta se dá em meio ao império do consumo. Todos querem ter o último celular, o carro próprio. Sonham e trabalham muito (12, 14 horas!) para isso. Não aceitam ser excluídos novamente. Esse pobre que ascendeu consumidor converte-se eleitor. Não dará a maioria para quem não garantir a continuidade dessas conquistas. As vitórias eleitorais apertadas no Brasil, na Venezuela e no Uruguai são expressão de uma dúvida quanto à capacidade das esquerdas de manter o rumo.

Do pessimismo da razão ao otimismo da vontade: avançar com as novas energias sociais

As mudanças recentes na região são também potencialidades extraordinárias. Os setores ascendentes se tornam atores políticos novos. As periferias estão plenas de novas manifestações culturais, novas formas de associativismo. As classes médias não são apenas “reacionárias”. Frações significativas dos estratos médios são progressistas, defendem e partilham os valores de esquerda, e ajudaram na produção dos símbolos mais caros da identidade latino-americana.

Ambos partilham a dura experiência de vida nas cidades, uma vivência comum que gera não só violência e competição, mas também solidariedades e alianças entre as classes subalternas. Daí brotam as energias das lutas sociais recentes. As mobilizações juvenis no Chile contra a mercantilização da educação produzem uma Bachelet renovada em um reformismo forte. No Uruguai, o caldo de cultura progressista alimenta e se alimenta da prática socialista de Mujica.

De junho disruptivo à vitória em 2014

Essas energias transbordam e explodem também no Brasil. As jornadas de junho de 2013 mesmo com todas as ambiguidades, mesmo com a presença da direita, mesmo com tentativa de captura por parte das elites guinaram a agenda do governo Dilma para a esquerda depois dos milhões de jovens nas ruas. Nem o programa que levou médicos cubanos às periferias nem o Marco Civil, a legislação sobre internet mais avançada do mundo, seriam aprovados em uma conjuntura fria.

Não é possível dissociar a própria reeleição da presidenta dessa nova dinâmica de mobilização. A negação da política não prevaleceu, a abstenção eleitoral não explodiu. Pelo contrário, o que se viu foi uma mobilização em torno do processo eleitoral que lembrou a disputa de 1989.

O que vivenciamos no segundo turno foi a reativação de uma sociedade petista em sentido mais amplo. Militantes antigos do partido, afastados e/ou acomodados, se juntaram a uma nova juventude que se identifica com os avanços dos governos sem abrir mão de criticar as contradições. Repactuações de antigos companheiros foram produzidas, com a militância do PSOL (partido que é cisão à esquerda do PT) engajada em impedir a volta do neoliberalismo.

Foram todos juntos “petralhar” nas ruas e redes sociais, combatendo o ódio antipetista e reafirmando a vitalidade dos valores de esquerda.

O desafio é manter essa energia ativa e mobilizada para fazer as causas progressistas avançarem. A direita reagiu derrubando o decreto presidencial que regulamenta a participação social. As contradições do governo se mantém como um desafio. Por exemplo, o ministério será, necessariamente, ambíguo e contraditório e não é possível fazer luta contornando as instituições.

Felizmente, o programa político para manter a mobilização esteve presente tanto nas eleições quanto nas jornadas de junho: não ao ajuste neoliberal, saúde e educação para todos e todas, direitos civis plenos, potencialização das práticas culturais inovadoras. E ainda o combate ao genocídio da juventude negra, morta diariamente pelo próprio Estado na figura sinistra das polícias militares, combate que mobiliza os pobres que ascendem e a classe média progressista e que se articula com o tema do direito à cidade.

Essa plataforma vem das lutas concretas, e por isso tem o potencial de manter viva a mobilização, unificando os diferentes atores sociais, das novas formas de associativismo aos movimentos sociais clássicos. Podemos com isso organizar uma ampla frente de esquerda que reúna o ativismo social independente e os partidos de esquerda nas batalhas que se anunciam para 2015 no parlamento e no próximo embate eleitoral de 2016, quando teremos uma grande oportunidade de avançar à esquerda nas duas principais cidades brasileiras. Em São Paulo, com a reeleição Fernando Haddad, do PT, cuja gestão vem impressionando justamente pela capacidade de se abrir para as dinâmicas mobilizadoras do ativismo paulistano. E no Rio de Janeiro, com Marcelo Freixo, do PSOL, cuja luta pelos direitos humanos canaliza todas as energias da cidadania carioca.

Em suma, da vitória de 2014 extrair as forças para novas conquistas progressistas que ajudem a esquerda sul-americana a encontrar seus caminhos rumo a um futuro de justiça social e democracia, com ampliação de direitos e aprofundamento da cidadania, para desespero daqueles que tanto prezam seus privilégios e tanto temem a participação popular.

* Josué Medeiros é professor de Ciência Política e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.