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Internacional

Análise

A faceta externa do novo governo argentino

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 03/12/2015 04h21
Susana Malcorra, apontada por Macri como ministra do Exterior, deve liderar o “reaparecimento” da Argentina no plano internacional
Amanda Voisard / UN Photo
Susana Malcorra

Susana Malcorra na ONU: sua presença no governo argentino deve fazer com que o país amplie a oferta de tropas a missões internacionais

Por Monica Hirst

O momento na Argentina é de expectativa de que haverá mudanças expressivas em suas frentes interna e externa. As sinalizações emitidas pelo presidente eleito, Mauricio Macri, e sua equipe são de que se buscará colocar o país num trilho de resultados, mais do que de ideais.

Não se escuta por parte dos futuros governantes nomes de autores, pensadores, próceres ou exemplos de figuras nacionais ou internacionais identificados como fontes inspiradoras. Este fato não significa uma ausência de conteúdo, sentido estratégico e estilo de pensar. Os termos gestão, critério, eficiência, objetivos, impacto e imagem estão presentes em todas as manifestações daqueles que estão por assumir as rédeas do controle da máquina do Estado e das decisões a serem implementadas nos próximos quatro anos. 

Ainda que este seja o período constitucional do qual se dispõe, a mensagem transmitida é de que a noção de tempo com a qual se pretende trabalhar será de sentido imediato, algo totalmente condizente com uma lógica empresarial.

Ainda no plano das generalizações, vale reconhecer alguns cuidados com respeito a políticas do governo que entrega o poder no dia 10 de dezembro. A primeira se refere ao tema dos direitos humanos, justiça e memória e a segunda ao de ciência e tecnologia, esta refletida no único caso em que se manteve o mesmo ministro da gestão de Cristina Kirchner.

O reflexo da marca Macri na política externa foi instantâneo, com a escolha de quem assumirá o comando do Palácio San Martin. Rapidamente foi dissipada a expectativa de que haveria um retorno aos anos 90, devolvendo-se este comando às mãos de personagens que haviam ocupado lugares-chave na execução da política internacional de Carlos Menem.

A preocupação transmitida parece ser mais de que o país faça o seu “reaparecimento” no plano internacional maximizando sua conexão com toda a comunidade internacional, mostrando uma faceta funcional e prestativa nos espaços da governança global. A intenção é que a Argentina seja parte ativa de uma engrenagem mundial que atue em nome de uma cooperação global.

A pessoa de Susana Malcorra será crucial para assegurar que esta intenção seja crível e não apenas uma vaidade oportunista do país que representa. Sua experiência no círculo íntimo de poder da ONU lhe outorga capacidade de chegada imediata às lideranças mundiais, sejam do Norte ou do Sul. Malcorra vem atuando como chefe de gabinete do secretário-geral da ONU desde 2012. Guardadas todas as diferenças, desde uma visão brasileira, poderia-se dizer que é como se o Sérgio Vieira de Mello assumisse o comando do Itamaraty.

A nova chanceler fala uma língua global e será de grande utilidade para o governo Macri. Sua presença fará com que a chama do multilateralismo se reacenda vigorosamente no Ministério das Relações Exteriores. Trata-se de uma vertente com forte tradição na história da política internacional argentina, um campo de expertise diplomática de larga data.

Nos anos 90, a adesão bem comportada do país à cadeia de regimes internacionais de segurança (Opac, TNP, MTCR) atualizou este legado. Nos tempos atuais é de se esperar que a conexão entre as boas práticas em direitos humanos, aprofundadas nos anos recentes, e o lugar deste tema na agenda do internacionalismo liberal facilitará o caminho a ser rapidamente percorrido.

O mesmo pode ser dito no que se refere à atuação do país em operações de paz conduzidas pelas Nações Unidas. A retirada das tropas argentinas do Haiti, antecipada em grande medida por uma discordância frente aos procedimentos “inovadores” nesta e em outras missões da ONU, provavelmente será seguida por novos envios, principalmente para cenários africanos. A biografia da nova chanceler, que foi chefe da seção de Operações de Paz, fortalece esta hipótese.

Nesta mesma linha pode-se prever que a Argentina abraçará a bandeira da Cooperação Global para a Paz e o Desenvolvimento brandida pelas Nações Unidas, com imediata incidência em suas posturas nas grandes conferências e órgãos pertinentes em temas de direitos humanos, meio ambiente e não-proliferação nuclear. Serão reabertas as portas da cooperação a ser recebida e buscadas oportunidades trilaterais para robustecer a cooperação oferecida. Seguindo a mesma lógica deverá dar-se uma rápida internacionalização do Estado argentino, semelhante à que se observou no Brasil na virada do milênio.

Mas a política externa irá além do multilateralismo. Algumas relações bilaterais com potências ocidentais merecerão atenção imediata, a começar pelos Estados Unidos. Contudo, a intenção de que seja armada uma agenda positiva com Washington não significa um alinhamento automático no estilo de Menem. É de se esperar uma etapa de diálogo construtivo dos dois lados. As diferenças entre as implicações de um vínculo com Obama e o que ocorreu durante os anos da administração Bush contribuem para suavizar o sentido ideológico desta reaproximação.

Esta começará pelo caminho dos interesses econômicos, mais precisamente por uma negociação com os holdouts de títulos da dívida argentina – que apertaram suas pressões desde o momento em que Macri ganhou as eleições. As convergências em temas de segurança, já anunciadas no primeiro contato telefônico entre os presidentes dos dois países, serão um tema medular que provavelmente se expressará na próxima Reunião de Cúpula Hemisférica, prevista para abril de 2016. As agendas bilaterais também serão regadas na frente europeia, começando com a Espanha de Rajoy.

A dimensão regional é a menos elaborada da agenda Macri; corresponde ainda a uma tosca reação ideológica às alianças construídas pelo governo Kirchner. Para tanto, busca-se preservar um espaço para a diplomacia presidencial, com anúncios e gestos pessoais.

O primeiro foi de contundente crítica ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela, com a ideia de que se poderia instrumentalizar o Mercosul para transformar sua visão em medida de sanção sub-regional. A negativa dos demais sócios do bloco obrigará uma rápida revisão e atualização de visão de mundo.

Nem a OEA questiona a condição de membro de países que não seguem à risca a cartilha de Estado de Direito. Ademais, a pressão internacional/regional enfrentada pelo atual governo venezuelano contribuirá para diluir o efeito do erro de cálculo cometido.

Outrossim, pode-se prever que a falha seja compensada com a frenética defesa de uma agenda de negociações econômico-comerciais que acelerem a articulação do Mercosul com a Aliança do Pacífico e a União Europeia.

No plano bilateral as relações com o Brasil, Chile e Colômbia ocuparão lugar prioritário no âmbito regional. O momento brasileiro tornará difícil colocar o vínculo num patamar diferenciado, como se gostaria. O artigo assinado pela presidente Dilma Rousseff, publicado na imprensa argentina no início desta semana, sinaliza a importância para o Brasil de que este destaque seja preservado. Ainda no âmbito do Mercosul, a recuperação de um fluido diálogo com o Uruguai também está na lista de Macri.

Se bem que o que se observa até o momento seja a configuração de uma agenda e não de um projeto de política exterior, é cristalina a intenção do futuro governo argentino de atuar no plano internacional desde uma plataforma ambiciosa.

Pretende-se maximizar a projeção externa do conjunto de medidas energizantes a serem implementadas internamente “todos os dias” a partir de 11 de dezembro. Almeja-se uma rápida mudança de imagem no mundo, e o que mais preocupa, do interesse pelo país. Tornar-se atraente e confiável corresponde a um dos leitmotiv do novo governo argentino. Dito de outra forma, que a Argentina seja, no menor prazo possível, um bom negócio para os dentro e o de fora. 

 

*Monica Hirst é professora titular do Departamento de Economia e Administração na Universidad Nacional de Quilmes e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

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