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Política

Velhos & velhos

por Edgard Catoira — publicado 26/11/2013 17h10, última modificação 26/11/2013 17h27
Ainda bem que sou parte de uma maioria que vive no melhor cenário do mundo

Um amigo costuma dizer que Copacabana tem “muito de tudo”. É verdade. Velhos, então, nem se diga.

As estatísticas mostram, aliás, que Copa é o bairro que tem o maior índice de idosos do Rio de Janeiro. E a gente pode constatar que isso é verdade, apenas caminhando pelas ruas. Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, principalmente no trecho entre Siqueira Campos e Constante Ramos, a terceira idade reina. Nessa área, o conselho – de um também velho como eu – é nunca entrar em filas reservadas a eles em bancos ou lojas. Se houver mais de um na fila, é preferível entrar na normal. O idoso, em geral ciente de suas dificuldades, é lento. Verifica tudo, discute, confere. E, na hora de usar o cartão de crédito, digita como se estivesse numa velha máquina de escrever. Tecla lento, põe toda sua força em cada número que digita. Assim mesmo, muitas vezes erra. Mesmo a loira que, se na rua você trata como uma senhora se ofende, diante do caixa, usufrui das vantagens de ter idade. E confirma tudo se enganando no teclado, insistindo em guardar o cartão na bolsa para então pegar sua compra e sair. Claro que o próximo da fila, já mal humorado, vai repetir todo o mesmo ritual.

No metrô, o idoso também usufrui das benesses da idade, em geral sem ser percebido. Apenas “cola” seu cartão de gratuidade no local indicado na catraca, vê a luz verde e passa. O mesmo já não acontece em ônibus. Nessa hora é essencial ter jovens no ponto. Ou o motorista não para só para um velho. Para passar na catraca, diante de um cobrador que sequer o cumprimenta, também mais um constrangimento: encosta o cartão até que numa tela apareça o aviso de “gratuidade para idoso”. O cobrador, com olhar sisudo, concede destravar a catraca para o passageiro.

Na Avenida Atlântica, é uma festa. Muitos se reúnem com seus amigos nas esquinas. Os que podem, conversam. Outros ficam calados, enquanto seus acompanhantes contam as últimas dificuldades da vida, como foi a noitada de ontem.

Muitos caminham. Correm. Nesta hora, então, esquecem o senso do ridículo, circulando em trajes esportivos confeccionados para atletas com idades bem inferiores. Fazem parte do belíssimo cenário desta praia maravilhosa.

Observando essa gente na rua, fico me lembrando de minha tia Marina que, aos 90 anos, uma vez me disse que era muito chato ser velho. Como estava em perfeito estado de saúde e mentalmente era ainda jovem, comentei que ela estava reclamando de barriga cheia. Ela, segura de si, retrucou que não era bem assim. Suas amigas e primas já tinham morrido. Todas. Por isso, se sentia só. Quanto a seus sobrinhos, que sempre cultivaram sua inteligência, ela achava que apenas a suportavam, porque a conversa de velho, seu interesses, tudo, enfim, era outra coisa.

Claro que concordei. Até por isso cultivo muito os poucos velhos amigos – e amigos velhos – que me restaram. Ou me aproximo cada vez mais de minhas irmãs, meus primos. Realmente, melhor que os mais jovens, eles sabem o que sentimos, como somos. Entendem até as ranhetices comuns a todos os que estão na “melhor idade” – ainda capo quem inventou esse termo.

Um outro tio, Francisco, com ar professoral dizia, do alto de seus oitenta e tantos anos: “um jovem pode morrer, mas um velho deve morrer”. Até hoje – ou mais hoje do que nunca – isolo com três batidas na madeira. Sou um velho de Copacabana, ranheta, atrapalhado, chato, muitas vezes resmungão. Mas quero meu calçadão para caminhar, meu choppe para beber, meus amigos para trocar ideias. Sempre ao lado da mulher que sempre amei.

Assim, os famosos velhinhos de Copacabana vão vivendo, fazendo pilates e até frequentando academias de ginástica, implicando com tudo, mas cultivando seus amigos.Passam os dias e a gente continua a rotina neste velho bairro querido. Rosnando, mas livres e felizes.

Em tempo: obrigado, jovem Fernanda Montenegro, espírito vivo de que idade não é documento na hora de ser brilhante. Qualquer prêmio é pouco para esta atriz.