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Política

Senta que o leão é manso. Mansinho

por Edgard Catoira — publicado 09/08/2013 12h10, última modificação 09/08/2013 15h53
O governador Sérgio Cabral está provando que manifestações de rua contra ele não foram um equívoco popular. Por Edgard Catoira
Tomaz Silva / ABr
Manifestação do Rio

Manifestantes ocuparam o plenário da Câmara de Vereadores do Rio na manhã desta sexta-feira 9. A CPI dos Ônibus da Câmara de Vereadores do Rio teve sua primeira reunião

Esta semana o Rio começou aparentemente bem. O governador Sérgio Cabral anunciou que voltou atrás e que não vai mais mandar demolir o histórico – e precioso bem arquitetônico da cidade – Quartel General da Polícia Militar, no Centro do Rio.

Instalado junto à Cinelândia, o terreno de 13,5 mil metros quadrados não será mais usado para aumentar a ganância das empreiteiras de construir numa das mais valorizadas áreas do Rio de Janeiro, alvo da insaciável especulação imobiliária.

Depois de mais de um ano de protestos contra a inabalável decisão, no mesmo tom de bebê chorão que vem adotando há quase duas semanas, Cabral atendeu a reivindicação de associações de classe, de moradores, historiadores e da própria PM, contrariando – e isso também é novidade – os interesses de construtoras, cujos donos possuem jatinhos sempre disponíveis ao governador para passeios de lazer dentro ou fora do país.

Essa decisão vem seguida de outras, todas controversas, que geraram ondas de protesto no Rio, como a suspensão das demolições do Parque Aquático Júlio Delamare, o Estádio Célio de Barros, o Museu do Índio e a Escola Municipal Friedenreich, imóveis que formam o complexo do Maracanã, cujos contratos com empresas ficaram em aberto.

Parlamentares municipais, estaduais e federais de oposição não poderão ir mais acusar o governador em suas respectivas casas legislativas, como fizeram nos últimos meses os vereadores Eliomar Coelho, Paulo Pinheiro, Cesar Maia; o deputado estadual Marcelo Freixo e, no Congresso Nacional, Alessandro Molon, Anthony Garotinho, para citar apenas alguns de diferentes partidos.

Até surgirem os movimentos de rua, o governador se mostrava um ditador implacável. Não ouvia os protestos, não se importava com audiências públicas. Sua palavra sempre foi a última, definitiva, ditatorial.

Agora estamos nos deparando com um chefe do Executivo fluminense que decidiu ouvir o povão. Abriu mão até dos helicópteros do Estado, que o conduzia até para os descansos de fim de semana com a família na sua mansão de Mangaratiba, praia nobre dos ricos e famosos do Rio. Aliás, não se sabe como está sendo feito este deslocamento agora.

Com humildade, Cabral se desculpa publicamente e vai recuando em suas tradicionais decisões despóticas. Seguramente vai acertar tudo para que os empreiteiros não saiam perdendo, principalmente no Complexo do Maracanã. Como os empresários são íntimos do governador, não reagirão publicamente. Mas, nos bastidores, com certeza, farão bons acordos com o Estado. As compensações virão em doses homeopáticas e mais seguras.

Em alguns negócios, porém, as ordens do antigo ‘imperador’ não terão como ser evitadas, como a “tripa” que é a planta do metrô do Centro até a Barra. Nisso, Cabral não tem mais como voltar atrás. As obras já estão adiantadas, o que continua sendo péssimo para a população.

O parceiro Eduardo Paes, prefeito unha-e-carne de Cabral, continua calado, observando os protestos focados principalmente para o governador. Ou omisso, como sempre esteve nos últimos anos.

Enfim, o povo falou mais alto nas ruas. Ou o governo sente a proximidade das eleições, a ponto de Cabral, no fim da semana, mandar anistiar os mesmos PMs e bombeiros que ele chamara de baderneiros.

Conclusão – ou moral da história? – o leão não é manso. O povo, agora, sabe disso e continua protestando nas casas legislativas do Rio. A verdade é que, mesmo em pele de cordeiro, a rejeição ao poder executivo do Rio só se restabelecerá, se é que algum dia isso vá acontecer, dentro de um futuro nada próximo. Quem votar em 2014, verá.