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Política

O povo, desolado, pede socorro

Rio, lindo só como cenário

por Edgard Catoira — publicado 25/02/2014 18h23

Um leitor do blog, outro dia, depois de ler um texto em que eu falava bem do Rio, comentou, com fina ironia, sobre as espumas marrons que ele encontrou no mar, quando esteve por aqui. Afinal, eu tinha lido – e acreditado, já que foi a grande imprensa que publicou – que o fenômeno era causado por muitas algas que surgiram por fatores climáticos, já que o tempo anda muito quente por aqui, tanto no meio ambiente quanto na sociedade carioca.

Murilo Rocha, macaco velho do jornalismo nacional, escreveu o texto que transcrevo, por concordar plenamente com ele:

“Quando as palavras não conseguem mais convencer ninguém, resta ao homem público promover ações práticas, que restabeleçam a crença dos governados em sua honestidade de propósitos. Nessa área, de possibilidades inesgotáveis, é impossível não pensar, de imediato, nos nomes de Wagner Victer, presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos, a Cedae; ou Carlos Minc, que acaba de deixar uma das inúmeras "boquinhas" ambientais municipais, estaduais e federais que vinha acumulando há dezenas de anos.

A questão é essa malcheirosa espuma marrom-amarelada que, volta e meia, aparece nas praias da cidade e causa vergonha e constrangimento a todos os cidadãos. Na verdade, a quase todos. Victer e Minc jamais se abalam e, pessoalmente ou através de porta-vozes, insistem em dizer que se trata de um fenômeno natural, que não oferece risco à saúde dos banhistas. Ótimo, mas você acredita nisso? Claro que não. Aí, entramos na tese que passo a defender.

Os nossos bravos servidores públicos, conscientes do ceticismo com que suas declarações são encaradas, poderiam perfeitamente passar das palavras à ação. Acompanhados por toda a imprensa, previamente convocada por eles próprios, que cultivam uma ampla lista de amigos em jornais, rádios e televisões, deveriam promover um definitivo basta nos incréus, vestindo um sungão e mergulhando nas áreas onde a espuma estivesse mais densa.

Saídos das águas, qual Iemanjás de gabinete, exibiriam um amplo sorriso, que disfarçaria a quase irreprimível expressão de nojo e declarariam, cercados de câmaras e microfones: ‘Voilà, a água está ótima!’. E, rapidamente, disparariam em seus carros oficiais rumo ao gabinete médico mais próximo, para uma rigorosa desinfecção, porque político é duro na queda, mas não é de ferro. E o tempo se encarregaria de provar que não era bravata, mas um modo claro de convencer os desconfiados eleitores/contribuintes.”
Só que, como aconteceu em Búzios, quando turistas estrangeiros passaram mal, o enganado nadador é que foi vítima de algo que comeu por aí.

Tem muita gente que ignora tudo isso, o que não está acontecendo com o já desconfiado pessoal que participará das provas náuticas das Olimpíadas e começou a emitir sinais de alerta sobre não apenas a suspeitíssima qualidade da água, mas também sobre as ilhas de sujeira flutuante que ameaçam fazer naufragar suas embarcações. A propósito, nem precisam enviar equipes médico-sanitárias para avaliações. Basta sair do Galeão e contemplar as margens do aeroporto e da Linha Vermelha.

Da água à violência

O Rio vive um momento de total silêncio das autoridades, o que parece uma senha para a desordem social . As tensões urbanas se intensificam.

Não são mais os protestos pelos 20 centavos. Ou o encontro do acerto de contas, na definição de milicianos, policiais e criminosos, que invariavelmente se transformam em confrontos. Tem sido assim do subúrbio as zonas Sul, Norte, Oeste, Centro e no interior .

Como no caso ambiental, o conflito evidente é praticamente ignorado, ou silenciado pelas autoridades. Conflitos estão acontecendo, nos últimos dias nos bairros de Lins de Vasconcelos, Engenho Novo, Vila Kennedy, Rocinha, Praça Seca. Enquanto a maioria discute de quem é a culpa, ignora que podemos ser as próximas vítimas. Em todos os sentidos: assalto, bala perdida, assassinato, até ser executado por ser parecido com alguém procurado por essas gangues.

Hoje um grande amigo – cujo nome não cito por questão de segurança de sua família – conversando comigo, denunciou um caso que está acontecendo: um parente próximo, de 16 anos, foi pego por um policial com arma e droga. Por ser conhecido do pai do garoto, livrou a cara do menino, mas encaminhou o caso ao pai.

Ele, inclusive, avisou a esse pai que seu filho esta marcado para morrer.

Situações como essa, ou de chantagem da gangue envolvida, acontece em grande quantidade, agora principalmente nos locais onde vivem famílias das classes médias, que ignoram a vida de seus filhos porque eles convivem com amigos dos bairros, ou condomínios, onde vivem.

Esse meu amigo, revoltado, se queixa: “ao procurar ajuda você constata que se o jovem for menor a situação é ainda mais complexa, porque não existem instituições que deem proteção aos que querem tentar refazer a vida. E aos maiores, em nossa decadente instituição de recuperação, os tais presídios, não oferecem soluções e sim, revolta num ambiente de doutorado no crime. Apesar do clima festivo da cidade maravilhosa, milhares de famílias de todas as classes sociais estão neste momento negociando a sobrevivência . Sob a suspeita ausência do poder publico."

Conversei, então, com outro velho amigo que conhece bem a região da Praça Seca, na Zona Oeste da cidade. Ele conta que na região existe um crime de varejo, onde garotos são cooptados pela quadrilha do PCC.  E, em Favelas como a Chacrinha e Mato Alto estão nas mãos destes garotos sem lideranças no tráfico, mas com armamento pesado. Na região, vivem os policiais militares do 9º Batalhão que estão na ativa e ex-policiais que montaram uma enorme milícia. Todos disputam o mesmo território onde foram criados. Tráfico, milícia e PMs. Todos se conhecem.

Ele conta que um miliciano, ex PM, procurou um parente seu com a informação de que nos próximos dias acontecerá um banho de sangue naquela área. E chegaram a pedir foto de um parente dele, também envolvido com drogas, para ele ser poupado.

Esse “banho de sangue” foi confirmado por um PM amigo dele, pertencente à cúpula da corporação mas, oficialmente , nada é confirmado para a imprensa, que já sabe dessa movimentação.

Mais uma vez estou aqui denunciando o que acontece ao povo que vive no Rio. Espero que não aconteça como quando, cerca de um mês atrás denunciei os assaltos a ônibus que vão do Centro para a Zona Oeste e que autoridades fingiam não saber. Dias depois – e aí sim, a imprensa noticiou – houve um assalto com morte nessa linha.

As eleições estão aí e os acordos com políticos e bandidos continuam sendo arrematados. E nós votaremos aos mesmos perfis que hoje reprovamos. Mas, antes, temos carnaval e depois a Copa.

E eu peço socorro aos céus, porque na terra, neste momento, nada pode ser feito.