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Política

Rio de Janeiro

O Rio que odeio

por Edgard Catoira — publicado 13/02/2014 12h09, última modificação 13/02/2014 12h48
Até o sábio secretário de Segurança fluminense dá aula de segurança ao governo federal
Tânia Rêgo / Agência Brasil

Desde que CartaCapital abriu espaço para este blog, tenho, na qualidade de velho jornalista, tentado mostrar a evolução desta cidade, seus costumes, seu jeito de viver. Para quem já leu algum texto, não é novidade que as autoridades – todas legalmente empossadas com o apoio da maioria dos cidadãos destas plagas – passam longe dos políticos que têm meu respeito, com raríssimas exceções.

Ao falar das ruas, de como se vive por aqui, nem sempre agrado os leitores. Em algumas críticas que fiz, fui rejeitado com vigor. Teve leitor que me mandou ir embora do Brasil e outro, mais sucinto ou escatológico, me chamou de “bosta”. Aliás, em um caso específico, o editor do site se manifestou, dizendo que eu morava e adorava o Rio e apenas estava opinando sobre o dia a dia da cidade. Mas a melhor que levei pela proa foi a afirmação de que seria pago para falar mal do Rio, como se isso fosse alterar o quadro deste pedaço de mundo que todo mundo adora.

Escrevo o que sinto, o que penso – o que  gera discussões, reflexões. E esse é o dever do jornalista. Buscar rumos para a sociedade, escancarando o que vê e apura.

O prenúncio da tragédia

Ultimamente não tenho criticado os políticos que rejeito e suas mazelas. Venho falando sobre o verão maravilhoso e tropical do Rio. Afinal, a influência do calor em sentido literal tem sido bem maior do que a do “calor das ruas” iniciado no inverno de 2013.

Quem não está careca de saber do sofrimento de quem usa o transporte público, de quem enfrenta o trânsito caótico, mesmo em seu próprio carro? Ou ainda do pessimismo dos cariocas diante da desaceleração do processo de pacificação nas comunidades? Tem jeito, não. Com o prefeito e o governador que temos, não há muita esperança por dias melhores.

E é justamente essa dupla dinâmica, Cabral e Paes, os destemperados senhores do poder, que dá desconto de impostos às famigeradas empresas de transportes ao mesmo tempo em que autoriza o aumento das passagens de ônibus. O mesmo aumento que detonou a onda de protestos do ano passado. Quem sabe os criminalistas de plantão não qualificariam a conduta do governador e do prefeito como “subsídio seguido de sem-vergonhice”? Está aí, um novo tipo penal que o secretário de Segurança poderia sugerir ao Congresso.

Resultado da decisão dos governos estadual e municipal: indignação seguida de revolta. Manifestações na rua e black block no meio. Um rojão e uma tragédia: a morte de um jornalista que estava no trajeto do foguete: Santiago Andrade, da Bandeirantes. Não fosse ele, seria outro cidadão que estivesse no caminho, trabalhando, protestando, ou, na rua, voltando para casa. Diga-se de passagem, um resultado previsível para especialistas em segurança pública, e que não aconteceu antes porque Deus deve ser carioca, uma vez que nas manifestações anteriores havia um número infinitamente superior de possíveis vítimas.

Acrescente-se a isso o fato de que, ao longo do tempo que separa o inverno de 2013 do verão de 2014, o carioca experimentou nos seus deslocamentos diários para o trabalho: trens enguiçados ou descarrilados, com direito às gargalhadas do secretário de Transporte nos trilhos da rede ferroviária, ônibus do BRT atropelando, caminhão derrubando passarela e matando mais gente, bondes ainda parados e muito, mas muito engarrafamento, por toda parte, em razão do processo de maquiagem da cidade para Copa e Jogos Olímpicos.

Reações oficiais e extraoficiais

O assassinato do cinegrafista foi documentado. Além de correr o mundo, as imagens quase levaram aos prantos os senhores senadores e deputados, que deploraram em seus palanques a morte de nosso Santiago, prometendo, todos, lutar para que o episódio não se repita. Ora, se vereadores, deputados, governador, prefeito, Congresso Nacional e tudo mais fossem sérios, providências efetivas já teriam sido tomadas desde meados do ano passado.

E nesse clima de luto atual – estamos todos chocados com o que vimos acontecer à família de Santiago – surgiu um novo personagem: um advogado, seguramente mais um futuro político desta cidade, que acusa partidos políticos de financiarem jovens da periferia a participarem de manifestações, com o objetivo de promover tumultos, fornecendo, inclusive, equipamentos para o êxito dos quebra-quebras pretendidos.

Mas como isso passou despercebido dos serviços de inteligência do secretário Beltrame? Aliás, em vez de estar em Brasília, orientando o ministro da Justiça a fazer o seu trabalho, o secretário de Segurança Pública do Rio deveria ter feito o seu próprio trabalho e localizado essa tal organização criminosa que arma “meninos trabalhadores” para atacarem policiais e prédios públicos e comerciais, apenas com o intuito de “complementar os baixos salários que recebem em seus empregos tradicionais”. Fala-se até em kombis utilizadas para levar máscaras e fogos para os manifestantes. A polícia nunca as localizou? Aliás, me pergunto: já pesquisou dentro do próprio círculo do poder público, também interessado em parecer vítima desses baderneiros?

Enfim, são perguntas que poucos eleitos podem responder. Mas, esta, senhores leitores, é parte da atmosfera do que eu chamo do melhor lugar do mundo para se viver. Ao lado desse lado sombrio, há muita luz, muita gente boa e, para não perder o hábito, tem a praia de Copacabana, meu vício, entorpecente implacável, hoje também enlutada com um homenagem ao nosso cinegrafista assassinado.