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Sociedade

Rio de Janeiro

Abram a Gaiola

por Edgard Catoira — publicado 15/10/2013 21h31, última modificação 16/10/2013 05h13
Sem diálogo das autoridades do Rio de Janeiro com os professores, a baderna não terá fim
Edmund Gall / Flickr / Creative Commons
Câmara de Vereadores do Rio

Câmara de Vereadores do Rio

Não é porque ainda somos uma democracia mequetrefe que devemos aceitar que o parlamento da cidade permaneça fechado. Ruim com ele, pior sem ele. Mas isto é exatamente o que está acontecendo com a Câmara Municipal do Rio, trancada a sete chaves por ordem do seu presidente, vereador Jorge Felippe (PMDB), principal aliado do prefeito Eduardo Paes – e pretendente a uma cadeira vitalícia no Tribunal de Contas do Município.

Tudo começou no dia primeiro deste mês, quando os vereadores votaram o plano de carreira dos profissionais da Educação, sob a proteção do Batalhão de Choque da PM, com portões fechados ao público.

Prefeito e base aliada tornaram o caso como uma queda de braço com o sindicato dos profissionais e resolveram pagar para ver. Resultado: uma semana depois, milhares de pessoas tomaram as ruas do Centro para protestar contra a forma como havia sido conduzido o processo. E mais: os poucos vereadores da oposição obtiveram, em caráter liminar, a anulação da sessão de votação do tal plano pela Justiça.

Judicialização da política? Definitivamente, não. A juíza do processo só precisou usar aquilo que mais tem faltado ao prefeito e aos seus vereadores: bom senso. Além disso, não foi observado o que minimamente se espera da atuação de um parlamento: que desenvolva seu trabalho à luz do dia, com garantia de livre acesso dos cidadãos às sessões de votação.

Neste Dia do Professor, o bom senso não voltou e a Câmara foi fechada novamente, distanciando-se ainda mais do papel que deveria exercer, de foro de debates e de mediação de conflitos.

Pela manhã, uma verdadeira serralheria foi montada no hall dos elevadores para a instalação de mais grades, a fim, quem sabe, de transformar o Palácio Pedro Ernesto, conhecido como Gaiola de Ouro, em fortaleza inexpugnável, refratária à pressão popular.

A sessão plenária que deveria começar às 14h foi cancelada e os funcionários dispensados. Um cenário realmente desolador. Mas é óbvio que o ponto dos vereadores não vai ser cortado, diferentemente do que vai acontecer com o dos professores grevistas, de acordo com a ordem do prefeito Eduardo Paes.

É incrível, mas a Câmara foi fechada justamente por quem deveria defender o seu prestígio – por pior que fosse, e, caso o diálogo com a sociedade não seja reaberto, tenderá a permanecer à deriva, como um transatlântico inservível.

Que seus membros retomem seus postos imediatamente e abram as suas portas. Caso contrário, que renunciem.

Abram a Gaiola! Vada a bordo, Felippe! Não tenha medo dos professores cariocas. Eles representam o que há de melhor na sociedade. Ou, então, aprenda a lição e pule fora. Não desmoralize ainda mais o parlamento da cidade.

Dia tumultuado

A caminhada dos professores teve início logo após uma reunião do sindicato, no Clube Municipal, que fica no bairro da Tijuca. Na assembleia, no lotado ginásio do clube, decidiram pela continuação da greve.

Enquanto isso, na Câmara, um cerco de grade fechava ruas e bloqueava as entradas da Câmara. Tudo para esperar o ataque inimigo. Aliás, nos últimos dias, os professores foram recepcionados duas vezes pela PM. E nenhuma vez por autoridades municipais e estaduais ligadas ao ensino. A respeito disso, o deputado estadual Marcelo Freixo desabafou: “Efetivamente, a situação da educação pública virou caso de polícia, o que é inaceitável.”

Uma professora, caminhando pela Avenida Rio Branco completamente tomada pelos manifestantes, dizia que “hoje, todos os cariocas viraram professores!”

Depois das 18h, as tropas de choque da PM estavam ostensivamente posicionadas para a batalha. Com a chegada dos professores, os soldados caminhavam juntos, com escudos e todo o aparato bélico – sem, jamais, dar as costas para os manifestantes. Quando tinham que recuar, andavam para trás.

Os Black blocs, mais uma vez, faziam um cordão de proteção aos professores – como nas vezes anteriores, quando não deixaram a polícia atacar os manifestantes. Agiram, sim, como reação ao aparato policial, inclusive provocando a tropa de choque da PM.

Algumas explosões começaram a ser ouvidas e, por volta das 20h, em ambiente tenso, o sindicato avisou que a protesto terminava naquele momento. Os professores dispersaram e o esperado confronto começou, com rojões lançados contra a polícia, que revidou com gás lacrimogêneo. Baderna e violência tomaram conta do centro do Rio.

Com total falta de diálogo, a Justiça decidiu que a prefeitura não poderia descontar os dias de greve dos salários dos professores. Prefeito e presidente da Câmara acusam o sindicato e se isolam. Conclusão: passeatas e badernas continuarão acontecendo.

Triste momento para a Democracia no Rio. Resta aos professores antigas palavras de ordem, entre as quais, a mais forte: “a luta continua”.