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Blog do Edgard

por mpichonelli — publicado 10/07/2013 17h21, última modificação 21/05/2014 17h04

Polícia Civil em greve no Rio

Movimento eclode por não cumprimento de acordo por parte do governo estadual
por Edgard Catoira — publicado 21/05/2014 17h31

A Polícia Civil do Rio de Janeiro parou por 24 horas, nesta quarta-feira 21, acompanhando o movimento nacional convocado pelo Cobrapol, confederação nacional da classe.

Durante um encontro, nesta mesma tarde, na Cidade da Polícia, o Chefe da Polícia Civil do Rio compareceu e disse literalmente: "O pleito dos policiais é justo e não tem ninguém contra". Isso contradiz a alegação do atual governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) de que o aumento aos policiais já foi dado, “acima da inflação”.

No Rio, na verdade, o movimento apenas coincide com uma greve que deverá eclodir em reunião do Sindicato estadual- Sindpol. Isso porque o Governo do Estado não cumpriu um acordo feito de remuneração seus agentes: o governador Luiz Fernando Pezão não enviou para a Assembleia o projeto, como comentei aqui na semana passada, cujo prazo venceria dia 15. Afinal, esse projeto é fruto de um consenso entre representantes da Polícia e o Governo do Estado quanto ao mérito e à forma de fazer, o que seria a incorporação da gratificação de trabalho, ao longo de nove parcelas distribuídas ao longo dos próximos quatro anos.

De acordo com amigos, em conversas informais, fiquei sabendo que o ex-governador Sérgio Cabral concordara com o presidente do Sindicato, Fernando Chao de La Torre, de que havia uma imensa diferença entre o salário dos agentes e delegados – um verdadeiro abismo salarial, na verdade.

Ainda no fim do ano passado, houve uma reunião com Cabral, seus secretários José Mariano Beltrame, da Segurança Pública; Sérgio Ruy, de Gestão e Planejamento; Martha Rocha, chefe de Polícia Civil; e Fernando Chao, no qual Cabral afirmou que “a demanda é justa, a forma de fazer é correta, é razoável, só resta saber como isso impactaria a previdência do estado”. Isto é, para pagar os servidores ativos, não haveria problema. E pediu que Sérgio Ruy calculasse o impacto na Previdência do estado antes de marcar nova reunião para concluir a negociação.

A essa altura da conversa, ficou claro que as delegacias do Rio estavam modernizadas, dentro da ideia da “Delegacia Legal”, com qualidade do serviço diferenciada. Mas também percebeu-se que os agentes já não são mais os mesmos "puliças" do passado, e que hoje a categoria é composta por profissionais de nível universitário completo, a maioria em Direito, exigência para o cargo de delegado.

Numa última reunião dos mesmos personagens, em dezembro do ano passado, o secretário Ruy Sérgio disse que, depois dos levantamentos feitos, o acordo poderia ser feito, já que não comprometeria a Previdência do Estado.

Diante da quebra do acordo entre governo e a classe, já que Pezão não cumpriu a palavra de seu antecessor, que também já vinha empurrando a questão com a barriga, a greve da Polícia Civil fluminense vai eclodir depois da assembleia convocada pelo sindicato que acontece à noite no Clube Municipal, na Tijuca.

O abismo salarial

O “abismo” a que me refiro é o seguinte: um agente ganha em torno de R$ 3.500 / R$ 4.000 (aqueles que já têm um bom tempo de serviço) enquanto um delegado, também na média, recebe R$ 15.000  em início de carreira.

Agravando este cenário há o fato de que, na prática, no dia a dia, o trabalho dos delegados e dos agentes é muito parecido. E isso quando os agentes não realizam as tarefas próprias da atribuição dos delegados.

Tal fato se dá por dois motivos: o primeiro é que, realmente, se for para cumprir o que determina o Código de Processo Penal, que já se mostra ineficaz, para os dias de hoje, o número de delegados é muito pequeno. Eles é que, num inquérito policial, devem determinar e presidir pessoalmente todas as ações, todos os atos legais.

Isso torna-se absolutamente impossível, pois algumas delegacias acumulam cerca de dois mil  inquéritos, que demandam inúmeras atividades e realizações. De ouvir os envolvidos, a solicitação de perícias, autuação de peças, intimações e o que mais for preciso para enviar o caso para a Justiça.

Por este motivo os agentes acabam fazendo o trabalho dos delegados, que acabam só assinando diversas peças que constam do Inquérito, quando, na verdade deveriam tê-las realizado pessoalmente. Ou seja, o trabalho de inspetores e oficias de cartório é o mesmo dos delegados. Os salários, não.

Um amigo, policial há 15 anos, me conta que o abismo salarial derivou-se, em grande parte, de que no passado houve a incorporação de uma gratificação que era paga a todos os servidores da segurança pública. Foram contemplados os delegados e toda a PM. Só os agentes da polícia civil ficaram de fora.

Os agentes, com salários baixos, vivem dificuldades e complementam seus ganhos com salários em trabalhos avulsos, os bicos, com aprovação velada dos delegados.

Esse amigo explica: “os agentes, através do Sindicato, o Sindpol, levaram ao governo a demanda da incorporação da gratificação de delegacia legal, que na verdade não é um aumento e sim a reparação de uma injustiça histórica”.

Ele me lembra de um encontro, na semana passada, na Cidade da Polícia, no Rio, em que o atual Chefe de Polícia, Fernando Veloso, elogiou a categoria em razão “do elevado aumento de produtividade e da qualidade apresentada nas investigações”.

E eu concordo com ele quando afirma: “Não tem nenhum grande criminosos que esteja solto, no Rio, ou tenha conseguido ficar à margem da ação da lei. Eles crescem no crime, ganham visibilidade, e nós vamos lá, investigamos e prendemos todos. Mas como a máquina social injusta e desorganizada é pródiga em produzir criminosos, assim que nós prendemos o chefão do momento, logo outro aparece, mas, pode ter certeza, vai ser logo preso também”.

Espero que a situação se normalize, o governo cumpra o trato e que, homens como meu amigo, atualmente em licença de saúde, não passe por dificuldades quando ficam sem a gratificação de trabalho, que é perdida, inclusive, quando o agente se afasta por acidente no trabalho – um tiro levado em uma investigação, por exemplo.

Turbulência

Rio de Janeiro: 15 de maio decisivo

A rotina de greves, manifestações e problemas no trânsito que o carioca enfrenta há algum tempo podem piorar com uma greve da polícia civil
por Edgard Catoira — publicado 14/05/2014 12h19
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Motoristas e cobradores cariocas estão em greve

Quinta-feira, 15 de maio, passou a ser uma data esotérica que definirá o humor do Rio de Janeiro durante os eventos esportivos da Copa.

O clima geral está conturbado, com o trânsito confuso há semanas, graças a obras – e seus respectivos atrasos – manifestações nas ruas (quase que diárias) pipocam em todas as regiões e greves, que já estão acontecendo ou que estão para vir. Tudo agora se agravou com a greve de motoristas e cobradores de ônibus.

Os bancos estão funcionando precariamente, com a vigilância de braços cruzados há dias. Neste momento, estão paralisados também alguns setores dos serviços públicos. Na prefeitura, desde o dia 13, engenheiros, geólogos e arquitetos, cerca de mil profissionais que dão licenças para obras e as fiscalizam, estão parados, reivindicando um piso salarial de nove salários mínimos. Em reunião no importante dia 15, eles decidirão como continuarão o movimento.

Outra assembleia que marcará a data é a de professores, municipais e estaduais, que decidirão como agir na greve iniciada também no dia 13. O STF autorizou Estado e Prefeitura a cortarem os pontos dos faltosos, que reivindicam aumento salarial de 20%, carga horária semanal de 30 horas de trabalho e um terço do tempo reservado para planejamentos escolares. A Prefeitura já dá sinais de que cumprirá o que tinha sido combinado e não punirá grevistas. Quinta-feira veremos o que acontecerá.

Perigo iminente

Pouco comentado está o movimento da Polícia Civil. Há uma promessa feita pelo governador Sergio Cabral em dezembro, de que até o dia 15 de maio – sempre esta data – o Governo enviaria projeto para a Assembleia Legislativa em que incorporaria ao salário uma gratificação – no valor de R$ 850,00 – que os policiais recebem a título de gratificação, de acordo com o planejamento da modernização da Polícia Judiciária do Rio. Há um mês, cerca de mil policiais se reuniram em assembleia, cobrando uma definição do Estado.

Cabral deixou o governo e seu substituto, e candidato a governador, Luiz Fernando Pezão não dá sinais de ter o projeto em andamento. E está sendo pressionado também pela PM: se cumprir o que Sergio Cabral prometeu ao Sindipol, também se movimentará para melhorar os níveis salariais.

Os deputados também não confirmam como estão as negociações. O presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Rio de Janeiro (Sindipol), Francisco Chao, porém, não está bem humorado. Em silêncio, aguarda o fatídico dia 15 de maio para saber o que foi providenciado pelo governador junto à Assembleia Legislativa. Caso o prometido aos policiais não seja cumprido na íntegra, numa reunião na segunda-feira, Chao não terá dúvida em declarar a greve, que já está sendo praticamente pedida por toda a classe. São 11 mil profissionais que poderão parar e, aí sim, comprometer a segurança geral do Estado, em plena época da Copa.

Chao, que completa 45 anos de idade também no dia 15, diz que o governador ainda tem tempo de dar um presente aos policiais, no dia de seu aniversário. Ou, greve. E suas consequências para a população.

Para quem não sabe, o policial civil tem que ter curso superior, como o delegado, mas as diferenças salariais são enormes – piso inicial de R$ 4.500,00 para o inspetor contra 15 mil do titular da delegacia.

Chao promete explicar pormenorizadamente a Carta Capital o que acontecerá a partir da semana que vem, inclusive as origens de um setor importante para a sociedade e está completamente abandonado pelo poder público. No fim de semana volto ao assunto.

Rio de Janeiro

"Sem espaço", vereadores do Rio querem mudar de endereço

No belíssimo Pedro Ernesto, palco de manifestações históricas, haverá apenas uma de troca de ratos – os atuais pelos roedores originais
por Edgard Catoira — publicado 14/03/2014 14h47

Os vereadores cariocas não são criativos apenas quando idealizam seus projetos - em geral, propostas estapafúrdias ou que nada têm a ver com a legislação municipal. Criam uma cidade ideal, mas virtual, com serviços jamais concretizáveis, ou leis inúteis que só engrossam o anedotário da política.

Recentemente, um nobre parlamentar instituiu a “multa moral”, destinada a punir motoristas que estacionem seus carros em vagas destinadas a idosos e portadores de deficiência. E a lei prevê ainda que será colado no para-brisa do carro um adesivo escrito: “Rapidinho, não!”. Acreditem, não é piada. A rigor, é uma tragédia!

Salvo honrosas exceções, ao invés de legislarem a favor de uma cidade melhor e fiscalizarem como o prefeito gasta o dinheiro do contribuinte, Suas Excelências maquinam todo tipo de artifício para conquistar privilégios.

Há dois anos, tentaram comprar uma frota de carros de luxo, mas a pequena oposição botou a boca no trombone, a imprensa noticiou e o pagamento pelos carros, que já tinha sido feito, foi devolvido. Agora, os nobres edis decidiram mudar de sede, trocar de palácio. A razão seria a precariedade das instalações do Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, que já não atenderia mais aos vereadores. A razão é pueril e o precioso prédio só tem precariedade porque não é devidamente cuidado pela administração pública. E as salas que eventualmente podem faltar sobram em edifícios do entorno da Câmara.

A decisão da mesa diretora, autorizando o presidente da Casa a iniciar as providências para a construção da nova sede, já está publicada no Diário Oficial da Câmara.

Mas o belíssimo Pedro Ernesto, que foi palco de manifestações políticas históricas, segundo o vereador presidente, Jorge Felippe (PMDB), será destinado a grandes eventos, como a posse do prefeito, dos vereadores e a entrega de medalhas. Outra piada de mau gosto, pois as posses ocorrem de quatro em quatro anos e a entrega de medalhas, cá entre nós, não justificaria a manutenção de um palácio. Haverá apenas uma de troca de ratos – os atuais, pelos roedores originais.

A nova Câmara, segundo seus defensores, será muito melhor e ficará na Cidade Nova – antiga  Zona do baixo meretrício – bem  pertinho da Prefeitura, quem sabe, facilitando o controle do prefeito sobre sua fiel bancada. Numa fábula possível, considerado o histórico das votações, dir-se-ia uma bancada de carneirinhos, mas na relação de Eduardo Paes com seus aliados é difícil saber quem é raposa, quem é carneiro e quem come quem.

Aliás, por ocupar o local onde era a “zona”, a sede da prefeitura é conhecida como Piranhão e o anexo de Cafetão. Que apelido terá a Câmara? Eu proponho Rufião. Para outras sugestões, favor enviar cartas para o presidente Jorge Felippe.

O fato é que o povo continua sendo o coadjuvante dessa história e pouco importa o que ache da mudança. E esta é a questão que gostaria de sublinhar: o que ganha o carioca com a mudança da sede da Câmara dos Vereadores?! Nada! A não ser, talvez, pouquíssimos empreiteiros-amigos-do-poder cariocas. A mudança necessária, aquela que todo mundo deseja, e que os movimentos de junho provaram, é a mudança de atitude, não de sede.

Pensando no Parlamento inglês, que ocupa, há séculos, o mesmo espaço em Londres, abaixo a mudança da Câmara Municipal do Rio de Janeiro!

O povo, desolado, pede socorro

Rio, lindo só como cenário

por Edgard Catoira — publicado 25/02/2014 18h23

Um leitor do blog, outro dia, depois de ler um texto em que eu falava bem do Rio, comentou, com fina ironia, sobre as espumas marrons que ele encontrou no mar, quando esteve por aqui. Afinal, eu tinha lido – e acreditado, já que foi a grande imprensa que publicou – que o fenômeno era causado por muitas algas que surgiram por fatores climáticos, já que o tempo anda muito quente por aqui, tanto no meio ambiente quanto na sociedade carioca.

Murilo Rocha, macaco velho do jornalismo nacional, escreveu o texto que transcrevo, por concordar plenamente com ele:

“Quando as palavras não conseguem mais convencer ninguém, resta ao homem público promover ações práticas, que restabeleçam a crença dos governados em sua honestidade de propósitos. Nessa área, de possibilidades inesgotáveis, é impossível não pensar, de imediato, nos nomes de Wagner Victer, presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos, a Cedae; ou Carlos Minc, que acaba de deixar uma das inúmeras "boquinhas" ambientais municipais, estaduais e federais que vinha acumulando há dezenas de anos.

A questão é essa malcheirosa espuma marrom-amarelada que, volta e meia, aparece nas praias da cidade e causa vergonha e constrangimento a todos os cidadãos. Na verdade, a quase todos. Victer e Minc jamais se abalam e, pessoalmente ou através de porta-vozes, insistem em dizer que se trata de um fenômeno natural, que não oferece risco à saúde dos banhistas. Ótimo, mas você acredita nisso? Claro que não. Aí, entramos na tese que passo a defender.

Os nossos bravos servidores públicos, conscientes do ceticismo com que suas declarações são encaradas, poderiam perfeitamente passar das palavras à ação. Acompanhados por toda a imprensa, previamente convocada por eles próprios, que cultivam uma ampla lista de amigos em jornais, rádios e televisões, deveriam promover um definitivo basta nos incréus, vestindo um sungão e mergulhando nas áreas onde a espuma estivesse mais densa.

Saídos das águas, qual Iemanjás de gabinete, exibiriam um amplo sorriso, que disfarçaria a quase irreprimível expressão de nojo e declarariam, cercados de câmaras e microfones: ‘Voilà, a água está ótima!’. E, rapidamente, disparariam em seus carros oficiais rumo ao gabinete médico mais próximo, para uma rigorosa desinfecção, porque político é duro na queda, mas não é de ferro. E o tempo se encarregaria de provar que não era bravata, mas um modo claro de convencer os desconfiados eleitores/contribuintes.”
Só que, como aconteceu em Búzios, quando turistas estrangeiros passaram mal, o enganado nadador é que foi vítima de algo que comeu por aí.

Tem muita gente que ignora tudo isso, o que não está acontecendo com o já desconfiado pessoal que participará das provas náuticas das Olimpíadas e começou a emitir sinais de alerta sobre não apenas a suspeitíssima qualidade da água, mas também sobre as ilhas de sujeira flutuante que ameaçam fazer naufragar suas embarcações. A propósito, nem precisam enviar equipes médico-sanitárias para avaliações. Basta sair do Galeão e contemplar as margens do aeroporto e da Linha Vermelha.

Da água à violência

O Rio vive um momento de total silêncio das autoridades, o que parece uma senha para a desordem social . As tensões urbanas se intensificam.

Não são mais os protestos pelos 20 centavos. Ou o encontro do acerto de contas, na definição de milicianos, policiais e criminosos, que invariavelmente se transformam em confrontos. Tem sido assim do subúrbio as zonas Sul, Norte, Oeste, Centro e no interior .

Como no caso ambiental, o conflito evidente é praticamente ignorado, ou silenciado pelas autoridades. Conflitos estão acontecendo, nos últimos dias nos bairros de Lins de Vasconcelos, Engenho Novo, Vila Kennedy, Rocinha, Praça Seca. Enquanto a maioria discute de quem é a culpa, ignora que podemos ser as próximas vítimas. Em todos os sentidos: assalto, bala perdida, assassinato, até ser executado por ser parecido com alguém procurado por essas gangues.

Hoje um grande amigo – cujo nome não cito por questão de segurança de sua família – conversando comigo, denunciou um caso que está acontecendo: um parente próximo, de 16 anos, foi pego por um policial com arma e droga. Por ser conhecido do pai do garoto, livrou a cara do menino, mas encaminhou o caso ao pai.

Ele, inclusive, avisou a esse pai que seu filho esta marcado para morrer.

Situações como essa, ou de chantagem da gangue envolvida, acontece em grande quantidade, agora principalmente nos locais onde vivem famílias das classes médias, que ignoram a vida de seus filhos porque eles convivem com amigos dos bairros, ou condomínios, onde vivem.

Esse meu amigo, revoltado, se queixa: “ao procurar ajuda você constata que se o jovem for menor a situação é ainda mais complexa, porque não existem instituições que deem proteção aos que querem tentar refazer a vida. E aos maiores, em nossa decadente instituição de recuperação, os tais presídios, não oferecem soluções e sim, revolta num ambiente de doutorado no crime. Apesar do clima festivo da cidade maravilhosa, milhares de famílias de todas as classes sociais estão neste momento negociando a sobrevivência . Sob a suspeita ausência do poder publico."

Conversei, então, com outro velho amigo que conhece bem a região da Praça Seca, na Zona Oeste da cidade. Ele conta que na região existe um crime de varejo, onde garotos são cooptados pela quadrilha do PCC.  E, em Favelas como a Chacrinha e Mato Alto estão nas mãos destes garotos sem lideranças no tráfico, mas com armamento pesado. Na região, vivem os policiais militares do 9º Batalhão que estão na ativa e ex-policiais que montaram uma enorme milícia. Todos disputam o mesmo território onde foram criados. Tráfico, milícia e PMs. Todos se conhecem.

Ele conta que um miliciano, ex PM, procurou um parente seu com a informação de que nos próximos dias acontecerá um banho de sangue naquela área. E chegaram a pedir foto de um parente dele, também envolvido com drogas, para ele ser poupado.

Esse “banho de sangue” foi confirmado por um PM amigo dele, pertencente à cúpula da corporação mas, oficialmente , nada é confirmado para a imprensa, que já sabe dessa movimentação.

Mais uma vez estou aqui denunciando o que acontece ao povo que vive no Rio. Espero que não aconteça como quando, cerca de um mês atrás denunciei os assaltos a ônibus que vão do Centro para a Zona Oeste e que autoridades fingiam não saber. Dias depois – e aí sim, a imprensa noticiou – houve um assalto com morte nessa linha.

As eleições estão aí e os acordos com políticos e bandidos continuam sendo arrematados. E nós votaremos aos mesmos perfis que hoje reprovamos. Mas, antes, temos carnaval e depois a Copa.

E eu peço socorro aos céus, porque na terra, neste momento, nada pode ser feito.

Rio de Janeiro

O Rio que odeio

Até o sábio secretário de Segurança fluminense dá aula de segurança ao governo federal
por Edgard Catoira — publicado 13/02/2014 12h09, última modificação 13/02/2014 12h48
Tânia Rêgo / Agência Brasil

Desde que CartaCapital abriu espaço para este blog, tenho, na qualidade de velho jornalista, tentado mostrar a evolução desta cidade, seus costumes, seu jeito de viver. Para quem já leu algum texto, não é novidade que as autoridades – todas legalmente empossadas com o apoio da maioria dos cidadãos destas plagas – passam longe dos políticos que têm meu respeito, com raríssimas exceções.

Ao falar das ruas, de como se vive por aqui, nem sempre agrado os leitores. Em algumas críticas que fiz, fui rejeitado com vigor. Teve leitor que me mandou ir embora do Brasil e outro, mais sucinto ou escatológico, me chamou de “bosta”. Aliás, em um caso específico, o editor do site se manifestou, dizendo que eu morava e adorava o Rio e apenas estava opinando sobre o dia a dia da cidade. Mas a melhor que levei pela proa foi a afirmação de que seria pago para falar mal do Rio, como se isso fosse alterar o quadro deste pedaço de mundo que todo mundo adora.

Escrevo o que sinto, o que penso – o que  gera discussões, reflexões. E esse é o dever do jornalista. Buscar rumos para a sociedade, escancarando o que vê e apura.

O prenúncio da tragédia

Ultimamente não tenho criticado os políticos que rejeito e suas mazelas. Venho falando sobre o verão maravilhoso e tropical do Rio. Afinal, a influência do calor em sentido literal tem sido bem maior do que a do “calor das ruas” iniciado no inverno de 2013.

Quem não está careca de saber do sofrimento de quem usa o transporte público, de quem enfrenta o trânsito caótico, mesmo em seu próprio carro? Ou ainda do pessimismo dos cariocas diante da desaceleração do processo de pacificação nas comunidades? Tem jeito, não. Com o prefeito e o governador que temos, não há muita esperança por dias melhores.

E é justamente essa dupla dinâmica, Cabral e Paes, os destemperados senhores do poder, que dá desconto de impostos às famigeradas empresas de transportes ao mesmo tempo em que autoriza o aumento das passagens de ônibus. O mesmo aumento que detonou a onda de protestos do ano passado. Quem sabe os criminalistas de plantão não qualificariam a conduta do governador e do prefeito como “subsídio seguido de sem-vergonhice”? Está aí, um novo tipo penal que o secretário de Segurança poderia sugerir ao Congresso.

Resultado da decisão dos governos estadual e municipal: indignação seguida de revolta. Manifestações na rua e black block no meio. Um rojão e uma tragédia: a morte de um jornalista que estava no trajeto do foguete: Santiago Andrade, da Bandeirantes. Não fosse ele, seria outro cidadão que estivesse no caminho, trabalhando, protestando, ou, na rua, voltando para casa. Diga-se de passagem, um resultado previsível para especialistas em segurança pública, e que não aconteceu antes porque Deus deve ser carioca, uma vez que nas manifestações anteriores havia um número infinitamente superior de possíveis vítimas.

Acrescente-se a isso o fato de que, ao longo do tempo que separa o inverno de 2013 do verão de 2014, o carioca experimentou nos seus deslocamentos diários para o trabalho: trens enguiçados ou descarrilados, com direito às gargalhadas do secretário de Transporte nos trilhos da rede ferroviária, ônibus do BRT atropelando, caminhão derrubando passarela e matando mais gente, bondes ainda parados e muito, mas muito engarrafamento, por toda parte, em razão do processo de maquiagem da cidade para Copa e Jogos Olímpicos.

Reações oficiais e extraoficiais

O assassinato do cinegrafista foi documentado. Além de correr o mundo, as imagens quase levaram aos prantos os senhores senadores e deputados, que deploraram em seus palanques a morte de nosso Santiago, prometendo, todos, lutar para que o episódio não se repita. Ora, se vereadores, deputados, governador, prefeito, Congresso Nacional e tudo mais fossem sérios, providências efetivas já teriam sido tomadas desde meados do ano passado.

E nesse clima de luto atual – estamos todos chocados com o que vimos acontecer à família de Santiago – surgiu um novo personagem: um advogado, seguramente mais um futuro político desta cidade, que acusa partidos políticos de financiarem jovens da periferia a participarem de manifestações, com o objetivo de promover tumultos, fornecendo, inclusive, equipamentos para o êxito dos quebra-quebras pretendidos.

Mas como isso passou despercebido dos serviços de inteligência do secretário Beltrame? Aliás, em vez de estar em Brasília, orientando o ministro da Justiça a fazer o seu trabalho, o secretário de Segurança Pública do Rio deveria ter feito o seu próprio trabalho e localizado essa tal organização criminosa que arma “meninos trabalhadores” para atacarem policiais e prédios públicos e comerciais, apenas com o intuito de “complementar os baixos salários que recebem em seus empregos tradicionais”. Fala-se até em kombis utilizadas para levar máscaras e fogos para os manifestantes. A polícia nunca as localizou? Aliás, me pergunto: já pesquisou dentro do próprio círculo do poder público, também interessado em parecer vítima desses baderneiros?

Enfim, são perguntas que poucos eleitos podem responder. Mas, esta, senhores leitores, é parte da atmosfera do que eu chamo do melhor lugar do mundo para se viver. Ao lado desse lado sombrio, há muita luz, muita gente boa e, para não perder o hábito, tem a praia de Copacabana, meu vício, entorpecente implacável, hoje também enlutada com um homenagem ao nosso cinegrafista assassinado.

Rio de Janeiro

Ah, meu Rio $urreal

Salvador Dalí reina na moeda que circula na cidade
por Edgard Catoira — publicado 27/01/2014 13h14, última modificação 27/01/2014 15h14

Tudo no Rio, a meu ver, sempre foi surreal, no ótimo sentido do estilo: o cenário deslumbrante da cidade, o caminhar das garotas na praia, a alegria dos botequins, e por aí vai.

Do ponto de vista negativo, os tempos trouxeram o tráfico invariavelmente truculento, balas perdidas, violência em qualquer lugar, além de políticos corruptos que fazem obras monumentais de acordo com as verbas que têm para gastar e encher os bolsos – deles e das empreiteiras amigas – deputados, e vereadores que também levam algum aprovando o que o Executivo propõe. E o povo que se ferre também com os conchavos entre poder público e privado, como o setor do transporte público. Um caos!

Neste momento, a fase é de grandes lucros para a classe política, graças aos grandes eventos internacionais que o Rio vem abrigando. Só que com o exemplo emanado pelos dirigentes da cidade, o comércio e os serviços também resolveram levar uma grana extra. Um maço de cigarros, tabelado em 6,25 reais, num quiosque do calçadão da Avenida Atlântica, custa 10 reais. O coco já está custando a bagatela de 6 reais. Bares e restaurantes, e não estou me referindo aos tradicionalmente caros e luxuosos, mas daqueles que sempre frequentamos, estão com cardápios proibitivos.

O carioca, claro, criou nome para essa nova moeda local - $urreal.

De acordo com minha pesquisa pessoal, só as lojas de roupas não estão usando a nova moeda. Aliás, para refazer o caixa, estão em liquidação em pleno verão.

Mas não podemos esquecer que os turistas estão chegando e têm que desembolsar seus $urreais em acomodações: as diárias dos hotéis estão com preço na estratosfera. Apartamentos ou quartos, para os menos exigentes, estão em aluguéis, incluindo aqui os imóveis de favelas. O $urreal não está explorando o turismo, está explorando o turista.

Claro que quem frequenta habitualmente as praias está levando suas garrafinhas de água, latinhas de cerveja e cangas para se acomodarem na areia, já que até as cadeiras oferecidas pelas barracas de praia estão também com preços proibitivos.

Todos estão mais espertos, tentando pagar ainda com o Real.

No Facebook, a página criada pelas jornalistas Daniela Name e Andréa Cals, com layout do designer Flávio Soare, a “Rio $urreal – não pague” está fazendo grande sucesso! “Se Vira no Rio”, “Não pago preço absurdo” e “Boicote Rio” são postagens que chamam a atenção de como está a revolta geral contra os preços. Também fazem sucesso nas redes sociais as notas do $urreal, criadas pela designer Patrícia Kalil. Elas são semelhantes às do Real onde, no lugar das garças e garoupas da moeda oficial, fica a imagem do pintor surrealista Salvador Dalí.

As dicas postadas na rede social Rio $urreal, em forma de piada ou de bronca, estão repercutindo muito bem e já fazem os fornecedores reverem seus preços. Um exemplo é o coco, que já pode ser pago em Real, apesar de ainda caros R$ 5,00.

Quando contei ao jornalista – e crítico amigo – Murilo Rocha que eu não paguei 10 $urreais num quiosque por um maço de cigarros, mas o tabelado do outro lado da Avenida Atlântica, ele, divertido, me mandou seu divertido conselho:

Antes de reclamar dos preços nos órgãos de defesa do consumidor, lembre-se do mais importante: você mesmo. Não dá tanto trabalho, basta, ao entrar na, digamos, casa de pasto, ao consultar o cardápio, faça-o da direita para a esquerda. Ou seja, veja primeiro a coluna que interessa, que é a dos preços. Então, basta ligar o nome à pessoa, e, em caso de decepção, levantar-se e cair fora, sem constrangimentos. Se o garçom fizer a gentileza de perguntar o porquê da saída extemporânea, não perca a oportunidade: Sofro de vertigens e me senti mal quando olhei os preços.

E Murilo Rocha continua, lembrando que virou moda falar do Custo Brasil, o peso que a absurda carga tributária e os encargos em geral colocam sobre os preços. Verdade, mas há, também, o Custo Ganância, instrumento que o comerciante utiliza frequentemente, com base na filosofia dele mesmo, de que talvez não haja amanhã neste mundo. Afinal, nunca tivemos terremotos devastadores nem tsunamis de arrasar tudo, mas... nunca se sabe, não é? E o Brasil, como país exótico que é, onde as leis de economia já nascem caducas, sempre teve por regra contrariar o princípio do comércio que manda ganhar pouco sobre muito. Nossos comerciantes querem mesmo é ganhar muito sobre pouco. Como se não houvesse amanhã...

Mudando os hábitos, quando ouvir: ‘Meu bem, onde nós NÃO vamos comer hoje?’. Saiba que essa é para quem curte o luxo e o requinte de comer em corredor de shopping.

Faço minhas as palavras de Murilo Rocha. E lanço meu grito de ordem – “Abaixo o $urreal”

Não derrubem o Rio!

É impressionantemente ordeira a festa de Ano Novo em Copacabana
por Edgard Catoira — publicado 03/01/2014 11h30, última modificação 03/01/2014 14h43

Duvido que alguém que se atreva a ler este texto não tenha tomado conhecimento do que foi mais uma festa de réveillon nas areias de Copacabana. Como sempre, a partir de meia noite, toneladas de fogos de artifício foram detonados, num esplendor que fez explodir a alegria de mais de dois milhões de pessoas que se abraçavam e beijavam, como acontece todos os anos, neste mesmo cenário – único.

No modorrento início do dia primeiro, o noticiário local chamava a atenção para a bagunça da cidade: sujeira nas praias, dificuldade para voltar para casa, tiroteio com direito a balas perdidas, assaltos.

Mas, espera um pouco: houve sim, antes da festa, um tiroteio. Aconteceu de um casal se desentender na rua e o marido partir para a mão grande contra a mulher. Um PM tentou ajudar e, durante a troca de tapas, o marido arrancou a arma do guarda e começou a atirar. Ou seja, um caso corriqueiro de polícia que nada tinha a ver com a festa de fim de ano. Portanto, nada a ver com o réveillon.

De resto, como em qualquer aglomeração, em Copacabana ou Paris, sempre haverá batedor de carteira. Eu mesmo – apesar de ter cara de imã de assalto, como diz meu filho – já tive que escapar de batedores de carteira em locais turísticos. Isso, em lugares tidos como tranquilos, como Madri, Florença ou Lisboa – onde, inclusive, levaram minha carteira.

Como se vê, até agora, nada de anormal na nossa festa carioca. E, repito, éramos mais de dois milhões de espectadores na praia. Claro que, acabado o espetáculo dos fogos, essa gente toda tinha que caminhar pelas ruas. Com dificuldade, claro. É deslocamento de multidão, num mesmo momento! Com calma, porém, todos saímos. Sem maiores transtornos, apesar de eu, particularmente, me sentir parte de uma boiada. Mas boiada feliz, sabe como é.

Mas as reclamações do dia primeiro continuam. A praia ficou suja.

Claro que ficou imunda. Todo mundo que estava lá levou champagne – ou cidra, ou cerveja e até cachaça. E garrafas, copos, restos, ficaram pelo caminho por onde passou a turba bovina. E, com um pouco de boa vontade dá para entender que nem todo mundo consegue chegar a uma lixeira no meio de tanta gente.

A verdade é que logo cedo, a praia estava limpa. A Comlurb, responsável pela coleta de lixo no Rio, é eficiente. E centenas de garis deixaram, até o fim da manhã, Copacabana em ordem.

Mas, o negócio é derrubar a grandiosidade desta cidade. Reclama-se do tempo – cerca de quatro horas – que se leva numa fila para tomar uma condução que leve ao Corcovado. Digo eu, espera aí. Em Paris, mesmo sem ser dia de festa, leva-se esse tempo para conseguir subir na Torre Eiffel. As filas são confusas também, e as figuras que ficam circulando entre a turistada têm semblantes pouco amigáveis.

Quanto ao Pão de Açúcar, a reclamação fica por conta dos horários disponíveis nos bondinhos. Muitos que chegaram cedo só conseguiriam subir na parte da tarde. Daí, me lembro de Santillana Del Mar, cidade medieval do Cantábrico, norte da Espanha, que tem cerca de quatro mil habitantes. Pois bem, nessa cidade ficam as famosas cavernas de Altamira, com pinturas rupestres que mostram a arte pré-histórica do homem. São desenhos de animais gravados nas pedras entre 35 mil e 11 mil antes de Cristo. Uma verdadeira Capela Sistina da arte paleolítica.

Tudo bonito, organizado, guiado. Mas, para visitar as cavernas, temos que comprar as entradas com antecedência porque os grupos se fecham com antecedência. Quem passar por lá desavisado, com certeza, não vai conseguir ver essa maravilha. E, lembro, a pequena cidade não oferece disponibilidade hoteleira para muita gente.

Sou de criticar o Rio, principalmente como me refiro a seus governantes. Mas o réveillon aqui é realmente algo imperdível. Estão até inventando que iria haver um “beijaço”. Houve. Aliás, como sempre há. É hora de beleza, espírito desarmado, quando todos estão felizes e cheios de esperanças.

Este mar abençoa, tira as energias negativas do ano que se acaba. Revitaliza a alma, faz a  vida recomeçar. E ela sempre recomeça melhor quando se está em Copacabana. Este lugar é mágico, maravilhoso.

Violência, desorganização, tudo passa ao largo da festa popular da praia mais querida – e bonita – deste planeta. Então, chega de reclamação e de mal falar!

Prefiro parodiar a musiquinha da Caixa: “Vem pra Copa você também. Vem”. No réveillon ou em qualquer época do ano.

É impressionantemente ordeira a festa de Ano Novo em Copacabana

Não derrubem o Rio!

por Edgard Catoira — publicado 03/01/2014 11h19

Duvido que alguém que se atreva a ler este texto não tenha tomado conhecimento do que foi mais uma festa de réveillon nas areias de Copacabana. Como sempre, a partir de meia noite, toneladas de fogos de artifício foram detonados, num esplendor que fez explodir a alegria de mais de dois milhões de pessoas que se abraçavam e beijavam, como acontece todos os anos, neste mesmo cenário – único.

No modorrento início do dia primeiro, o noticiário local chamava a atenção para a bagunça da cidade: sujeira nas praias, dificuldade para voltar para casa, tiroteio com direito a balas perdidas, assaltos.

Mas, espera um pouco: houve sim, antes da festa, um tiroteio. Aconteceu de um casal se desentender na rua e o marido partir para a mão grande contra a mulher. Um PM tentou ajudar e, durante a troca de tapas, o marido arrancou a arma do guarda e começou a atirar. Ou seja, um caso corriqueiro de polícia que nada tinha a ver com a festa de fim de ano. Portanto, nada a ver com o réveillon.

De resto, como em qualquer aglomeração, em Copacabana ou Paris, sempre haverá batedor de carteira. Eu mesmo – apesar de ter cara de imã de assalto, como diz meu filho – já tive que escapar de batedores de carteira em locais turísticos. Isso, em lugares tidos como tranquilos, como Madri, Florença ou Lisboa – onde, inclusive, levaram minha carteira.

Como se vê, até agora, nada de anormal na nossa festa carioca. E, repito, éramos mais de dois milhões de espectadores na praia. Claro que, acabado o espetáculo dos fogos, essa gente toda tinha que caminhar pelas ruas. Com dificuldade, claro. É deslocamento de multidão, num mesmo momento! Com calma, porém, todos saímos. Sem maiores transtornos, apesar de eu, particularmente, me sentir parte de uma boiada. Mas boiada feliz, sabe como é.

Mas as reclamações do dia primeiro continuam. A praia ficou suja.

Claro que ficou imunda. Todo mundo que estava lá levou champagne – ou cidra, ou cerveja e até cachaça. E garrafas, copos, restos, ficaram pelo caminho por onde passou a turba bovina. E, com um pouco de boa vontade dá para entender que nem todo mundo consegue chegar a uma lixeira no meio de tanta gente.

A verdade é que logo cedo, a praia estava limpa. A Comlurb, responsável pela coleta de lixo no Rio, é eficiente. E centenas de garis deixaram, até o fim da manhã, Copacabana em ordem.

Mas, o negócio é derrubar a grandiosidade desta cidade. Reclama-se do tempo – cerca de quatro horas – que se leva numa fila para tomar uma condução que leve ao Corcovado. Digo eu, espera aí. Em Paris, mesmo sem ser dia de festa, leva-se esse tempo para conseguir subir na Torre Eiffel. As filas são confusas também, e as figuras que ficam circulando entre a turistada têm semblantes pouco amigáveis.

Quanto ao Pão de Açúcar, a reclamação fica por conta dos horários disponíveis nos bondinhos. Muitos que chegaram cedo só conseguiriam subir na parte da tarde. Daí, me lembro de Santillana Del Mar, cidade medieval do Cantábrico, norte da Espanha, que tem cerca de quatro mil habitantes. Pois bem, nessa cidade ficam as famosas cavernas de Altamira, com pinturas rupestres que mostram a arte pré-histórica do homem. São desenhos de animais gravados nas pedras entre 35 mil e 11 mil antes de Cristo. Uma verdadeira Capela Sistina da arte paleolítica.

Tudo bonito, organizado, guiado. Mas, para visitar as cavernas, temos que comprar as entradas com antecedência porque os grupos se fecham com antecedência. Quem passar por lá desavisado, com certeza, não vai conseguir ver essa maravilha. E, lembro, a pequena cidade não oferece disponibilidade hoteleira para muita gente.

Sou de criticar o Rio, principalmente como me refiro a seus governantes. Mas o réveillon aqui é realmente algo imperdível. Estão até inventando que iria haver um “beijaço”. Houve. Aliás, como sempre há. É hora de beleza, espírito desarmado, quando todos estão felizes e cheios de esperanças.

Este mar abençoa, tira as energias negativas do ano que se acaba. Revitaliza a alma, faz a  vida recomeçar. E ela sempre recomeça melhor quando se está em Copacabana. Este lugar é mágico, maravilhoso.

Violência, desorganização, tudo passa ao largo da festa popular da praia mais querida – e bonita – deste planeta. Então, chega de reclamação e de mal falar!

Prefiro parodiar a musiquinha da Caixa: “Vem pra Copa você também. Vem”. No réveillon ou em qualquer época do ano.

Velhos & velhos

Ainda bem que sou parte de uma maioria que vive no melhor cenário do mundo
por Edgard Catoira — publicado 26/11/2013 17h10, última modificação 26/11/2013 17h27

Um amigo costuma dizer que Copacabana tem “muito de tudo”. É verdade. Velhos, então, nem se diga.

As estatísticas mostram, aliás, que Copa é o bairro que tem o maior índice de idosos do Rio de Janeiro. E a gente pode constatar que isso é verdade, apenas caminhando pelas ruas. Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, principalmente no trecho entre Siqueira Campos e Constante Ramos, a terceira idade reina. Nessa área, o conselho – de um também velho como eu – é nunca entrar em filas reservadas a eles em bancos ou lojas. Se houver mais de um na fila, é preferível entrar na normal. O idoso, em geral ciente de suas dificuldades, é lento. Verifica tudo, discute, confere. E, na hora de usar o cartão de crédito, digita como se estivesse numa velha máquina de escrever. Tecla lento, põe toda sua força em cada número que digita. Assim mesmo, muitas vezes erra. Mesmo a loira que, se na rua você trata como uma senhora se ofende, diante do caixa, usufrui das vantagens de ter idade. E confirma tudo se enganando no teclado, insistindo em guardar o cartão na bolsa para então pegar sua compra e sair. Claro que o próximo da fila, já mal humorado, vai repetir todo o mesmo ritual.

No metrô, o idoso também usufrui das benesses da idade, em geral sem ser percebido. Apenas “cola” seu cartão de gratuidade no local indicado na catraca, vê a luz verde e passa. O mesmo já não acontece em ônibus. Nessa hora é essencial ter jovens no ponto. Ou o motorista não para só para um velho. Para passar na catraca, diante de um cobrador que sequer o cumprimenta, também mais um constrangimento: encosta o cartão até que numa tela apareça o aviso de “gratuidade para idoso”. O cobrador, com olhar sisudo, concede destravar a catraca para o passageiro.

Na Avenida Atlântica, é uma festa. Muitos se reúnem com seus amigos nas esquinas. Os que podem, conversam. Outros ficam calados, enquanto seus acompanhantes contam as últimas dificuldades da vida, como foi a noitada de ontem.

Muitos caminham. Correm. Nesta hora, então, esquecem o senso do ridículo, circulando em trajes esportivos confeccionados para atletas com idades bem inferiores. Fazem parte do belíssimo cenário desta praia maravilhosa.

Observando essa gente na rua, fico me lembrando de minha tia Marina que, aos 90 anos, uma vez me disse que era muito chato ser velho. Como estava em perfeito estado de saúde e mentalmente era ainda jovem, comentei que ela estava reclamando de barriga cheia. Ela, segura de si, retrucou que não era bem assim. Suas amigas e primas já tinham morrido. Todas. Por isso, se sentia só. Quanto a seus sobrinhos, que sempre cultivaram sua inteligência, ela achava que apenas a suportavam, porque a conversa de velho, seu interesses, tudo, enfim, era outra coisa.

Claro que concordei. Até por isso cultivo muito os poucos velhos amigos – e amigos velhos – que me restaram. Ou me aproximo cada vez mais de minhas irmãs, meus primos. Realmente, melhor que os mais jovens, eles sabem o que sentimos, como somos. Entendem até as ranhetices comuns a todos os que estão na “melhor idade” – ainda capo quem inventou esse termo.

Um outro tio, Francisco, com ar professoral dizia, do alto de seus oitenta e tantos anos: “um jovem pode morrer, mas um velho deve morrer”. Até hoje – ou mais hoje do que nunca – isolo com três batidas na madeira. Sou um velho de Copacabana, ranheta, atrapalhado, chato, muitas vezes resmungão. Mas quero meu calçadão para caminhar, meu choppe para beber, meus amigos para trocar ideias. Sempre ao lado da mulher que sempre amei.

Assim, os famosos velhinhos de Copacabana vão vivendo, fazendo pilates e até frequentando academias de ginástica, implicando com tudo, mas cultivando seus amigos.Passam os dias e a gente continua a rotina neste velho bairro querido. Rosnando, mas livres e felizes.

Em tempo: obrigado, jovem Fernanda Montenegro, espírito vivo de que idade não é documento na hora de ser brilhante. Qualquer prêmio é pouco para esta atriz.

Crônica

Este é meu lugar

Apesar das dificuldades da cidade, amo ser um tupiniquim do Rio
por Edgard Catoira — publicado 20/11/2013 12h19, última modificação 20/11/2013 14h58

O fim de outono carioca anda imprevisível. O sol aparece, a temperatura fica senegalesca. Ou chove. Neste caso, torrencialmente.

O trânsito do Rio está cada vez mais caótico. É desanimadora qualquer ideia de sair, seja de carro, metrô, ônibus ou trem.

Mas a vida continua. Neste feriado da Consciência Negra, resolvi escrever sobre o acarajé, bolinho de feijão fradinho frito, comida oferecida a Iansã, no Candomblé. Sempre como o acarajé do Jae, na Praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana. Sua barraca fica bem na esquina da Rua Siqueira Campos. É, sem dúvida, delicioso e eu saboreio um ou dois cada vez que passo por lá, nos finais de semana.

Para minha tristeza, Jae não foi ao ponto hoje. Eu queria discutir com ele o desaparecimento desse quitute baiano que é perseguido por pessoas que rejeitam a religião africana. Sem problemas – eu voltarei ao assunto, em defesa dessa iguaria que faz parte de meus sabores prediletos.

Como viajo para o hemisfério norte ainda hoje, resolvi voltar para casa pela praia de Copacabana. Fiz mal. O dia está transparente, azul, quente. A praia está lotada de gente. O calçadão também, com as figuras que costumo encontrar sempre e muitos turistas. Tudo bem policiado, como deve ser.

Olho para a areia, sentindo a brisa do mar. Gente – bonita ou não – pratica esporte, caminha ou se espreguiça na praia. Barracas, vendedores de quinquilharias, bandeiras de todos os times de futebol, coloridas, fazem o contraste com o azul profundo de céu e mar. Nos cantos da praia, os fortes do Exército. É o cenário perfeito do paraíso onde vivo e que não verei nos próximos dias.

Cruzo com gente na Avenida Atlântica. A alegria toma conta. Sinto saudade de tudo que é meu: esta cidade, esta gente feliz. E assim, mando às favas as dificuldades que vivemos no dia a dia e os governantes que não amam o Rio como deveriam.

Saio para o aeroporto triste por abandonar, ainda que por duas semanas, este cenário privilegiado. Vou ver gente querida, tomar bons vinhos, rir e me emocionar por outras plagas não tropicais. Porém, com a consciência de que voltarei para minha velha Copacabana, onde voltarei a ver estas cores, bandeiras, pessoas, saboreando o acarajé do Jae. Afinal, aqui é meu lugar. No Rio é que sou feliz.

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