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Um bem-vindo atrevimento

por Antonio Luiz M.C. Costa publicado 07/06/2013 11h10, última modificação 07/06/2013 13h23
Metanfetaedro é apresentado como “a primeiríssima obra brasileira de um gênero inédito: o new weird”. Nesses termos, é exagero. New Weird combina temas de fantasia, terror e ficção científica
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Metanfetaedro

Metanfetaedro: fantasia onírica sobre o medo e a alegria de criar

É comum a literatura de fantasia e ficção científica pecar pela falta de ousadia. Demasiados escritores que adoram colocar seus personagens em situações terrivelmente perigosas se recusam a sair de sua zona de conforto e correr riscos como autores. São muitos os textos que não passam de variantes de best-sellers e blockbusters da moda.

Esse foi um erro que a autora de Metanfetaedro (Tarja Editorial, 232 páginas, R$ 43,99), fluminense que assina com o pseudônimo de Alliah, não cometeu. Cada um dos oito contos é deliciosamente atrevido ao criar seus mundos, personagens, linguagens e situações. O que não falta é garra e disposição de se aventurar para além das convenções da literatura de aventura.

O livro é apresentado na orelha como “a primeiríssima obra brasileira de um gênero inédito: o new weird”. Nesses termos, é exagero. O New Weird, que combina temas de fantasia, terror e ficção científica com uma linguagem criativa e situações socialmente realistas e perturbadoras, não é inédito, nem mesmo no Brasil. A própria Tarja já publicou tanto traduções de obras estrangeiras quanto contos de outros brasileiros que o cultivam (o conto “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas” de Jacques Barcia na antologia Steampunk, por exemplo). Mas esta coletânea tem mesmo o cheiro de novidade radical, ainda que não seja tão simples defini-la. Há uma vontade de subverter convenções e desafiar a imaginação do leitor que vai além do que se percebe em outros autores, inclusive o fundador do gênero, China Miéville.

Sem que lhe tirem o valor, as imperfeições da obra podem se resumir num só conceito: afobação. Falta de um pouco mais de cuidado artesanal com a escrita, por um lado, e ansiedade demais ao transmitir a mensagem, de outro. Alguns contos despejam mais ideias novas e neologismos do que a trama é capaz de aproveitar e sem aproveitar seu potencial. E embora a linguagem e a trama sejam tais que pressupõem um leitor inteligente e aberto a audácias, por vezes a autora quebra a coerência da trama e do imaginário para explicitar a mensagem com um discurso doutrinário ou alegorias óbvias demais, como se receasse que o leitor deixasse escapar a “moral” da história. A hesitação entre literalidade e metáfora poderia soar como insegurança, mas neste caso parece ser mais um sinal de urgência em se fazer entender pela multiplicação de níveis de linguagem.

O primeiro conto, “Moleque”, com um menino de rua traficado da África que tem como única amiga a poluída Iara da lagoa Rodrigo de Freitas, não comete esses deslizes. Um trecho:

O arlequim adiantou-se, pondo-se na frente da dupla e passou a acompanhar Mogul e Iara com passos para trás. Seu chicote enrolava-se e seu corpo, fundia-se à roupa de losangos vermelhos e pretos e renascia nalgum canto, sibilando e sumindo novamente:

– Ora, ora, ora, quem eu vejo por aqui... Iara, a rainha das águas! – exclamou, estendendo uma das mãos, para cumprimentá-la.

– Se ainda existissem águas que merecessem algum reinado... – resmungou a sereia, mal olhando para o Maestro e ignorando o cumprimento.

– Ouviu falar que o Boto agora é nosso sócio? Por que não se junta à nossa família? – indagou o arlequim com um sorriso de canto de boca.

– Eu quero! – respondeu o moleque, pulando de excitação e com aqueles olhos nojentos brilhando de uma maneira torta.

– Não falei com você, menino, desinfeta daqui! – disse rispidamente. Estou tratando de negócios com uma divindade, não com um ninguém.

Em “Uma cidade sonhando seus metais”, um personagem meio  humano, meio alguma outra coisa, tenta desvendar o que se passa com seu universo à beira do colapso e também mantém sem interrupções o clima de estranheza:

Assim que irromperam na superfície, após atravessar o estreito fossilizado e as camadas de salgareia, a dupla descortinou um cenário magnífico; As grandes anciãs, as xamãs da tribo dos manipuladores de moléculas, estavam sentadas numa roda, com seus corpos esbranquiçados formados por minúsculos grãos que se entrecruzavam num movimento infinito. Antropomóficas, sentavam-se de pernas cruzadas e mantinham os olhos fechados e a expressão serena.

Morgana Memphis contra a Irmandade Gravibramânica”, a protagonista é uma artista e celebridade com vocação para mulher de ação que enfrenta uma seita de fanáticos que perseguem alienígenas. O tom mais lúdico é bem-vindo no meio de uma coletânea tão carregada de tragédia, mas a trama sai um pouco prejudicada das alusões patentes demais a uma conjuntura local, – mais precisamente, do atual momento político do Rio de Janeiro – e dos discursos um tanto caricatos e redundantes dos personagens. Ser menos insistente provavelmente seria mais eficaz e daria mais universalidade à noveleta.

Os transaliens prisioneiros sufocavam no pequeno caixote energético que os mantinha isolados. Não recebiam explicações sobre por que estavam ali. Ninguém lhes falava de maneira clara. Eram apenas açoitados, humilhados e castigados continuamente, sob alegações de que suas impurezas contaminariam as pessoas de bem.

– Seus corpos extraterrenos são a materialização herege da corrupção extraplanetária que ronda as bordas do nosso Sistema Solar! – berrava uma das freiras quase todos os dias. – Só Brana sabe quantos mais existem lá fora, prontos a fincar suas garras imundas em nosso solo e absorver nosso sustento! Vocês são a escória! E não possuem o direito de se apropriar da essência masculina nem da feminina! Suas modificações corporais para roubar um gênero humano são vergonhosas e absurdas! Seus relacionamentos são nojentos e perversos! Espero que sucumbam com suas genitálias apodrecidas a lhes corromper todo o corpo!

Contemplafantasiação” é um belo conto de amor proibido entre duas entidade femininas, alienígenas e mitológicas ao mesmo tempo, uma das cavernas e outra da grama:

Era outono e eu restaurava folhas secas. Elas caíam aos milhares. Como chuva. Planavam, cor de caramelo, amarronzadas, quebradiças e frágeis. Eu as banhava em amarelo escuro, laranja avermelhado, bronze envelhecido. Molhei os dedos no potinho de aguarrás, absorvendo-o com ventosas e delicadamente tentei apagar algumas bordas borradas mas acabei me descuidando e derrubando o potinho no solo. O solvente derramou e foi bebido pela terra, que descoloriu gradualmente. Você riu, tímida, observando detrás de algumas cerejeiras. Aproximou-se para ajudar. Eu recuei temerosa, puxando a capa e o capuz negros que me cobriam. Você sorriu novamente, tão perto, tão palpável e, ao mesmo tempo, tão distante, intocável. Nossas espécies eram proibidas de manter contato que não fosse uma relação de servidão. Criatura espeleológica submissa a criatura apolófila.

Túpac Amaru III” parte de uma boa ideia, estranha e terrível: põe em paralelo o processo de espoliação de um país latino-americano – primeiro agrícola, depois mineral e por fim industrial – com as fases da destruição do cadáver de uma baleia por necrófagos no fundo do oceano. A dificuldade é que acrescenta mais um nível à metáfora – os personagens não são realmente indígenas andinos oprimidos por europeus e norte-americanos, mas um povo imaginário explorados por três ondas sucessivas de invasores alienígenas – e isso torna a história mais complicada e menos coerente. Por que invasores de espécies biologicamente tão diferentes dos nativos desejariam sexualmente suas mulheres? Por que usariam exatamente as mesmas políticas e tecnologias do imperialismo terráqueo? A hesitação entre a verdade da história e a verossimilhança da ficção, entre a alegoria e o símbolo, poderia ter sido mais bem resolvida.

Depois que o cadáver de baleia tem suas porções maiores de carne e gordura arrancadas, e os ossos aparecem grudados aos nacos restantes, uma segunda leva de carniceiros surge. Oportunistas necrófagos que incluem poliquetas e crustáceos e vermes-zumbis que se entranham pela ossada. As sobras são devoradas por uma miríade de pequenas criaturas aproveitadoras.

Mama Cocha fora descarnada de seus artifícios agrícolas. A terra tornara-se improdutiva após tanta flagelação monocultora. E quando os olhos famintos dos novos conquistadores livraram-se do ruído verde-amarelado que crescia nos campos, os grandes montes cinzentos acenaram ao longe. Terras metálicas sagradas, lar rochoso de deuses em incrustações brilhantes.

Ao contrário da maioria dos demais contos, “O Jardim de Nenúfares Suspensos” tem um tom quase utópico, mesmo se gira em torno de um assassinato por motivo fútil. Vislumbra-se um mundo meio futurista, meio fantástico. O “Jardim” é uma sociedade fascinante, anarquista e ecológica, apesar de não estar isento de sofrimento e de ameaças internas e externas.

– Você sabe quem matou Eff? – perguntei surpresa.

– Sem Rosto tirou a vida do rapazinho Eff. Uma ferrada na cabeça, pancada no crânio, espírito de rapazinho Eff escapando pela fenda no cocuruto.

Sem Rosto, aquele infeliz barbado que vagava sem refúgio pelo Jardim e se preocupava apenas em brigar e arranjar confusão. Senti um misto de nojo e raiva embrulhar nas entranhas. A morte ainda cheirava tão fresca e já pensava em vingança. Desci do Tapete Voador sem me despedir de Mr. Jones, que não disse nada e apenas voltou a colar a boca no sax.

O que infernos eu pretendia fazer? Ir atrás do desgraçado? Garantir justiça com as próprias mãos? Não diminuiria a dor de Dotty, tampouco a espinha de baleia que parecia atravessada na minha garganta. Merda! Quase tinha me esquecido da reunião do Centro de Autogestão do Jardim. Seria dali a pouco. Tínhamos algumas questões aborrecidas a resolver, e precisávamos organizar o encontro com os outros acampamentos. “Logo hoje, o dia em que não estou com a menor paciência para politicagem”.

Morgana Memphis Dividindo por Zero” traz de volta a heroína do terceiro conto. Desta vez ela e outros personagens têm poderes concedidos por tecnologias do futuro, tão extremos que o conto praticamente se torna uma história em quadrinhos de super-heróis. A trama, desta vez, corre mais solta e instigante ao evoluir segundo seu próprio ritmo e lógica, sem se preocupar tanto em deixar claras as lições sobre o aqui e agora. E sua mensagem, provavelmente, se torna mais eficaz.

Algumas iam mais longe e retiravam o útero. Morgana fez isso, e aproveitou a cirurgia para realizar algumas mudanças e adições. Começou uma terapia antirradicais livres para retardar o envelhecimento e passou por um processo de bioengenharia que a permitiu controlar racionalmente as funções de qualquer célula do corpo. Permeabilidades, transportes, proteínas, receptores, sinalizações, organelas, apoptoses, células musculares e nervosas. Tudo ao alcance do seu pensamento, como uma rede neural externa.

Os problemas começaram a surgir quando Morgana passou por uma segunda cirurgia, dessa vez numa clínica de ciberorganiformes, para conseguir transmutar-se numa nuvem de pura informação cibernética e depois voltar para seu corpo de origem. Os dispositivos entraram em conflito com a bioengenharia incrustada em suas moléculas e desestabilizaram a arquitetura de manipulação celular. Agora seu controle celular consciente era irregular e instável. Como consequência adicional, sofria de enjoos periódicos e era atacada por uma dor lancinante no ventre, acompanhada de variações bruscas de humor. Ironicamente, parecia uma TPM turbinada e incurável.

Metanfetaedro” soa como uma fantasia onírica sobre o medo e a alegria de criar, que desabrocha em inúmeros planos de significado. Faz um uso poético muito engenhoso da linguagem da geometria não euclidiana, da ciência e da mitologia – e termina a coletânea com um tom otimista, livre do tom de ansiedade e angústia que domina todos os demais contos.

Olhei para o horizonte e as sombras que o bar projetava no solo estendiam-se até o infinito num marrom escuro. Quando voltei o olhar para o bar, esbarrei num amontoado de folhas espalhadas pelo tampo do balcão. Eram meus desenhos e estudos de anatomia humana, hipergeometria e engenharia cinestésica.

Vasculhava meus papéis quando o Escafandrista deslizou um copo em minha direção. Dentro, um líquido azul da Prússia.

– Licor de frutas azuis – ele disse.