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Sonho europeu ou pesadelo fascista?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/01/2014 19h51, última modificação 09/01/2014 09h28
É preocupante encontrar uma mentalidade totalitária no coração de uma obra de ficção científica do século XXI
Encontro com o Destino

"Encontro com o Destino": do ponto de vista da imaginação científica, não é uma obra marcante

Encontro com o Destino, de Jean-Pierre Laigle, lançado em edição de bolso pela Devir em 2012 (128 págs., R$ 17,90), é um lançamento peculiar por ser uma ficção científica recente  de escritor estrangeiro, coisa muito incomum no mercado editorial brasileiro, é de um francês e não um anglo-saxão, o que é ainda mais raro e cuja tradução em português surgiu sem que o original tivesse sido publicado na França, o que é definitivamente insólito.

Como o autor foi editor e ensaísta da revista Antarès - Science-Fiction et Fantastique sans frontières de 1981 a 1996 e durante esse período publicou vários contos de autores brasileiros, inclusive André Carneiro, Walter Martins, Jorge Luiz Calife, Gerson Lodi-Ribeiro, Watson Portela e Roberto de Sousa Causo (coordenador editorial da Devir) é de supor que a publicação é o resultado de uma troca de gentilezas.

Do ponto de vista da imaginação científica, não é uma obra marcante. A ideia de uma nave geracional que leva humanos, flora e fauna da Terra para colonizar um novo planeta após uma viagem de séculos a outro sistema solar é tema de especulação desde o início do século XX, teve a primeira versão ficcional em 1940 e a obra não lhe acrescenta nada de interessante. Personagens, linguagem e enredo não são especialmente memoráveis ou bem construídos – nota-se, pelo contrário, certos vícios típicos de autor de ficção científica principiante, tais como diálogos pomposos e pouco naturais, sobrecarregados de informações sobre o universo ficcional e sem gestos, movimentos ou ambientação. Ainda assim, o texto é digno de certa atenção por sua carga ideológica e o que revela sobre os medos e esperanças de certas camadas da população europeia neste início do século XXI.

Após quase duzentos anos de viagem, a nave geracional Arca I, enviada por uma “União Paneuropeia” aliada a uma “União do Pacífico Sul” e uma “Confederação Lunar”, está a relativamente poucos anos de alcançar seu destino, um planeta do sistema Alpha Serpentis, quando é alcançada por uma nave militar enviada por um certo Monopólio Corporativista.

Apesar de apresentada como ficção científica hard, que enfatiza as ciências naturais e se proíbe despropósitos nesse campo, a obra admite três premissas difíceis de explicar. Primeiro, a escolha dessa estrela em particular, uma gigante alaranjada a 74 anos-luz que está no fim de seu ciclo de existência e tem pouca probabilidade de ter um planeta colonizável por humanos. Segundo, uma nave lançada muito depois da primeira tê-la alcançado sem demonstrar uma tecnologia tão superior que a resistência seria impossível. Terceiro, que alguém espere que uma nave gigantesca (transporta 115 mil passageiros e amplas reservas naturais de vida marinha e terrestre, de clima frio a equatorial) enviada a uma missão complexa, dispendiosa e minuciosamente calculada, tenha combustível sobrando para dar meia-volta pouco antes de chegar ao destino, como um carro num passeio de fim-de-semana.

Mas prossigamos. O que é realmente interessante, ou pelo menos sintomático, é o aspecto soft (político, social e histórico) da especulação. A Arca I é uma nave essencialmente europeia, a bordo da qual se mantém três línguas e culturas: lituano, “nordsprak” (uma suposta mistura futura dos idiomas escandinavos) e “bahasa malindsia”, derivado do malaio e do indonésio. Sua economia é controlada por um governo eleito, liderado por um triunvirato de senadores. A nave militar que a intercepta vem de uma Terra na qual as diferenças culturais foram abolidas em favor de uma sociedade controlada por um monopólio empresarial, cuja única língua é – por estranho que pareça – o árabe. A nave chama-se Macbarath (o que supostamente significa “mensagem” em árabe) e os tripulantes têm nomes árabes, embora a rigor não sejam sequer humanos e sim híbridos com genes de ursos para adquirir força sobre-humana e capacidade de hibernar em longas viagens, realidade que causa horror ao comando da Arca I, que partiu da Terra numa época em que tais experiências eram proibidas.

Esses humanoides transgênicos são escravos, propriedade do monopólio que os produziu em laboratório, os programou para serem fiéis a seus donos e lhes deu a missão de trazer a nave de volta, inteira, a qualquer custo. O ecossistema da Terra, que já degringolava quando da partida da Arca I, fora totalmente destruído nas guerras que impuseram a hegemonia do Monopólio Corporativo, a ponto de que até o oxigênio tem de ser produzido artificialmente. Os animais e plantas enviados a Alpha Serpentis têm agora um valor inestimável, do qual o Monopólio quer se apropriar para reconstruir o ecossistema terrestre à sua maneira. Em troca, oferece à líder da Arca I privilégios, dinheiro e um tratamento de regeneração celular que possibilita o rejuvenescimento e uma virtual imortalidade.

A Arca I não está indefesa: conta com quatro naves de escolta e põe-se a construir mais quatro. Ante a crise, a primeira-senadora Jûrate Nauronaité Kalonaityté (nome baseado no de uma antiga deusa lituana) a princípio apenas presidente de um triunvirato eleito, assume poderes ditatoriais. Primeiro com a sedução da gastronomia europeia, depois com captura e ameaça de morte, força o negociador do Monopólio a colaborar com ela e trair seu comandante, sendo por isso recompensado com o comando da Macbarath, depois que esta sofre graves danos e perde a maioria dos tripulantes. A única perda da primeira-senadora é uma das naves de escolta, destruída por ordem dela mesma ao recusar atacar a nave do Monopólio. Consegue até apoderar-se do equipamento de regeneração celular intacto.

O segundo e o terceiro senador, respectivamente  Garuda Sumargono Antonioni e Torshamr Johansni Declercq (assim como a líder, sempre referidos pelos nomes completos), representados como mesquinhos, corruptos e desleais, são afastados das decisões e jamais se cogita de consultar as centenas de demais representantes eleitos, muito menos a vasta população da Arca I sobre as decisões. Até o supercomputador Memória Prima, que controla a supernave e o cumprimento da missão, é passado para trás. A primeira-senadora só confia nos jovens militares que a obedecem sem discutir, inclusive seus próprios filhos, um dos quais morre na nave destruída por ordem da mãe e se dá o direito de ditar até mesmo os detalhes da “religião cósmica” que seus comandados deverão seguir.

É perturbador o mal disfarçado eurocentrismo embutido nessa narrativa. Uma nave relativamente democrática desafiada pelo poder de um monopólio empresarial poderia ser mero reflexo da ansiedade com a ameaça que a globalização e da concorrência de trasnacionais norte-americanas ou asiáticas representam ao bem-estar social europeu, mas a escolha de associar o inimigo à língua árabe sugere a influência de teorias conspiratórias de extrema-direita e da xenofobia populista, mesmo se o Islã não chega a ser citado. É difícil também ver como pura coincidência que todos os heróis tenham nomes puramente europeus e a única nave de escolta (Agni) e o único senador (Garuda) citados com nome não europeus (indianos ou indonésios) sejam traidores e que o negociador “monopolista” Antar Sandgren, que acaba por se aliar à primeira-senadora,  o faça em parte à herança genética “nórdica” (apesar da mistura ursina) e a ter sido criado em Götland, uma ilha do Báltico. Numa nota de rodapé, valeria a pena também mencionar que o destino é referido pelo rebuscado nome latino de Cor Serpentis e não pelo nome árabe, mais familiar aos astrônomos: Unukalhai.

Mais que isso, o discurso de sacrifício, militarismo e misticismo pagão que perpassa boa parte da história culmina, após a vitória da primeira-senadora, no que poderia ser considerado um quase manifesto neofascista, expresso no diálogo entre Antar e Jûrate, no qual esta garante a seu aliado que permanecerá no poder para sempre:

– Talvez haja um problema. Tire-me uma dúvida. É a Primeira Senadora, mas continuará sendo?

– Continuarei a concentrar todos os poderes do estado de alerta, Comandante – ela respondeu, sorrindo. – Os próximos séculos não serão dedicados só à colonização e defesa do sistema de Cor Serpentis, mas à reação contra o Monopólio Corporativista. A Memória Prima me ensinou que uma tarefa como esta não deve ser vista como obra de regimes sucessivos e transitórios, mas como o prolongamento de uma vontade única e contínua, que deve inspirar e coordenar o pensamento e a energia de todo um povo. Ela já sobreviveu a coisa pior.

– Bravo, Senadora. O Monopólio Corporativista terá um adversário duro. Muito bom. E eu terei sempre o mesmo interlocutor. A senhora e eu somos aliados e estamos unidos. Temos um longo caminho a percorrer juntos. Eu temia que o tivéssemos de percorrer sozinhos. Nossos povos não sabem o que os espera. Desconhecem nossos projetos, que no entanto são necessários. Não estão preparados, e teremos que conduzi-los. Isto preencherá nossa solidão.

Muitas vezes, a ficção científica expressa os receios sobre os perigos do futuro e adverte contra o totalitarismo, mas não é o caso. Trata-se de um discurso triunfalista que reflete o ponto de vista do narrador e há poucos clichês nazi-fascistas que não estejam citados nesse breve trecho, que com alguns ajustes poderia ser um diálogo imaginário entre Mussolini e Hitler ao fundar o Eixo: temos aqui o Triunfo da Vontade, o Reich de Mil Anos, a necessidades das massas despreparadas, “que não sabem votar”, serem conduzidas por Duces e Führers totalitários em nome de projetos que ultrapassam sua compreensão. É mais que preocupante encontrar essa mentalidade no coração de uma obra de ficção científica do século XXI.