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Como se desaprende a desver?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 15/12/2014 19h31, última modificação 17/12/2014 10h43
'A Cidade & A Cidade' é estranhamente fantástico sem envolver magia ou tecnologias futuristas, antes, pode ser considerado uma ficção científico-antropológica
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Pensador de esquerda, China Miéville revolucionou a literatura especulativa

É interessante uma editora como a Boitempo, voltada para ciências humanas e filosofia, principalmente marxista, começar a publicar obras de ficção. Mais curioso ainda escolher não algum clássico do futurismo russo ou do realismo socialista, mas uma obra britânica de ficção científica de 2009, quando as editoras tradicionalmente voltadas para esse gênero, como a Aleph, ignoram quase tudo que tem sido publicado no exterior depois dos anos 1970.

Mas faz, no fundo, todo o sentido. China Miéville é um pensador de esquerda, com uma tese sobre marxismo e direito internacional e uma história de militância política (até 2013 no trotskista Socialist Workers Party e depois no eclético Left Unity), além de revolucionar a literatura especulativa desde 1998 com uma série de contos, romances e ensaios literários com os quais fundou uma nova corrente, o New Weird, e propôs explicitamente um novo tipo de ficção política e socialmente consciente, mesmo sem ser panfletária. Seu primeiro romance, Rei Rato (1998), foi publicado no Brasil pela pequena e já desaparecida Tarja Editorial e resenhado em Um Esopo para o Século XXI.

A Boitempo se propõe a editar outros, inclusive a trilogia de Bas-Lag (Perdido Street Station,  The Scar e Iron Council, 2000-2004), mas começou por A Cidade & A Cidade (292 págs., R$ 45), seu sétimo romance. Trata-se de um policial em um cenário que poderia ser considerado de ficção científico-antropológica, pois é estranhamente fantástico sem envolver magia e tecnologias futuristas ou alternativas. Trata-se de um par de cidades-estados imaginárias da Europa Oriental chamadas Beszel e Ul Qoma, situadas em um estuário (do Danúbio?) aparentemente junto ao Mar Negro e perto da Bulgária e Romênia. Talvez não seja irrelevante que Beszel, signifique “fala” em húngaro e Qoma, “chão” em hebraico.

O peculiar é que essas cidades falam línguas diferentes, têm sistemas econômicos, políticos e ideológicos opostos e uma história de rivalidades e hostilidades, mas não apenas são vizinhas, como têm territórios sobrepostos. Existem áreas puramente “besz” e áreas “ul-qomanas”, mas a maior parte da ação (e a mais interessante) se dá em áreas “cruzadas”, que pertencem simultaneamente às duas e pelas quais cidadãos dos dois Estados circulam diariamente, esforçando-se ao máximo para ignorar a existência uns dos outros. Aprendem desde cedo a “desver” e “desouvir” os estrangeiros, mesmo se moram em casas vizinhas, fazem compras na loja ao lado, andam nas mesmas calçadas e dirigem seus carros nas mesmas ruas.

Se um besz precisar falar com um ul-qomano que mora ao lado, precisa fazer uma ligação internacional. Para visitá-lo, tem de entrar na “Copula”, construção central que serve de conexão entre as duas cidades, apresentar passaporte à imigração e retornar ao mesmo espaço físico, invertendo seus hábitos para desver e desouvir os próprios concidadãos e mover-se apenas na cidade estrangeira. Quem desobedece e faz contato direto com pessoas e objetos do Estado vizinho é imediatamente sequestrado ou eliminado por uma entidade misteriosa conhecida como “Brecha”, encarregada de manter a separação a qualquer custo.

O protagonista e narrador, Tyador Borlú, é um investigador da polícia de Beszel encarregado de esclarecer o assassinato de uma jovem que inicialmente pensa ser uma prostituta, mas descobre tratar-se de uma arqueóloga estadunidense que trabalhava numa escavação em Ul Qoma e pretendia desvendar a origem da separação entre as cidades e o que existia entre elas. O aspecto detetivesco noir da trama não é particularmente inspirado ou eletrizante, mas funciona bem como pretexto para o investigador explorar as duas cidades e a “Brecha” e expor ao leitor a complexidade kafkiana dessa realidade alternativa.

É um cenário mundano e moderno do início do século XXI, os problemas pessoais, sociais e políticos são realistas e o lado peculiar do cenário não é tão absurdo. Em muitas cidades reais, a existência lado a lado de populações, poderes e realidades que se esforçam por não ver uma à outra é rotina. Considere-se, por exemplo, a coexistência da cidade das favelas, tráfico e milícias e de uma cidade maravilhosa da classe média, dos turistas e dos espetáculos no mesmo Rio de Janeiro, frequentemente separadas por uma esquina, ou nem isso. O cenário deste romance apenas leva essa possibilidade ao extremo.

A maioria dos romances de Miéville é ambientada em estranhas cidades imaginárias, das quais esta talvez seja a menos fantástica e mais insólita. Muitos leitores acostumados com o Old Weird acharam mais difícil suspender a descrença nesta obra, em que a barreira entre as cidades existe apenas na cultura e mente dos seus cidadãos, do que em outras nas quais a existência de mundos paralelos é “explicada” pela magia, à maneira do Beco Diagonal e da Plataforma 9¾ das histórias de Harry Potter, ou por “portais dimensionais”, como os da série de ficção científica Stargate. E ficam intrigados: afinal, o que isso significa?

Não é exatamente uma distopia, pois a vida nas duas cidades não é apresentada como particularmente terrível ou desumana.  Beszel é uma democracia corrupta, e economicamente estagnada e sedenta de investimentos estrangeiros que lembra países do sul e leste da Europa em crise e Ul Qoma combina um regime autoritário, pós-socialista e hostil aos EUA com uma economia aberta e em rápida modernização, como a China moderna, mas esses aspectos não são centrais à história. Existem nacionalistas um tanto fascistas que pregam a supremacia de sua cidade e a anexação da vizinha e também há unificacionistas um tanto anarquistas que sonham derrubar os dois governos e a Brecha para unir os dois povos, mas isso é no máximo uma pista.

Seria indevidamente redutor tentar interpretar este romance como uma alegoria com um significado unívoco, mas seria um erro ainda maior julgá-lo apenas uma história fantástica, até porque a narrativa existe apenas para explorar sua ideia central. Entre as leituras possíveis, este resenhista destacaria a reflexão sobre o tema de como a ideologia se baseia em cegueira e autoengano voluntários, embora condicionados pela educação e pelo medo de sanções como a exclusão social. A separação entre Beszel e Ul-Qoma evoca o receio ou recusa a considerar a perspectiva alheia em questões sociais ou a questionar dicotomias de nação, classe, raça, gênero, sexualidade e outras. A “Brecha” faz pensar na mídia e nos intelectuais que compreendem o caráter artificial e arbitrário dessas distinções e podem ver além delas, mas as consideram indispensáveis para manter a ordem entre as massas das quais se afastaram e à quais não podem retornar, por não ter como desaprender o que descobriram.

É preciso fazer uma advertência quanto à tradução. Miéville quis dar ao texto, narrado em primeira pessoa, a voz peculiar de um estrangeiro com os deslizes gramaticais e estilísticos típicos de um homem do Leste Europeu ao falar ou escrever em inglês. Acontece que um alemão, húngaro ou eslavo ao se exprimir em português cometeria equívocos diferentes. O tradutor, ao tentar recriar as idiossincrasias do original em português, dá menos a impressão de um sotaque estrangeiro do que a de um falante nativo inculto ou descuidado. Vale a pena, porém, desver e desouvir esses pequenos tropeços para enriquecer a própria perspectiva com esta reflexão sobre a natureza relativa e limitante dos pontos de vista. Uma amostra:

"Eu não, mas quem não seria tentado a queimar ou picar em pedacinhos as anotações daquela conversa? Claro que eu não faria isso, mas... Fiquei sentado até tarde na mesa da minha cozinha, com elas espalhadas à minha frente, escrevendo distraído merda/merda por cima delas de vez em quando. Coloquei música: Little Miss Train, uma parceria, Van Morrison duetando com Coirsa Yakov, a Umm Kalszoum de Beszel, como era chamada, na turnê de 1987. Bebi mais e coloquei a foto de Marya Fulana Desconhecida Estrangeira Rompe-Brechas Detail ao lado das anotações.

Ninguém conhecia ela. Talvez, Deus nos ajude, ela não tivesse estado propriamente em Beszel afinal, embora Pocost fosse uma área total. Ela podia ter sido arrastada para lá. Os garotos encontrando o corpo dela, toda a investigação, isso podia ser brecha também. Eu não devia me incriminar levando isso adiante. Devia talvez apenas me afastar da investigação e deixar ela apodrecer. Foi escapismo por um momento fingir que eu podia fazer isso. No final, eu faria o meu trabalho, embora fazê-lo significasse quebrar um código um protocolo existencial de longe mais básico do que qualquer outro que eu fosse pago para defender.

Quando crianças, costumávamos brincar de Brecha. Nunca gostei muito desse jogo, mas aceitava minha vez me esgueirando sobre linhas marcadas por giz e sendo caçado pelos meus amigos, seus rostos em expressões assustadoras, suas mãos curvadas em forma de garras. Eu também fazia o papel do caçador, se fosse a minha vez de ser invocado. Isso, juntamente com puxar paus e pedras do chão e afirmar que eram o veio principal da magia besz, e a mistura de pique e esconde-esconde chamada Caça aos Insilados, eram jogos comuns."