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Economia

Bitcoin, a TelexFree dos ricos, cultos e descolados?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 26/08/2014 10h56, última modificação 26/08/2014 14h59
A moeda virtual é semelhante ao padrão-ouro, e só é pouco questionada por conta da ignorância mútua entre economistas e especialistas em tecnologia
Stephanie de Sakutin / AFP
Bitcoin

Imagem de 20 de junho mostra recibo de bitcoin na La Maison du Bitcoin, em Paris. Em 2014, a moeda virtual perdeu mais da metade de seu valor

Cresce o número de “empresas de marketing multinível” que oferecem dinheiro fácil com bitcoin. Promovem alguma “criptomoeda” de nome exótico, supostamente “mineradas” por computação de maneira análoga ao bitcoin original. Quem se inscreve como divulgador recebe certo número de moedas e deve convidar amigos para fazer o mesmo. Cada um recebe outras tantas moedas e quem os indicou recebe outras mais. Supostamente, essas moedas poderão ser eventualmente usadas como dinheiro ou trocadas por bitcoins propriamente ditas.

Esse é evidentemente um dos casos em que “marketing multinível” é mero eufemismo para “pirâmide”. Mais cedo ou mais tarde, os novos inscritos descobrirão terem sido fraudados: ou deixarão de receber as criptomoedas prometidas ou descobrirão que elas não valem mais coisa alguma. Mas o que dizer do bitcoin original e suas imitações mais sérias, como o litecoin?

Inventado por um programador com o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, os bitcoins começaram a ser produzidos em janeiro de 2009. Ainda em 2010, 10 mil deles valiam 50 dólares. Em 2011, o bitcoin atingiu a paridade com o dólar, mas o uso continuou restrito a aficionados e seu valor modesto, não mais que uns poucos dólares, até o início de 2013, quando se tornou uma febre. Cada bitcoin passou a valer centenas de dólares, com um pico de 1.125 dólares em novembro e 70% das transações eram movimentadas pela bolsa Mt. Gox, baseada no Japão e lançada em julho de 2010.

A cotação se mantinha em torno de 800 dólares no início de 2014. Então, em fevereiro, a Mt. Gox fechou sem aviso ao admitir ter perdido 850 mil bitcoins – cerca de 7% do “meio circulante” dessa moeda, no valor de mais de meio bilhão de dólares – aparentemente surrupiados há anos sem que a instituição se desse conta. Visto que a criptomoeda e suas instituições não têm proteção de nenhum governo, os prejudicados não tiveram a quem recorrer quando da liquidação. Desfez-se um dos mitos em torno do bitcoin – a suposta segurança – mas alegou-se que isso não comprometia o princípio da criptomoeda, assim como um assalto a banco não invalida as moedas tradicionais. De qualquer forma, o entusiasmo esfriou um pouco. A cotação do bitcoin caiu a menos de 400 dólares, recuperou-se um tanto no meio do ano e hoje gira em torno de 500 dólares, embora muitas empresas tenham passado a aceitá-la e novas aplicações tidas como legítimas tenham sido anunciadas durante o ano.

O fato de que uma “moeda” não garantida por qualquer governo ou lastro represente hoje uma massa monetária de 6,5 bilhões de dólares (há hoje pouco mais de 13 milhões de bitcoins) é em si intrigante, principalmente do ponto de vista da teoria monetária ortodoxa, aceita pela grande maioria dos economistas do século XIX e XX, que condenava ao colapso qualquer moeda não devidamente lastreada por metal precioso. Mas é sustentável? Uma moeda cujo valor repousa unicamente na expectativa de que outro agente privado a aceite por valor igual àquele pelo qual foi adquirida não seria análoga a uma pirâmide, destinada a desmoronar mais cedo ou mais tarde quando se perceba que não se apoia em coisa alguma?

Ou pelo menos análoga às ações de empresas da bolha ponto.com que evaporaram na virada do milênio ao se perceber que seu lucro jamais atingiria as infladas expectativas? Em janeiro de 2014, 56% dos usuários de bitcoin acreditavam que a moeda chegaria a 10 mil dólares ainda em 2014. Essa expectativa foi adiada para 2015, pelo menos, mas é possível encontrar pela internet analistas que preveem com base em hipóteses arbitrárias que o bitcoin valerá 100 mil dólares ou mesmo um milhão antes de 2020. Impossível não se nos fins dos anos 1990, quando o índice Dow Jones ultrapassava pela primeira vez os 10.000 pontos, quando best-sellers financeiros aconselhavam apostar em um “Dow 30.000” até 2007 ou “Dow 100.000” até 2020. Na realidade, o índice sofreu o impacto das crises de 2001 e 2008 e caiu a 7 mil até fevereiro de 2009. Desde então, retomou uma rápida escalada e está hoje em 17 mil, mas com indícios crescentes de que há uma nova bolha prestes a estourar.

Por trás do Dow Jones existe um mínimo de substância concreta: os dividendos pagos pela maioria das sociedades anônimas. As fantasias de supervalorização a médio prazo repousavam em uma expectativa irreal de crescimento da economia e da participação do lucro das grandes empresas no PIB, mas ao menos se podia confiar que existe um piso, pois a maioria continuaria a pagar alguma coisa. No caso das moedas tradicionais, existe no mínimo a garantia dos governos de aceitá-las no pagamento das taxas e impostos que representam uma parcela substancial da economia e usá-las para pagar suas despesas. No caso do bitcoin, não há nada desse tipo. A expectativa de valorização da criptomoeda repousa única e exclusivamente na expectativa de que ela substitua as moedas tradicionais numa fatia significativa das transações hoje realizadas por seu intermédio, ou mesmo totalmente. O quanto isso é razoável?

A ideologia por trás do bitcoin e da maioria dos seus similares é a do libertarianismo, dentro do espectro que vai do “Estado mínimo” ao anarcocapitalismo puro e simples. A ideia é que um algoritmo computacional supostamente inalterável e inviolável é mais “confiável” que um governo para respaldar uma moeda. Não só cada bitcoin é produzido e rastreado por computação de forma a impedir sua duplicação e falsificação (o equivalente digital da marca d’água e outros recursos contra falsificação do dinheiro de papel), como o algoritmo garante que sejam produzidos em uma escala rigidamente limitada. Jamais poderão ser criados mais de 21 milhões de bitcoins, 62% dos quais já existem.

É uma singular combinação de tecnologia ultramoderna com uma concepção antiquada de moeda, na prática muito pouco diferente do padrão-ouro do século XIX. Que tenha sido, até agora, pouco questionada é um sintoma de que os especialistas em tecnologia são tão ignorantes do debate econômico moderno quanto os economistas da informática do século XXI. A ampliação continuada da base monetária por governos era então o que se considerava “inflação”, independentemente do seu impacto real sobre os preços. E um mal em si, uma espécie de pecado original da economia que se tornou uma tentação irresistível para os governantes desde que os mercados saíram do jardim do Éden do escambo primitivo e morderam o fruto proibido da moeda cunhada pelos reis para agilizar suas transações.

Se outros entusiastas da tecnologia se propõem a obter a imortalidade por meio de um upload da consciência humana em computadores ou anunciam a próxima chegada da utopia pela aceleração exponencial do desenvolvimento tecnológico na “singularidade” (a versão geek do arrebatamento dos fundamentalistas evangélicos), os criadores do bitcoin, mais modestos, querem “apenas” dar cabo da inflação, dos impostos e da interferência dos governos nos mercados. O bitcoin é mais um exemplo do chamado “solucionismo”, a busca de maneiras rápidas e práticas de resolver problemas que precisam de profunda análise teórica para serem devidamente compreendidas e formuladas. Conforme um dito atribuído ao jornalista estadunidense H. L. Mencken, para toda questão complexa sempre há uma resposta clara, simples e errada, mas neste caso sequer se trata disso: responde à pergunta errada.

Em primeiro lugar, os governos são hoje responsáveis diretos apenas por uma pequena parcela do meio circulante. Nos EUA, por exemplo, existe pouco menos de um trilhão de dólares na forma de moedas, cédulas ou depósitos no Fed, mas a massa monetária é da ordem de quinze trilhões e o total das dívidas públicas e privadas (potencialmente dinheiro, com maior ou menor liquidez) é de 60 trilhões. Bem mais de 90% da massa monetária é hoje criada pelos bancos privados, ao emprestar e reciclar os depósitos recebidos. Um Banco Central pode procurar regular a quantidade de dinheiro e velocidade de circulação por meio da manipulação da taxa de juros, da imposição de depósitos obrigatórios em suas contas e da compra e venda de títulos de dívida, mas de forma alguma se trata de uma decisão unilateral. No mundo moderno, o dinheiro é criação do sistema financeiro privado, regulamentado apenas parcialmente por um Banco Central fortemente influenciado (no mínimo) por seus interesses.

Em segundo lugar, uma inflação moderada e previsível não é um mal em si, muito pelo contrário. Nenhuma economia capitalista moderna tem como objetivo uma inflação zero. Pelo contrário, essa é uma séria ameaça associada à estagnação e ao desemprego, como se viu no Japão desde 1992 e agora ameaça se reproduzir na Europa. Inflação zero, ou pior, negativa, incentiva o entesouramento e o rentismo e desestimula o investimento nos riscos da produção e do comércio.

Uma inflação moderada, da ordem de 2% ao ano nos países mais ricos (e logicamente maior nos emergentes), é hoje geralmente vista como o ideal para uma economia saudável, que desencoraja o entesouramento e proporciona certa flexibilidade a preços e salários. Inflação zero e deflação só interessam a credores e detentores de rendas fixas que veem suas rendas reais crescerem sem que precisem mover um dedo, à custa do desempenho da economia e da opressão e eventual falência dos devedores. Mesmo em tempos mais antigos, a tentativa de evitar a desvalorização da moeda ante pressões incontroláveis (crise, pragas, guerra) levou a resultados catastróficos, como foi exemplo a crise de 1929, produto da tentativa de restaurar o padrão-ouro após a I Guerra Mundial.

O bitcoin, caso se tornasse de fato a moeda predominante, seria precisamente uma garantia não só de inflação zero, como de deflação ilimitada ao contrapor uma massa monetária rigidamente fixa a uma economia em expansão continuada. A menos, é claro, que o crescimento econômico se detivesse, o que seria o fim do capitalismo.

Na prática, é muito improvável que isso aconteça, devido a um fato monetário bem atestado desde o tempo do Império Romano: a Lei de Gresham, geralmente formulada como “A moeda ‘ruim’ tende a expulsar do mercado a moeda ‘boa’”. Se existe uma moeda mais sujeita a desvalorização, é essa que vai ser usada nas transações comerciais, enquanto aquela “imune à inflação” sai de circulação para ser guardada debaixo dos colchões como tesouro. A moeda ideal não deve ter quantidade eternamente congelada, nem sequer valor permanentemente estável, mas sim ser racionalmente ajustável às necessidades da economia.

Essa é a principal razão pela qual e se pode afirmar que as expectativas em torno do bitcoin são exageradas. Mais cedo ou mais tarde, isso será compreendido e seu valor se ajustará a um papel marginal na circulação monetária – um meio para transações em um “mercado cinza” mais ou menos tolerado pelos governos, assim como as notas de 500 euros – ou entrará em colapso. Pior ainda para as imitações que se multiplicam sem controle.