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Apocalipse zumbi, um pesadelo de classe média

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 04/11/2014 10h32, última modificação 04/11/2014 10h39
Em um dos momentos de sensacionalismo desbragado, a presidenta Dilma Rousseff, reeleita em 2014, é atacada por um Lula transformado em zumbi
Divulgação
Rodrigo de Oliveira

As obras de autoria de Rodrigo de Oliveira

Poucos dias antes do segundo turno das eleições brasileiras, as redações receberam o release e exemplares de dois lançamentos de uma pouco conhecida Faro Editorial, de autoria de Rodrigo de Oliveira, intitulados O Vale dos Mortos (304 págs., R$ 34,90) e A Batalha dos Mortos (312 págs., R$ 34,90) e anunciados como os primeiros de uma série de cinco livros.

Trata-se de mais uma longa história de “apocalipse zumbi”, neste caso a ser deflagrado pela aproximação do misterioso planeta com o qual mais de um pseudoprofeta oportunista fez fama ao vender livros ou fundar seitas para advertir sobre o fim do mundo em 2012, adiado nesses livros para 2017.  Desfila o costumeiro abuso de sangue, mutilações e violências e todos os demais clichês do gênero, com uma escrita de modo geral correta, mas monótona, redundante e pouco inspirada. Uma amostra do Capítulo 6, quando o protagonista, homem branco, analista de sistemas e pai de família bem comportado, se afirma ante o grupo de sobreviventes refugiados num shopping do Vale do Paraíba:

“De uma forma muito natural Ivan se tornou o líder. Era o único que tinha experiência militar e não havia dúvidas de que era o mais valente de todos. Estela era sua grande conselheira; Ivan a consultava em tudo. Não era apenas um costume vindo da vida de casado, ele realmente a considerava uma das pessoas mais inteligentes e sensatas que conhecera. Se havia alguém a quem Ivan entregaria decisões sobre sua própria vida esse alguém era Estela.

Transformaram lojas em dormitórios usando sofás, colchões e cortinas. Assim, Ivan e a esposa conseguiram ter um pouco de privacidade junto com os filhos. Às vezes, recolhiam-se mais cedo e jogavam algum jogo com as crianças, exatamente como faziam quando as coisas eram normais.

Conseguiram televisores, aparelhos de DVD, aparelhos de som, DVDs, CDs, videogames etc. Por diversão, Ivan chegou a improvisar uma sala de estar na loja que usavam de dormitório, onde ele e Estela às vezes assistiam a um filme ou um show juntos.”

Não se poderia pedir algo mais ridiculamente banal. Mas o livro tem seus momentos de sensacionalismo desbragado, um dos quais serviu à editora como gancho para chamar a atenção dos jornalistas: nele, a presidenta Dilma Rousseff, reeleita em 2014, é atacada por um Lula transformado em zumbi:

“O Lula carismático e dos discursos inflamados, mas também o responsável por um dos governos mais cercados de escândalos de corrupção da história do Brasil. Esse Lula não existia mais. O que havia agora era uma criatura grotesca, que saía da sala se apoiando na porta, sem conseguir se mover direito. A boca espumava como a de um cão raivoso, e deixava à mostra os dentes arreganhados, formando uma careta demoníaca.

Quando a presidente viu aquilo, como reflexo, tentou fugir. Mas nem conseguiu sair do lugar, pois ele a agarrou pelos cabelos e a jogou contra a parede, derrubando dois quadros modernistas extremamente caros.

A presidente caiu de bruços no chão, batendo o rosto contra o piso de granito. Sentiu uma dor aguda no nariz fraturado, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. Nem mesmo quando fora presa e torturada durante a ditadura militar sentiu tanto terror. Pensou na filha, na neta, na viagem pela Europa que prometera a si mesma tão logo o mandato terminasse. E sentiu tristeza; no íntimo entendeu que sua vida acabaria ali.

Quando Lula a agarrou pelos cabelos e mordeu sua jugular com violência, a presidente gritou de agonia, sem que ninguém aparecesse para ajudá-la.”

Com todas as suas obviedades e insistências, o texto acaba por ser muito revelador  ao expor de forma ingênua e transparente o subconsciente de certa classe média brasileira autointitulada “gente de bem”. Não consegue deixar de pensar em eletrônicos de consumo nem nas situações mais extremas, nem deixar de supor que aquilo com que uma líder nacional à beira da morte mais se preocupa é com a perda de uma viagem à Europa. Julga-se dona da moral, da razão e do direito inato de dar ordens. Ivan, quando não está ocupado com esmagar cabeças de zumbis, está se impondo a outros sobreviventes, sempre de classes subalternas ou não tão bem sucedidos na carreira e no casamento. No segundo livro, trata de se impor a um grupo de sobreviventes foragidos do presídio de segurança máxima de Taubaté.

Dentro do atual clima político e social, não há de ser por acaso que Lula surge se não como o primeiro zumbi da trama, pelo menos como o primeiro de nome conhecido. A cena não funcionaria da mesma maneira caso os personagens fossem FHC e Aécio, embora a eleição deste fosse perfeitamente possível quando da edição e divulgação do livro.

Outros líderes, como o presidente chinês Xi Jinping, o francês François Hollande e o suposto presidente dos EUA em 2018, Peter Shumlin (hoje o governador democrata do pequeno estado de Vermont), são citados como vítimas, mas Lula é o único a se tornar zumbi. Na medida em que representa em certa medida (bem maior no imaginário paranoide dos privilegiados do que na realidade) os interesses desses excluídos e um desafio à autoimagem de superioridade e competência da classe média tradicional, sua identificação com os zumbis se torna, nesse contexto, bastante apropriada. Se Dilma surge como vítima e não algoz é que autor vê nela menos uma petista que uma profissional de classe média que tentava “imprimir diretrizes voltadas à experiência administrativa, às melhores práticas e à meritocracia. Não se enxergava como política, mas como a gestora de uma grande empresa chamada Brasil”.

Cada época expressou na ficção de horror sua própria ansiedade apocalíptica. No início do século XIX, à sombra da Revolução Francesa, o monstro do Dr. Frankenstein refletia a ameaça das perigosas classes populares do Terceiro Estado, reunidas num monstro invencível pelas ideias de intelectuais iluministas dispostos a transformar o mundo. Mais para o final da era vitoriana, o vampiro representava o temor do decadente Império Britânico com o surgimento de novas ideias e novas potências na Europa. Nos anos 1920 e 1930, o fantasma de uma rebelião mundial de robôs (em R.U.R., de Karel Capek) ou liderada por um robô (como no filme Metropolis) refletia a ansiedade com a revolução operária despertada pelo outubro de 1917 na Rússia. Nos anos 1950 e 1960, a paranoia macarthista com a ameaça soviética, a infiltração comunista e o mito da “lavagem cerebral” da juventude tomou a forma ficcional de conquistadores alienígenas, invasores de corpos e extraterrestres manipuladores.

A partir do final do século XX, com o fim da Guerra Fria, foco da principal fobia política e social do Ocidente passou a ser os excluídos, a soma de minorias raciais, sem-teto, imigrantes, classes subalternas e precariado em geral, do qual as classes médias se escondem nos falsos paraísos dos condomínios fechados e shoppings, precisamente os refúgios dos sobreviventes do apocalipse de Rodrigo de Oliveira, nos quais “televisores, aparelhos de DVD, aparelhos de som, DVDs, CDs, videogames etc.” os ajudam a fugir da realidade enquanto defendem com unhas e dentes os privilégios que lhes restaram em nome da “meritocracia”. Uma leitura traz uma revelação de interesse psicossocial praticamente a cada página, se não a cada parágrafo.