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Internacional

Análise

A Rússia não tem medo de ser Mordor

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/12/2014 05h34
O Olho de Sauron não será construído em Moscou, mas o governo Putin não teme a pecha de vilão ao expor o seu ponto de vista sobre o mundo
Reprodução / RT.com
Olho de Sauron

Os arranha-céus de Moscou seguirão sem o Olho de Sauron...

Com um tablet ou smartphone, é possível ver o Olho de Sauron, de O Senhor dos Anéis, flutuar sobre um arranha-céu de Moscou, cortesia da empresa de realidade aumentada russa GiveAR. O plano original era criá-lo como instalação real para comemorar a estreia do último filme da série O Hobbit, mas os promotores recuaram ante a oposição da Igreja Ortodoxa ao que via como um “símbolo demoníaco”. Ainda assim, vale a pergunta: passaria pela cabeça de um marqueteiro ocidental fazer o mesmo em Nova York ou Londres?

Não é apenas a piada da “inversão russa”. Na melhor fanfic da literatura moderna, o escritor e cientista russo Kirill Yeskov escreveu em 1999 uma continuação da obra de J.R.R. Tolkien chamada The Last Ringbearer na versão inglesa e O Último Anel na portuguesa. Nessa obra, encontrável na internet como ebook gratuito, a trilogia original é tratada como pura propaganda dos vencedores da guerra. Mordor foi o Estado menos racista e mais moderno e civilizado da Terra Média. A última esperança de a humanidade escapar à escravização pelos arrogantes elfos e seu cruel títere Aragorn está em um par de sobreviventes à destruição da Torre Negra, um orc com traços orientais e um daqueles “homens do Sul” de pele escura que montavam olifantes. É um texto inteligente e fascinante, ante o qual o épico tolkieniano se reduz a uma fantasia maniqueísta e pueril.

Talvez não fosse indispensável ter vivido os anos 1990 na Rússia para escrever um livro como esse, mas sem dúvida ajudou bastante. Várias vezes escarnecidos como bárbaros, espezinhados mas nunca conquistados, os russos sabiam muito antes de Shrek que o bicho-papão do conto de fadas tem sua própria versão da história para contar.

Esta introdução é para lembrar que existem outros pontos de vista além daquele da mídia ocidental. Desde a anexação da Crimeia, previsões de colapso e fragmentação do país em consequência de seu desafio ao Ocidente foram frequentes por estes lados, como haviam sido nos anos 1990. A crise cambial de 16 de dezembro, que fez o valor do rublo em dólar cair em 20% e acumular uma queda de 50,1% do início de julho a 16 de dezembro parece agora confirmar isso, bem como o recrudescimento da guerrilha chechena, agora vinculada ao Estado Islâmico. Mas como isso é visto de Moscou?

Primeiro, é bom lembrar que a depreciação do rublo tem pouco a ver (“25% a 30%”, segundo o governo russo) com as sanções dos Estados Unidos e União Europeia e muito com a queda do preço do petróleo, a qual não tem relação evidente com a questão ucraniana. A insatisfação com preços de produtos importados ainda pode aumentar, mas o fato é que pelo menos até fins de novembro, com a queda do rublo em 25%, a popularidade de Vladimir Putin era perto de 85% e 58% se diziam dispostos a lhe dar mais um mandato. Muito mais do que em 2013, quando a conjuntura econômica era melhor e a Crimeia ainda era da Ucrânia.

A Rússia se orgulha de sua resistência histórica a privações e sofrimento, demonstrada contra Napoleão e nas duas guerras mundiais e respaldaram seus líderes sempre que o país esteve em jogo, mas não os perdoaram quando não souberam fazer frente às ameaças estrangeiras. O czarismo começou a cair com a derrota ante o Japão em 1905 e não sobreviveu ao fracasso contra a Alemanha do Kaiser em 1917. Em 1998, quando outra crise cambial derrubou o valor do rublo em 68%, o que de fato indispôs a opinião pública contra Boris Yeltsin foi ver a crise como uma humilhação resultante da rendição de Moscou ao neoliberalismo imposto pelo FMI. A recuperação veio com a alta dos preços do petróleo, mas o que realmente dispôs os eleitores a apoiar o então premier Putin para presidente foi a bem-sucedida reconquista da Chechênia, independente de fato desde 1991.

Em seu discurso à Assembleia Federal de 4 de dezembro o presidente esforçou-se por reanimar o fervor nacionalista. Proclamou que a Crimeia será russa para sempre, acusou o Ocidente de estimular o separatismo e o terrorismo islâmico para transformar o país numa nova Iugoslávia e reafirmou com franqueza suas aspirações geopolíticas: “se para alguns países europeus o orgulho nacional é um conceito esquecido há tempos e a soberania um luxo exagerado, a verdadeira soberania é absolutamente necessária para a sobrevivência da Rússia. Temos um exército cortês, mas formidável. Temos a força, a vontade e a coragem de proteger nossa liberdade e proteger a diversidade do mundo”.

Na entrevista coletiva da quinta-feira 18, na qual previu que a crise durará até dois anos, Putin foi mais colorido: os países ocidentais “decidiram que são um império e que todos os outros são vassalos. Acaso não é um muro o escudo antimíssil ao lado de nossas fronteiras? Não é um muro a expansão da OTAN para o Leste, que nos prometeram que não iria acontecer depois da queda do Muro de Berlim? Às vezes me pergunto se não seria melhor o urso de manter a calma, comer frutas e mel. Será que assim eles o deixariam em paz? Não, jamais! Sempre tentarão acorrentá-lo. E quando o tiverem agrilhoado, lhe arrancarão os dentes e garras, que hoje são nossa força de dissuasão nuclear”.

É uma linguagem nacionalista e reacionária e não é à toa o entusiasmo das ultradireitas da Europa Ocidental por Putin. Mas desse ponto de vista, franca e realista, na qual o público pode acreditar. Contrasta com a vagueza dos discursos ocidentais, que na tentativa de agradar ao maior número, disfarçar os fracassos e a realidade da força bruta e sustentar expectativas impossíveis e contraditórias soam cada vez mais hipócritas, vazios e pouco convincentes.

Vladimir Putin - coletiva
Putin durante sua entrevista coletiva anual, realizada em Moscou na quinta-feira 18. Ele não se acanha diante da pressão ocidental

Enquanto o Kremlin puder apresentar as dificuldades econômicas como parte de uma luta para restaurar a dignidade e grandeza do país, a maioria pode continuar a apoiá-lo. A classe média emergente, para a qual viajar para a Espanha e comprar o iPad do ano é mais importante do que o futuro do país como potência, pode ter outra opinião, mas pouco pode fazer. As reais ameaças ao futuro do putinismo estão nos dois extremos da sociedade: as minorias étnicas e a oligarquia.

O apelo ao nacionalismo é inevitável, mas corre o risco de alienar os 21% de cidadãos não russos, mais de metade dos quais são muçulmanos.  É hoje uma cartada mais perigosa do que era na época de Stálin, quando a ideologia oficial marxista em tese unia os soviéticos independentemente de etnias e religiões. Putin incentivou o “eurasianismo” conservador do ideólogo Aleksandr Dugin que prega uma aliança eslavo-turca contra o “atlantismo” liberal dos EUA e Reino Unido, mas para justificar a anexação invocou o “caráter sagrado” da Crimeia como berço da Igreja Ortodoxa Russa, o que não deve cair bem na Chechênia, por exemplo.

Os oligarcas foram mais ou menos enquadrados desde 1999 e os mais renitentes acabaram na prisão, no exílio ou no túmulo, mas a própria existência de uma crise cambial sinaliza que os demais não foram totalmente domesticados. Se os bilhões depositados pelos multimilionários russos no exterior retornassem ao país, o rublo não estaria em perigo. Do ponto de vista econômico, a Rússia é hoje uma grande Argentina, no sentido de depender dos exportadores de commodities e de sua disposição de manter no país uma parcela razoável de seus ganhos e a semelhança foi reforçada pelas sanções ocidentais, que fecham o acesso de Moscou ao mercado de capitais assim como a disputa com os “fundos abutres” faz com Buenos Aires.

Putin fez o que Cristina Kirchner poderia fazer em situação semelhante: ofereceu uma anistia fiscal para quem repatriar divisas, elevou o juro básico de 10,5% para 17% e cogita introduzir controles de capitais, como a Argentina fez em 2011 e reforçou em 2014. Tem, porém, importantes vantagens: conta ainda com reservas consideráveis – 100 bilhões de dólares foram gastos este ano para conter a queda do rublo, mas ainda restam 418 bilhões – e com um aparato midiático, militar e de inteligência poderoso, confiável e nada filoamericano, que aprendeu com o triste destino de Mikhail Gorbachev e Yeltsin a não confiar no Ocidente. A médio prazo, não é provável que Putin tenha de recear por seu posto ou sua cabeça.

Cai, ao menos no curto prazo, a atratividade de Moscou para os vizinhos da Ásia Central com os quais sonha reconstruir a União Soviética na forma de uma “União Eurasiática” e para os parceiros do Hemisfério Sul, com cujos produtos se pretende substituir as importações europeias. As perspectivas da Ucrânia, cuja economia é muito ligada à russa, ficam ainda mais catastróficas. Mas a maior consequência a longo prazo pode ser o fim definitivo do projeto de aproximação e integração econômica com a Europa, sonhado desde a era Gorbachev, mas sabotado pelos EUA, que viram nessa possibilidade uma séria ameaça à sua hegemonia.

O aprofundamento da crise financeira e geopolítica leva os países da Europa Oriental a correr para o colo de Tio Sam, reforça a OTAN e leva a Rússia a optar pelo Oriente e priorizar a China, a Turquia, o Irã e a Índia, em relação aos quais os EUA têm menos possibilidades de interferir, embora a aliança entre o poder militar russo e o poder econômico chinês constituam um sério desafio. Pouco a pouco, o mundo volta a se dividir em blocos hostis.