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A robótica de Asimov, uma ciência passadista

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 15/08/2014 06h09, última modificação 15/08/2014 07h18
As Cavernas de Aço (1953) e O Sol Desvelado (1957), de Isaac Asimov, envelheceram mal. Não representam mais uma interrogação sobre os rumos do futuro

A Editora Aleph continua sua série de edições ou reedições de clássicos da ficção científica, na maioria datados da chamada Golden Age do gênero (de fins dos anos 1930 ao início dos 1960). Alguns deles envelheceram razoavelmente bem, outros nem tanto. É pena, mas os dois primeiros romances da série robótica de Isaac Asimov – As Cavernas de Aço (R$ 46, 304 págs.) e O Sol Desvelado (R$ 46, 288 págs.), de 1953 e 1957, respectivamente, pertencem à segunda categoria. Podem interessar do ponto de vista da história das ideias, mas não mais para quem busca a ficção científica como uma interrogação sobre os rumos do futuro.

Trata-se de histórias sobre a interação entre humanos que sempre têm como pressuposto as hoje famosas “Três Leis da Robótica”: “1) Nenhum robô pode ferir um ser humano, nem permitir que sofra, por inação, qualquer dano;  2) Um robô tem que obedecer às ordens que lhe forem dadas pelo ser humano, a menos que contradigam a primeira lei; e 3) A obrigação de cada robô é preservar a própria existência, desde que não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei”.

As duas edições vêm acompanhadas de uma introdução na qual o autor explica a origem dessa concepção na sua insatisfação com obras dos anos 1920 e 1930 sobre robôs. Cita a peça R.U.R. de Karel Capek, que em 1921 introduziu o conceito de “robô” e Frankenstein (aparentemente o filme de 1931 e não o romance de Mary Shelley) e poderia ter lembrado também o Metropolis de Fritz Lang, de 1927. Asimov via essas obras, nas quais robôs foram retratados como inventos perigosos que destroem seus criadores, a um “complexo de Frankenstein” cuja moral se reduz  a “há coisas que os homens não devem saber”. Atribuiu (corretamente) essa desconfiança da tecnologia ao desastre das guerras mundiais, com seus tanques, aviões e gases venenosos e queria defender a tese de que é preciso defender o avanço científico e lidar com seus perigos. As “Três Leis” foram concebidas em fins de 1940 e explicitadas pela primeira vez em um conto publicado em 1942, para convencer os leitores de que os riscos do progresso podiam incorporar suas próprias salvaguardas.

Como deve ser claro para qualquer leitor de 2014, Asimov trapaceou. O uso de robôs assassinos é cada vez mais generalizado, incluídos neles sistemas de combate automático como o AEGIS dos EUA (que em 1988 matou 290 pessoas ao abater, por engano, um avião de passageiros iraniano), drones bombardeiros, mísseis nucleares e outras ameaças hoje na fase experimental. Garantias automáticas não existem nem podem existir, muito menos em um mundo submetido ao capitalismo desenfreado, outro mecanismo do qual é ilusório esperar qualquer autorregulação eficaz. A única restrição possível está na intervenção externa do debate e política democrática, coisa que a mentalidade tecnocrática do chamado “Bom Doutor” da ficção científica não cogitava.

Mas não é só por isso que estes dois romances, que se passam milênios no futuro (a partir do ano 5020, segundo cronologia posteriormente desenvolvida pelo autor), estão não só datados, como especialmente ultrapassados. Os contos da antologia Eu, Robô partem da mesma premissa, são anteriores (1939 a 1950) e se passam no futuro próximo, no século XXI. Mesmo assim, soam algo menos antiquados, seja pelo foco em problemas lógicos e éticos em parte atemporais, seja pelo ambiente restrito em que geralmente se passam (estações espaciais e fábricas de robôs, com raras alusões à sociedade mais ampla) e pelo protagonismo de Susan Calvin, que dá às histórias um ar feminista – desde que se ignore que a misantropa doutora é vista como uma anomalia em seu próprio mundo.

Já os dois romances abordam mistérios criminais com implicações sociais e políticas que exigem uma abordagem da sociedade do futuro. Nisso, a imaginação de Asimov se mostra surpreendentemente travada, a ponto de ocasionalmente contrariar sua própria lógica para não violar convenções que era incapaz de ultrapassar. Não era apenas uma limitação da época, pois Arthur C. Clarke, no contemporâneo A Cidade e as Estrelas (de 1956, recentemente republicada pela Pulsar, selo da editora Devir), pôde ir muito além delas. Duas em especial servem de exemplo: o antropomorfismo dos robôs e o papel das mulheres e da família.

Os cidadãos da Diaspar de Clarke vivem cercados de realidades virtuais e de inteligências artificiais onipresentes, mas quase invisíveis de tão rotineiras e integradas ao quotidiano que se tornaram. Tomam inúmeras formas (em geral não antropomórficas) e algumas delas lembram muito os drones hoje tão na moda. Mesmo se a tecnologia que os torna possíveis não é explicada, é do ponto de vista da informática um mundo surpreendentemente moderno do ponto de vista de 2014.

Já o VI milênio de Asimov, fora serem as cidades subterrâneas e servidas por esteiras rolantes, reflete o mundo dos anos 1950. Os robôs são todos humanoides e exercem funções antes desempenhadas por empregados subalternos exatamente da mesma maneira, inclusive calçar senhoras nas sapatarias e levar e trazer recados em escritórios como contínuos – um correio eletrônico, aparentemente, não passava  pela mente do autor. São até chamados por “garoto” (boy) à maneira paternalista de estadunidenses brancos da época para com empregados negros. Apesar de supostos milênios de convivência com a robótica, essas máquinas continuam desajeitadas e caricaturais. O autor alega que a forma humana é a mais versátil e adaptável às diferentes ferramentas e painéis já existentes, mas o argumento faz pouco sentido mesmo na sua Terra, onde a maioria dos robôs desempenham tarefas especializadas. Menos ainda em Solaria, cenário do segundo livro, onde cada indivíduo tem milhares de robôs a seu serviço. Vê-se, por exemplo, um robô cuja única função é manter a sintonia de um sistema de comunicação holográfica à distância, manipulando diais analógicos com as mãos. Sua versão da robótica é essencialmente um escravismo idealizado e atualizado, embora sirva também à construção de interessantes enigmas de lógica e dedução.

Na cidade futurista de Clarke, os indivíduos são projetados e gestados por um Computador Central, as famílias tradicionais não existem e a igualdade entre homens e mulheres é enfatizada. Este último ponto vale inclusive para na cidade alternativa de Lys, onde as crianças continuam a nascer da maneira convencional. Já na Terra do futuro de Asimov, espera-se que as mulheres abandonem a carreira quando se casam e dependam exclusivamente da carreira do marido, mesmo se o número de filhos é limitado por lei e há pouco trabalho doméstico a fazer, pois apartamentos são minúsculos e muitas tarefas são automatizadas. É o caso de Jessie, esposa do protagonista Elijah Baley, como foi o dos pais do detetive. A situação é diferente em Solaria, onde a única função do casamento é promover relações sexuais geneticamente desejáveis, as crianças são gestadas e criadas numa instituição especializada e as mulheres têm propriedades, robôs e carreira à sua disposição tanto quanto os homens, mas isso é tratado como indesejável e contrário à natureza feminina. Clichês sobre os gêneros são tão naturalizados e projetados no futuro que se torna um fator decisivo para a trama do primeiro livro que, indiscutivelmente, homens jamais falam entre si quando estão em banheiros públicos e mulheres sempre o fazem.

Dado curioso, Jessie  se orgulhava do verdadeiro nome, Jezebel, associado na tradição cristã popular a crueldade e sedução – algo como o único grão de pimenta de uma existência de resto insossa –e o marido a irrita ao convencê-la de que a Jezebel bíblica foi uma “esposa fiel, e uma boa esposa (...), ela não teve amantes, não ficava de brincadeira e, moralmente, não tomava liberdades de maneira alguma”. Essa frustração a leva a se unir a um grupo subversivo e a um choroso arrependimento. De resto, a história de como os dois se casaram e vivem juntos é árida e monótona. O que há de mais sensual e romântico neste ciclo (e talvez em toda a obra de Asimov) é a tensão sexual entre o detetive e Gladia Delmarre, suspeita do segundo romance, que segue os clichês do gênero noir tanto quanto cabe na sociedade ultraelitista imaginada por Asimov nesse planeta. Embora talvez a relação amorosa mais genuína seja a que se desenvolve entre o protagonista e seu parceiro robô, R. Daneel Olivaw.

As obras citadas de Asimov e Clarke têm, por outro lado, uma peculiaridade em comum: ambas mostram um mesmo horror ante a possibilidade de uma civilização “fechada”  em si mesma – a cidade de Clarke é protegida por uma cúpula, as cidades da Terra de Asimov são subterrâneas –, cujos cidadãos perderam o interesse pela exploração espacial e temem até sair a céu aberto. Estranhamente, ante o recém-terminado pesadelo da II Guerra Mundial e a ameaça crescente da aniquilação nuclear, ambos receavam sobretudo um acomodado “fim da história”. Pareciam suspirar por uma expansão sem fim, por alguma forma de retornar aos tempos das conquistas imperiais britânicas ou dos pioneiros do Oeste norte-americano.

Diaspar é uma sociedade igualitária, próspera e tão cheia de luxos e diversões como um misto de parque temático com shopping center gratuito, ao passo que a Terra futura de Asimov aparece pobre, superpovoada e sobrecarregada de complicadas e ridículas distinções sociais, de forma a evocar estereótipos sobre a União Soviética de Stálin e ao mesmo tempo sobre a China ou a Índia coloniais. Não há dinheiro e as pessoas (que não sejam mulheres casadas) são premiadas ou punidas com promoções e rebaixamentos numa minuciosa escala de graus – o protagonista, por exemplo, começa a história com uma classificação C-5 e aspira a ser C-6, o que lhe daria mais alguns invejáveis privilégios. “Um assento na via expressa na hora do rush, e não apenas das dez às quatro. Mais opções no cardápio das cozinhas comunitárias da Seção. Talvez até um apartamento melhor e uma cota de entradas para os andares do Solário para Jessie.” Há um governo mundial com sede em Washington, tecnocrático, burocrático e aparentemente não eleito.

Essa situação poderia ser facilmente apresentada como uma distopia tirânica, mas essa não é a preocupação de Asimov. Os únicos descontentes são os “medievalistas”, que detestam robôs por tirar empregos e pregam uma vida mais natural e a céu aberto, mas são representados como sonhadores ingênuos e desajustados. O protagonista não se sente oprimido e não questiona sua realidade a não ser na medida em que se sente humilhado pelos Siderais, descendentes de colonos humanos que vivem em mundos mais ricos e poderosos (como Solaria) e que interferem em assuntos terrestres. É só quando percebe que seu mundo é insustentável a longo prazo que conclui que a solução é retomar a conquista espacial que tenta persuadir as autoridades de seu mundo a planejar mudanças.

Curioso um autor obviamente inteligente não ser então capaz de perceber que a estreiteza e o provincianismo de suas concepções sobre a vida e a humanidade eram uma limitação muito mais real à aventura humana do que os obstáculos imaginários às aventuras espaciais. Tratando-se, bem entendido, do Asimov da Golden Age. Suas obras dos anos 1970 aos 1990, influenciadas pela revolução da New Wave da ficção científica, mostram mais abertura e questionamento de seus preconceitos anteriores. Mas essas são outras histórias.