O sinal acaba de tocar no pátio da escola bolivariana Vargas, no 23 de Enero, um imenso bairro popular localizado bem no centro de Caracas. São sete e meia da manhã e dezenas de crianças de calça comprida azul-marinho e camiseta branca correm em direção à porta de sua classe. Os mais entusiasmados são os do curso médio. Eles começam o dia com uma iniciação à internet e à informática. Na sala vizinha, uma jovem professora, Marisela Bello, inicia o curso falando sobre o impacto do petróleo na Venezuela. As crianças mostram com orgulho as miniaturas das plataformas petrolíferas que construíram. “O petróleo é importante, é a primeira riqueza do país e pertence ao povo”, recita José, de 10 anos, contente por ser o primeiro a se pronunciar. “Mas o petróleo pode também ser ruim para o meio ambiente”, completa Cynthia, uma moreninha de sorriso malicioso.
“Foram as crianças que escolheram estudar o tema do petróleo e o do aquecimento global”, explica Monaldo Briceño, diretor da escola. “Em nossas escolas não queremos mais o ensino imposto pelos livros e os burocratas dos ministérios. As crianças são os atores de sua própria educação”, diz.
A democracia “participativa e protagonista” promovida pela Constituição de 1999 e pelo presidente Hugo Chávez é um elemento fundador das 4 mil escolas bolivarianas. De pé na entrada do prédio, na frente de uma tela ilustrando Simón Bolívar a cavalo, Monaldo expõe as outras vantagens do sistema. As crianças têm aulas o dia inteiro, e não somente pela manhã ou à tarde, e recebem três refeições: café da manhã, almoço e lanche, preparadas por cinco mães da comunidade. “Antes, para matricular uma criança em uma escola pública, algumas vezes era necessário pagar. O Comandante chegou, e acabou com tudo isso”, afirma o diretor.
José, Cynthia e os outros são os primeiros produtos dessa educação bolivariana, quando a Venezuela se prepara para comemorar, em 6 de dezembro, os dez anos da eleição que, pela primeira vez, colocou Chávez no poder. O ex-coronel pára-quedista, chamado por seus partidários de Comandante, se impôs nas urnas, com 57% dos votos, seis anos após ter liderado uma malsucedida tentativa de golpe de Estado, em fevereiro de 1992. Ele prometeu acabar com a democracia representativa tradicional, que no seu entender beneficiava somente um grupo de poderosos, para dar o poder ao povo e responder às suas necessidades mais urgentes: a pobreza, a saúde, a educação. Os primeiros anos de seu mandato se caracterizam por desacertos e improvisação.
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