O socialismo vai resistir
22/02/2008 17:12:33
Cynara Menezes

Nenhum analista político ao redor do mundo arriscou-se a cravar um palpite sobre o que acontecerá exatamente com Cuba após a renúncia de Fidel Castro. Irá se democratizar? Se renderá aos Estados Unidos e à economia de mercado? O único aspecto em que as opiniões convergiram é que o socialismo na ilha não acabará com a saída de Fidel. Nem mesmo o castrismo, ao menos não num primeiro momento.
As mudanças virão, mas lentamente, e o futuro mais especulado para a Cuba pós-Fidel é que parta de vez para o modelo chinês de “Perestroika sem Glasnost” (abertura econômica sem abertura política), como se dizia na década de 1990 em comparação ao que aconteceu com o modelo soviético.
Nos principais jornais do mundo, a notícia da renúncia foi recebida com a acidez de praxe quando se trata de Fidel Castro, mas também com certa reverência à figura do velho líder revolucionário, aliada a uma boa dose de incerteza diante dos possíveis cenários que se descortinam para Cuba.
“O eclipse de um mito”, disse o francês Le Monde em editorial, prevendo que a renúncia não trará câmbios imediatos, mas que a ausência da figura imponente de Castro pode encorajar os jovens a reagir. “Os diques poderão ceder diante da impaciência de uma juventude que, já faz tempo, não crê mais no mito”, afirmou o diário.
Outros jornais mostraram-se aparentemente pouco preparados para lidar com a notícia, previsível e ao mesmo tempo surpreendente, no sentido de que Fidel não deixou o poder com a morte. Houve uma espécie de antecipação dos obituários já preparados, mas as análises, com o afastamento do comandante em vida, perderam o sentido.
O New York Times clamou Washington a encorajar uma transição pacífica para a democracia, começando “a falar diretamente com os políticos e o povo de Cuba”. O espanhol El País apostou que Raúl Castro fará mudanças, mas não se sabe em que ritmo. “Qualquer fórmula que não conduza à democracia plena na ilha se converterá num beco sem saída”, advertiu em editorial.
Para Emir Sader, professor de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Cuba vive um bom momento, com a descoberta de petróleo e os acordos firmados com a China e a Venezuela, mas seu desafio agora é enfrentar as demandas pendentes, sobretudo em relação ao empobrecimento da população.
“Há também a questão das proibições excessivas, que o próprio Raúl Castro andou criticando”, diz Sader. “Mas não se coloca a hipótese de acabar com o regime socialista. Até porque, para os cubanos, não é como aconteceu com os habitantes do Leste Europeu, que sonhavam que seus países se tornassem uma França ou Alemanha. A perspectiva para Cuba sem o socialismo é ser um Haiti, o que ninguém por lá deseja.”
Sader não acredita em um substituto único para Fidel, como o sempre lembrado vice Carlos Lage Dávila. “Ali não tem Pelé, vão precisar de uma equipe.”
“Não tenho dúvida de que Carlos Lage é o homem mais forte para assumir o poder”, discorda o ex-embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago. “Ele é muito dedicado e querido pelo povo, simples, costuma andar de bicicleta por Havana.”
Mas Tilden concorda com Sader de que uma guinada fora do eixo socialista é praticamente impossível. “Acredito em uma mudança à maneira cubana, ou seja, a partir do que já conquistaram. O primeiro passo de Raúl no poder, tenho certeza, será assegurar que só haverá mudanças se preservado esse objetivo central pelo socialismo”, avalia.
A influência de Castro sobre o novo governo, mesmo afastado dos cargos de presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros, é tida pelos analistas internacionais como certa. A ponto de a imprensa norte-americana definir o novo cargo do comandante-em-chefe, em tom de troça, como “commentator-in-chief”, ou um dirigente disposto a dar palpites em tudo.
“A decisão de afastamento não é maquiagem, está ligada à debilidade física, com conseqüências políticas também”, contrapõe Tullo Vigevani, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) da USP.
“Acho que Fidel quis mesmo facilitar a ascensão de outros dirigentes, não só de Raúl. Houve uma razoável renovação no Partido Comunista Cubano (PCC), gente jovem que terá interesse em participar do processo”, avalia Vigevani.
Para o especialista, não há elementos para se pensar em ruptura radical em Cuba no curto prazo. “O grupo dirigente vai manter o controle. Talvez a renúncia desencadeie novos elementos, pode haver certas fricções na cúpula, mas nada disso é certo. Todas as mudanças, ao menos inicialmente, serão feitas sob o controle do PCC”, acredita.
O advogado Itobi Alves Correia tinha 27 anos quando chegou a Cuba, em 1970, como militante da organização clandestina Ação Libertadora Nacional (ALN) foragido da ditadura militar brasileira. Viveu na ilha até 1972, lá esteve em outras duas ocasiões e desde então acompanha o processo. Para ele, Fidel sai de cena, faz a própria sucessão, mas não será capaz de segurar as reações que seguramente virão. “Toda mudança implica um movimento que leva a sociedade a se posicionar. No caso de Cuba, creio que se exigirá maior liberdade individual, a saída do isolamento e até reatar relações com os Estados Unidos”, opina. “Quanto ao socialismo, está bem implantado e me parece bem-aceito pela população. Não foi só a força e a repressão que segurou o regime, há adesão ao projeto.”
No domingo 24, o novo Parlamento, eleito em 20 de janeiro, se reunirá em Havana para decidir quem assumirá a presidência do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros, acumuladas até julho de 2006 por Fidel Castro. Biógrafo de Che Guevara e autor de um perfil de Fidel, o jornalista norte-americano Jon Lee Anderson acredita que Raúl Castro ocupará boa parte dos cargos, mas inventará uma maneira de compartilhá-los com a cúpula do Partido Comunista, Carlos Lage Dávila à frente.
“O aspecto mais importante da renúncia de Fidel é que coloca o cubano para refletir sobre o futuro, torna mais agudo o fato de que Cuba já não é o país sem relógio, que tem um tempo próprio, o que é parte de seu encanto e ao mesmo tempo seu maior dilema. Ficou a mensagem de que isso está acabando”, analisa Anderson. “Além disso, a saída de Fidel vai aumentar a pressão midiática e política em torno da necessidade de mudanças, embora Fidel tenha sido precavido. É a transição mais adestrada que já vimos. Não é a agonia lenta que vimos na Espanha de Francisco Franco.”
Apesar de também não crer no abandono do regime socialista, o jornalista aponta um fator que será importantíssimo nos rumos da ilha a partir de agora: o resultado das eleições nos EUA. Mesmo com as pífias declarações públicas de Barack Obama em relação ao afastamento de Fidel, similar às feitas pelo concorrente republicano John McCain, Anderson acredita que, fora do calor da campanha, eleito presidente, o democrata seria muito menos refratário ao reatamento de relações com Cuba. “Ele é o primeiro candidato a presidente que disse que se sentaria para conversar com o líder cubano. Ganhando a eleição, Obama pode ir pela distensão”, aposta.
O professor de Relações Internacionais nicaragüense Augusto Zamora, hoje docente na Universidade Autônoma de Madri, acompanha o processo cubano desde os anos 80. De lá para cá, visitou a ilha anualmente, como professor-visitante da Universidade de La Habana. E descarta completamente a adoção de um modelo socialista à chinesa pela ilha. “Isso seria o mesmo que dizer que a China poderia adotar um modelo caribenho. Eles são chineses, nós somos latino-americanos. Há coisas que só os chineses podem fazer. Trabalhar 20 horas por dia, por exemplo. Nós não faríamos nunca”, diz Zamora.