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Luiz Carlos Azenha, de Kogelo
O meio-irmão muçulmano
22/08/2008 17:36:50
Luiz Carlos Azenha, de Kogelo

Quando se casou nos Estados Unidos, pela segunda vez, o pai de Barack Obama tinha deixado mulher e filhos no Quênia. Obama só conheceu o irmão mais velho quando ambos eram adultos. Roy vivia em Washington e Barack era ativista comunitário em Chicago. Desde então, Roy mudou de nome e de papel.
Hoje Abon’go Malik Obama é muçulmano praticante e se apresenta como o chefe do clã e proprietário de duas empresas de importação e exportação de elétricos, eletrônicos e mercadorias em geral. Malik diz estar organizando uma fundação com o nome do pai, Barack H. Obama, que vai arrecadar doações em todo o mundo para investir na África.
Ele recebeu CartaCapital na modesta casa que ocupa na propriedade da família, perto de Kogelo, um vilarejo na região do Quênia habitada pela tribo luo. A sala é decorada com frases do Alcorão e uma foto da mesquita de Meca.
CartaCapital: Que tipo de papel o senhor exerce como chefe do clã?
Abon’go Malik: Tipicamente, em nossa sociedade existem situações que são muito importantes, como casamentos e funerais, plantio ou colheita. Qualquer coisa em que o clã tiver de ser representado, alguém na minha posição deve estar presente.
CC: O senhor deve aprovar os casamentos?
AM: Se for minha filha, sim. Se for filha de algum irmão, seria bom ter a minha aprovação, mas na verdade depende deles. Se meu pai estivesse vivo, com certeza seria necessária a bênção dele, mas ele não está mais aqui.
CC: Qual é o critério para aprovar um casamento?
AM: Esperamos que a mulher tenha um bom caráter e que contribua para o sucesso do casamento e da família. Que saiba criar os filhos e cuidar da casa. Mesmo fora daqui existe o ditado de que atrás de um homem bem-sucedido há sempre uma mulher.
CC: Quantas mulheres um homem pode ter?
AM: Sou muçulmano e sou luo e não há muitas contradições entre os costumes. No Islã podemos ter até quatro esposas. Como luo posso ter quantas quiser, desde que seja capaz de sustentá-las. Existe um limite para os muçulmanos, não para os luos.
CC: O seu pai teve quatro esposas?
AM: Sim, quatro. Minha mãe foi a primeira. A mãe de Barack, a segunda. Tenho uma madrasta que vive em Nairóbi e teve dois filhos de meu pai, um deles já falecido. E tenho uma madrasta que é mãe de meu irmão mais novo. Ela está nos Estados Unidos.
CC: O senhor acha que os republicanos vão usar o medo que os americanos têm do Islã contra o seu irmão? AM: Não sei. É difícil dizer. Houve tentativas, no início da campanha, pelo fato de que meu irmão morou na Indonésia. São táticas que podem ser usadas. Não é algo que a gente não espere. Aqui não temos nada para esconder. Somos muçulmanos. Sou muçulmano e falo por mim. Meu avô era muçulmano e assim a família também é.
CC: O que é que seu irmão Barack tem em comum com o seu pai?
AM: A busca pela excelência, o brilho, o cérebro. Meu pai tinha tudo isso. Falava bem, era inteligente, tinha personalidade forte. Quando entrava em uma sala, era como se estivesse sozinho. Meu irmão é assim. Temos todos um pouco disso. Está no sangue.