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Internacional
FECHAR Mino Carta

Dois pesos e uma medida

09/07/2008 11:51:31

Mino Carta

Quando a Marcha de Benito Mussolini chegou às portas de Roma, o chefe do Estado-Maior do Exército italiano, general Facta, pediu autorização ao rei Vittorio Emanuele III para rechaçar aquele bando de perfeitos representantes da pequena burguesia amedrontada e enraivecida. O soberano tergiversou e os militares não saíram dos quartéis.

Faz 86 anos. Mussolini entrou em Roma de polainas, como o descreveu o poeta Trilussa, e de meias furadas. O líder do Partido Fascista assumiu a chefia do governo. Dois anos depois, deu-se o golpe, em seguida ao assassinato do parlamentar socialista Matteotti. Instalou-se a ditadura totalitária do partido único e Mussolini tornou-se o Duce

Impossível é comparar a Itália de hoje com aquela dos anos 20 de 1900. Ou Silvio Berlusconi com Mussolini. Ou a Marcha sobre Roma com as eleições de abril passado. Claro está, porém, um fenômeno similar, a mostrar que os mesmos italianos capazes de transformar um país pobre em rico, entre o imediato pós-guerra e anteontem, são ainda muito parecidos com aqueles de 86 anos atrás.

Medo e raiva eram provocados pelo surgimento de um proletariado e de fortes partidos de esquerda, problemas que o liberalismo no poder não parecia habilitado a enfrentar com eficácia em proveito da burguesia graúda e miúda. Hoje a Itália, país de imponentes emigrações, tem medo e raiva das levas crescentes de imigrantes. E do confronto político entre facções inimigas. E do progresso, e de qualquer mudança. Estagnação econômica e corrupção marcam a ferro a vida do país, e nem por isso metade dos italianos, no mínimo, deixa de enxergar em Berlusconi o herói da hora, embora não faltem as provas de que governa em benefício dos seus negócios, sem contar seu extraordinário desempenho no papel de clown globalizado. 

Nisso tudo, patética é a oposição dita de centro-esquerda, bem como o são os sindicatos, não mais representativos de um proletariado sequioso por ascensão, todos inclinados a repetir a leniência do rei Vittorio Emanuele. Tenta-me evocar o ditador Mugabe e seu Zimbábue trágico. A comparação soa arriscada, mas não é. Claro que a África não é a Europa, embora valha dizer que a ferocidade da lei da selva o continente negro não aprendeu com seus leões, e sim com os colonizadores brancos.

Repare-se que no primeiro turno do pleito presidencial no Zimbábue quem ganhou foi a oposição de Tsavangirai, submetido então a uma campanha de terror e obrigado enfim a retirar-se para que Mugabe fosse candidato único no segundo turno. Repare-se, também, que a União Africana, reunida nos dias passados, mostra alguma preocupação e acolhe a sugestão da África do Sul pela criação de um governo de unidade nacional, no qual Mugabe manteria a Presidência, enquanto Tsavangirai assumiria a chefia do gabinete.

Lá na frente que se supõe de civilização antiga e de práticas democráticas consagradas, a União Européia assiste impassível às últimas façanhas de Berlusconi e a oposição protesta aos sussurros – única voz peremptória a de Antonio Di Pietro, figura simbólica da Operação Mãos Limpas e hoje líder do Partido Italia dei Valori.

Neste exato instante, Berlusconi mede forças com a magistratura, com o objetivo manifesto de submeter o Judiciário à vontade do Executivo. E pelos caminhos do seu clássico recurso à ditadura da maioria, apresenta ao Parlamento um projeto de lei que torna letra morta lições de Montesquieu. E já cogita de outro, no mesmo diapasão.

Pelo primeiro, processos que envolvem os quatro cargos mais proeminentes do Estado – presidente da República, premier, presidentes de Câmara e Senado –, deflagrados antes de 30 de junho de 2002, ficam temporariamente suspensos. A manobra é transparente: neste julho, Berlusconi corre o risco de ser condenado a seis anos de reclusão em um procedimento por corrupção, cujo início remonta a 2001. 

O projeto em gestação visa impedir que figuras públicas sejam grampeadas no quadro de investigação conduzidas pela Justiça. Ocorre que o primeiro-ministro viu divulgadas uma série de conversas telefônicas com diretores da RAI, a tevê estatal, destinadas a recomendar starlets do vídeo para papéis de telenovelas e shows variados. Berlusconi sempre pede “diga à moça que telefonei”, ou diz falar em nome de políticos da sua turma.

Berlusconi e Mugabe atropelam a lei, a democracia, o Estado de Direito. Aquele, o decoro também. Quanto ao segundo, leva a vantagem de ser mais claro e direto. 

(Crédito da foto: Cris Bouroncle/AFP)

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