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02/07/2008 19:02:03
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Seqüestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia desde 23 de fevereiro de 2002, quando era candidata a presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt foi libertada pelo exército colombiano na tarde desta quarta-feira, juntamente com outros três reféns norte-americanos e mais 11 cativos.
A senadora franco-colombiana foi resgatada em uma das bases da Farc na selva, localizada a 70 quilômetros de San José de Guaviare, capital do departamento de Guaviare, segundo informações do ministério da Defesa da Colômbia.
Ingrid Betancourt, nascida na Colômbia com cidadania francesa, era a refém mais importante nas mãos das Farc, e os mais de seis anos em que esteve sob o poder da guerrilha colombiana motivaram diversas tentativas de acordos para sua liberação.
Em uma dessas operações, conduzida e organizada pelo governo francês em julho de 2003, uma aeronave militar do país europeu violou o espaço aéreo brasileiro para negociar a soltura da política colombiana, conforme mostrou de forma exclusiva CartaCapital em sua edição 250. O caso provocou desconforto entre os governos brasileiro e francês.
Wálter Fanganiello Maierovitch, colunista de CartaCapital e especialista em crime organizado, falou sobre a libertação de Betancourt qual o impacto que esta ação do governo colombiano terá nas Farc.
CartaCapital: Qual o impacto desse resgate?
Wálter Fanganiello Maierovitch: Ele mostra um esfacelamento das Farc. O número dois das Farc, Raul Reyes, foi morto no inicio de 2008 no Equador, mostrando que o serviço de inteligência colombiano o identificou e promoveu um ataque. O nome que iria suceder o Manuel Marulanda (fundador da guerrilha), Ivan Ríos, foi morto também neste ano pelos seus próprios comandados. Mais recentemente, a morte do Marulanda também foi misteriosa, porque há duas versões.
CC: Quais?
WFM: Uma delas é que houve um bombardeamento da área em que se encontrava. A segunda, das próprias Farc, é a de que houve morte natural, uma vez que ele já tinha câncer de próstata há muitos anos.
CC: E a escolha do de Afonso Cano como sucessor do Marulanda foi internamente aceita?
WFM: Não, não foi internamente bem assimilada. Cano, que lidera o braço mais político da guerrilha, é visto como uma pessoa mais de composição. Ele acabou sendo escolhido no lugar do Mono Jojoy (comandante militar das Farc), que é quem representa uma linha mais dura das Farc, contra qualquer tipo de negociação.
CC: As Farc ficaram internacionalmente enfraquecidas com a divulgação, no final do ano passado, da carta de Ingrid Betancourt, não?
WFM: A divulgação da carta deixou as Farc muito fragilizadas. A carta mostra as condições precárias em que Ingrid se encontrava. O mundo teve notícias de que ela estava tão frágil que poderia morrer a qualquer momento, que estava muito deprimida e havia até quebrado a rotina habitual que ela mantinha para agüentar essa situação de seqüestro, como tomar banho no rio, pentear o cabelo, fazer algumas leituras. Essa pressão internacional foi muito forte.
CC: Quais as conseqüências dessa pressão?
WFM: A pressão levou as Farc a soltarem a Clara Rojas (secretária da Ingrid, foram seqüestradas juntas em 2002). Inclusive a Clara não era objeto do seqüestro, mas fez questão de seguir junto com a Ingrid. E agora há uma reviravolta muito forte dos que lutaram para tirar a tarja de organização terrorista de narcotraficantes das Farc. De um movimento insurgente, elas se transformam em organização terrorista de narcotráfico. O único que tentava ainda salvar a aparência era o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que recentemente mudou de posição. Fora isso, a França também fez muita pressão.
CC: As Farc são uma guerrilha enfraquecida?
WFM: Muito. Neste ano, mostraram toda sua fragilidade e, internamente, têm problemas de lideranças. Mais do que isso, essa reação forte militarizada contra as Farc atualmente depende de dinheiro para se manter, que está cada vez mais curto. Nós já tivemos várias deserções que também são marcantes.
CC: Como a notícia está sendo recebida pelo povo colombiano?
WFM: Sabe-se que 86% dos colombianos apóiam o governo Uribe. Por isso, o lado político de vitória contra uma organização com mais de 40 anos, algo que governo nenhum havia conseguido até agora, é muito forte. É um momento de grande alegria e até de emoção.
(Crédito da foto: AP)