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Aécio recusa a garupa

05/11/2009 13:34:41

Sergio Lirio

Uma tempestade, nesta primavera particularmente úmida e entediante, provocou o caos habitual em São Paulo na noite da segunda-feira 26. Pode ser que o clima do dia tenha afetado um pouco mais o humor do governador de São Paulo, José Serra. Durante a comemoração dos 10 anos da Faculdade de Campinas, a Facamp, Serra referiu-se em uma roda de amigos às pressões dos aliados por uma definição da candidatura do PSDB à Presidência. A frase, mera constatação, ganharia um tom assertivo, quase heroico, nos jornais do dia seguinte. Aos amigos, o governador afirmou: “É preciso ter nervos de aço”. Já os leitores dos matutinos paulistas, que não privaram da conversa no evento da Facamp, leriam o seguinte: “Tenho nervos de aço”.

Presidenciável mais bem colocado nas pesquisas, Serra vê se repetir a mesma situação de 2006, quando, no minuto final, após meses de romaria de aliados a sua porta, desistiu de enfrentar Lula na disputa presidencial e entregou a canoa a Geraldo Alckmin. Nas últimas duas semanas, lideranças do partido Democratas aumentaram o tom das cobranças. Rodrigo Maia, filho de Cesar e presidente da legenda, chegou a declarar a preferência pelo governador Aécio Neves, mas amenizou o discurso em declaração à CartaCapital. “Não é pressão porque a aliança não está sob risco, mas precisamos definir o candidato, sobretudo para poder organizar os palanques regionais.” 

A cobrança animou o principal concorrente de Serra no PSDB, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Ante a pequena disposição da direção partidária em realizar as prévias por ele sugerida, o mineiro decidiu lançar um ultimato. Aécio pediu ao partido a definição do candidato até dezembro – e não em março, como prefere Serra. Caso contrário, afirma, anunciará oficialmente sua disposição de disputar o Senado. 

O clima também não anda menos ameno em Belo Horizonte. Na manhã da quinta-feira 29, nuvens carregadas cobrem as montanhas no entorno do Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador de Minas, após semanas de chuvas torrenciais que provocaram inundações na capital. Mas Aécio desce sorridente a escada em espiral que deságua no hall do palácio. Está animado com a ascensão do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro de Futebol. Na noite anterior, Aécio assistiu no Mineirão à espetacular virada sobre o Santo André – 3 a 2, com um gol aos 46 minutos do segundo tempo. A vitória deixou o time do coração do governador a um passo do G-4, o grupo de equipes que se classificam para a Libertadores e a 6 pontos do Palmeiras de Serra, líder do torneio. 

“Por um momento me veio a imagem do jogo contra o Estudiantes (o Cruzeiro perdeu em casa o título da Libertadores deste ano para o time argentino). Mas a reação foi fantástica. Jogo emocionante”, recorda. 

Até onde o senhor acha que o Cruzeiro pode chegar? 

“Tem gente que fala em ganhar o campeonato. Não sei. Mas acho que estaremos no G-4 após a rodada do fim de semana.” 

E o senhor, onde pretende chegar?

Aécio sorri e ajeita a gravata. “Quero dizer, antes de tudo, que respeito o Serra. É um grande político brasileiro e entendo a posição vantajosa que ele tem na disputa. E também que não estou em busca de uma saída honrosa. Apesar de não tratar as coisas com obsessão, desejo ser candidato a presidente pelo PSDB. Se cobro uma definição mais rápida do partido é por um motivo simples. Antes de tudo tenho um compromisso com Minas Gerais e preciso trabalhar para conseguir dar continuidade ao nosso projeto no estado. Acho que terei mais chances de realizar essa meta se for candidato a presidente, mas posso fazê-lo muito bem na disputa pelo Senado.” Minutos depois, reforça: “Não quero forçar a barra. Ao contrário de muitos, gosto da vida parlamentar, dos debates e das articulações no Congresso”. 

O objetivo em Minas é eleger seu vice, Antonio Anastasia, um técnico com pouco traquejo político que tem registrado em média magros 5% das intenções de voto nas pesquisas. O líder, à beira dos 40%, é o ministro das Comunicações, Hélio Costa, do PMDB.

Não se pode negar o peso colossal das circunstâncias na política, o que costuma transformar quase toda declaração em cartas de princípios redigidas sobre a areia da praia. Mas não há motivo para duvidar, neste caso e neste momento: Aécio não topa a chapa puro-sangue imaginada e defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Quero ser candidato à Presidência, não a vice”, diz, na expectativa de enterrar de vez as especulações. 

O neto de Tancredo Neves é polido, evita polêmicas e repete o argumento de que será mais útil ao partido como candidato a senador do que como vice na chapa de Serra. Alguns de seus aliados recorrem, porém, a uma metáfora equestre para explicar a opção. Só vale montar no cavalo com as rédeas na mão, pois quem está na garupa inevitavelmente vai ao chão se o condutor cair, mesmo se for um excelente cavaleiro. 

Em uma livre e crua tradução, significa o seguinte: Aécio, ao contrário de Alckmin, não pretende deixar seu destino nas mãos de Serra. E recusa-se a servir de regra 3 caso o colega paulista venha a desistir de concorrer à Presidência em março do ano que vem, data-limite para uma decisão, caso o cenário lhe seja desfavorável. 

É uma estratégia, a de Serra, que divide tucanos e ex-pefelistas. O deputado baiano Jutahy Júnior, serrista, defende: “Nas últimas quatro eleições, a decisão dele de assumir a candidatura apenas no último dia do prazo legal se mostrou eficaz, sem nunca ter deixado o partido a descoberto. Ele merece um crédito de confiança”. 

O mineiro Rodrigo de Castro, aliado de Aécio, contesta Jutahy: “Falar isso depois de duas derrotas do partido à Presidência não se justifica. O presidente Lula antecipou o processo eleitoral, o governo está apertando o cerco. Para nós, a hora da costura é agora, não pode ficar para depois”. 

No Congresso, e também em BH, embora Aécio negue de forma veemente a leitura da situação da maneira exposta a seguir, seus aliados ressentem-se de um viés nas análises sobre a legítima aspiração do governador de Minas. Enquanto os movimentos políticos de Serra são aplaudidos, no PSDB e na mídia, como jogadas de um gênio, os de Aécio costumam ser tratados quase como um crime de lesa-pátria, atos de um quinta-coluna. A cada gesto saído do Palácio das Mangabeiras aparece alguém para lembrar da dianteira de Serra nas pesquisas. 

O governador paulista, é fato, tem hoje inequívoca vantagem numérica, ainda que, por ora, o valor das sondagens deva ser bastante relativizado. Para combater esse argumento, Aécio defende a ideia de que ele, e não o colega paulista, encarna melhor o pós-Lula e seria capaz de evitar o que os tucanos mais temem e os governistas mais desejam: uma eleição plebiscitária em 2010. Em princípio, o mineiro bagunça o script minuciosamente escrito pelo presidente da República. Ao contrário dos tucanos paulistas, o grupo de Aécio não alimenta um confronto figadal com o governismo. Ao contrário. Ontem, hoje e, ao que tudo indica, amanhã, o governador de Minas fia-se na imagem de conciliador.

“A primeira coisa que faria na Presidência seria buscar uma agenda mínima comum com o PT”, imagina. “Ao contrário do pensamento de muitos nesta batalha política, acredito que no futuro o período entre 1993 e 2010 será analisado como uma continuidade. Um período que mudou profundamente o País e teve seu começo com Itamar Franco e o decreto do Plano Real, as mudanças na economia do Fernando Henrique e a consolidação da estabilidade e dos programas sociais no governo Lula. A questão nas próximas eleições é: avançamos bastante, mas poderíamos ter avançado muito mais.” Em tempo: para CartaCapital, o governador exagera em relação à administração FHC, cuja maior façanha foi ter levado três vezes o Brasil à bancarrota. 

Aécio acredita que a sua candidatura teria, de início, o poder de desarrumar os acertos da base em torno de Lula. Caciques do PMDB, por exemplo, nunca esconderam a vontade de apoiar o mineiro ou até tê-lo como candidato do partido. O próprio presidente da República, antes de se decidir por Dilma, estimulava o governador a trocar de legenda e acenava com um eventual apoio. O PP, o PDT e o PTB são outros satélites que se sentiriam mais confortáveis na órbita do tucano do que na da petista. Até o PSB de Ciro Gomes, histórico aliado do PT, poderia rachar. Ciro, por exemplo, declarou inúmeras vezes que desistiria de uma disputa presidencial caso o governador se lançasse. O deputado acha, porém, remotas as chances de o amigo vencer a disputa interna. “Serra certamente vai sair candidato. Tem hegemonia dentro do partido e sabe que é a sua última chance. Mas vem aquela vozinha: e se eu perder?” O Planalto, diga-se, comemora. Os marqueteiros e estrategistas governistas preferem, de longe, enfrentar Serra. 

“Minha preocupação é superar essa disputa de poder entre o PT e o PSDB. Fazer uma campanha sem ódio, sem radicalismo, sem essa inócua busca pela paternidade deste ou daquele programa. Isso não é um concurso de pontos. Quero inspirar esperança nos eleitores”, afirma Aécio.

Seria possível evitar o caráter plebiscitário em 2010? E mais: o que a oposição vai apresentar no ano que vem, ante a cada vez mais concreta possibilidade de a economia estar crescendo 5% ao ano e gerando novos empregos? 

“Engana-se quem pensa que o tema gestão pública é árido. Podemos e precisamos mostrar aos brasileiros que uma administração eficiente significa a boa aplicação do dinheiro público e transforma a vida das pessoas. O Brasil necessita de uma reforma política. Começaria por aí, antes de tudo. E faria a da Previdência. Tenho certeza de que o PSDB também faria uma política monetária mais ousada e evitaria a perda de espaço da indústria brasileira. O País pode crescer muito mais, atingir níveis asiáticos, chineses.” 

Não é um discurso que a base governista pode fazer? 

“Devemos ressaltar a necessidade de uma reforma do Estado, fazer diferente do governo atual, que tem inchado a máquina, tem 40 ministérios. Há aqui em Minas um Nordeste, o Vale do Jequitinhonha. São 2,5 milhões de -habitantes no Semiárido. Nos últimos oito anos investimos lá o dobro por morador do que em outras regiões do estado. Resultado: o índice de mortalidade infantil foi o que mais caiu no País. Ampliamos a oferta de água e esgoto. Até 2010, o nosso Luz para Todos, que tem 70% de verbas estaduais, terá levado energia a todas as propriedades rurais. Há muito o que mostrar.” 

No momento, a depender do viés de cada um, é possível torturar os dados das pesquisas até que eles confessem o que quer o analista. Mas tentemos, com o auxílio de Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, interpretar friamente os números. A base é a última pesquisa do Sensus encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes e realizada entre 31 de agosto e 4 de setembro. 

Sobre o nível de conhecimento dos postulantes: Serra é conhecido por 94% dos eleitores, por conta do recall de sua candidatura presidencial de 2002 e da exposição maciça na mídia, na sua maioria sediada em São Paulo. No caso de Aécio, o índice cai a 70%. Dilma Rousseff é reconhecida por 83%, Ciro Gomes por 87%. Já Heloísa Helena atinge o patamar semelhante ao de Dilma, enquanto Marina Silva está na mesma situação de Aécio.

Sobre rejeição: 29,1% não votariam em Serra de jeito nenhum. Aécio é rejeitado por 26,3%. Dilma beira os 38%, Ciro encosta nos 40%, assim como Marina. HH chega a 43%. 

“Historicamente, quem tem em torno de 35% de rejeição está no jogo e quem beira ou passa dos 40% está fora, pois as chances de chegar ao segundo turno são muito pequenas”, explica Guedes. Primeira conclusão: HH, Marina e Ciro seriam inviáveis eleitoralmente. Dilma equilibra-se em um patamar perigoso. Os tucanos estão em posições confortáveis. 

Para aumentar as chances da ministra da Casa Civil, diz Guedes, Lula precisa conseguir transformar a eleição em um plebiscito em que o eleitor identifique na candidatura oposicionista um risco às conquistas sociais dos últimos oito anos. Conseguirá? “Por enquanto, e ainda é cedo para tanto, o eleitor não definiu os critérios com os quais julgará a disputa. Vai depender também da postura do adversário e do estilo das campanhas.” 

Parênteses: quem duvida de que uma candidatura Serra, cujo sustentáculo eleitoral e intelectual é a classe média preconceituosa de São Paulo, facilita a criação da polaridade Nordeste versus Sudeste, pobres contra ricos e todas as suas variações possíveis.

De volta às análises de Guedes. Serra é um candidato competitivo, mas está longe de empolgar a plateia. Em todas as simulações de segundo turno, seja quem for o adversário, o governador de São Paulo nunca arregimenta mais do que metade dos votos. “Em geral, um candidato realmente vencedor atinge uns 65% no segundo turno.” 

Paira ainda a dúvida sobre a real capacidade de Lula transferir votos. O presidente metalúrgico, que completou 64 anos na terça-feira 27, é um fenômeno político peculiar. E talvez, nas próximas eleições, ele venha a surpreender também neste quesito (o que lhe permitiria repetir uma de suas frases preferidas: “Nunca antes na história...”). A série estatística recomenda, porém, cautela da base governista.
Guedes acha que a capacidade de transferência é pequena e cita como exemplo o atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, do PSB. Neófito em campanhas majoritárias, apesar de longa militância política, Lacerda teve o apoio de Aécio e do petista Fernando Pimentel, então prefeito, ambos na casa dos 70% de aprovação. Mesmo assim, tendo enfrentado outro estreante e desconhecido, o jovem deputado do PMDB Leonardo Quintão, obteve apenas 31% dos votos totais no primeiro turno e 33% no segundo turno, ante um nível de brancos e nulos de 28%.

O governador de Minas, baseado em pesquisas internas do PSDB, calcula que Lula agregaria a Dilma entre 7 e 8 pontos porcentuais. A ministra receberá naturalmente mais 20% dos tradicionais eleitores petistas. Daí, calcula Aécio, a expectativa de que a candidata governista alcance os 30% entre o fim deste e o início do ano que vem. “A partir desse ponto, o crescimento vai depender das qualidades dela.” 

De acordo com o ex-prefeito Pimentel, a oposição subestima a influência do presidente. A grande massa de eleitores das classes C, D e E, argumenta, está mais preocupada com a luta diária e ainda não despertou para o processo eleitoral. “Quando a campanha na tevê começar, o Lula colocar a mão no ombro da Dilma e disser ‘esta é a minha candidata’, não tenho dúvidas de que ela subirá como um foguete.” Para o ex-prefeito, o presidente escolheu o melhor quadro de seu governo. “Ela não é só uma excelente gerente. É quem tem a melhor concepção de Estado.” 

Como em todos os recantos nesta primavera úmida, inclusive em Brasília, é difícil enxergar o horizonte com clareza. Mas ainda as peças se movem rumo ao futuro. Lula não quer perder o controle de sua própria sucessão e costura as alianças necessárias a seu projeto. Aécio tem poucas alternativas no momento e movimentou o tabuleiro, antes de tudo, para evitar um xeque-mate. 

E há Serra, diante de seu dilema hamletiano. Ser candidato à Presidência, viver assombrado pelos que ele chama de florentinos, sempre dispostos a apunhalá-lo, e equilibrar-se em um partido cujas ideias econômicas divergem essencialmente das suas. Ou não ser e carregar a eterna angústia do que poderia ter sido. Haja nervos de aço.

*Colaborou Cynara Menezes

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