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Política
FECHAR Gilberto Nascimento*

Em busca da verdade

19/03/2009 19:16:12

Gilberto Nascimento*

A família de João Goulart encaminhou à Procuradoria Geral da República, em 2008, um pedido de investigação sobre o suposto assassinato do ex-presidente. Diante da morosidade das autoridades, o filho de Jango, o produtor rural e ex-deputado João Vicente, 52 anos, presidente do Instituto João Goulart, ameaça ir às cortes internacionais. Também pretende encaminhar uma ação cautelar no Supremo Tribunal Federal (STF). 

Acompanhe a sequencia da reportagem "Jango assassinado?" na edição impressa, que chega às bancas a partir desta sexta-feira 20.

CartaCapital – O que o senhor concluiu com os dados reunidos até agora?
João Vicente –
Protocolei na Comissão de Anistia da Câmara dos Deputados tudo que descobri na documentação. Por exemplo, o normal em cada embaixada, em cada representação diplomática é ter apenas três adidos militares. Chegou ao cúmulo da embaixada em Buenos Aires, em 1975 ou 1976, em plena Operação Condor, ter 31 militares dentro da embaixada. Claro que eles não estavam como adidos militares, mas como administrativos. Levantei os nomes e protocolei uma carta na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, mas não houve nenhum resultado.

CC – E a investigação sobre a morte de Jango?
JV –
Um dos fatos que deram embasamento para a ação foi uma declaração, quase como um réu confesso, do ex-embaixador Lincoln Gordon. Ao lançar no Brasil seu livro (A Segunda Chance do Brasil a Caminho do Primeiro Mundo), ele disse que havia dado 5 milhões de dólares para derrubar Jango. Ele esteve aqui em 2002. Nós, da família, queremos processar o governo dos EUA e a CIA, responsabilizá-los criminalmente. Para isso, esperamos uma definição do Superior Tribunal de Justiça.

CC – É possível mover esse tipo de processo?
JV –
É uma tese muito debatida internacionalmente, se o Estado brasileiro tem ou não jurisprudência para acionar outro Estado dentro do nosso País. O que houve no Brasil foi um ato de ingerência. A verba era secreta, veio através da CIA, financiou políticos nas eleições de 1962 contrários às reformas de base de Jango.

CC – Nunca houve investigação?
JV –
Em 1963 houve uma Comissão Parlamentar de Inquérito nunca concluída. Presidida, nada menos, pelo deputado Ulysses Guimarães e cujo relatório nunca foi entregue. Mas deveria estar nos anais do Congresso Nacional. Eu protocolei um pedido à Câmara dos deputados e, pasmem, ninguém nos dá resposta. Porque nesse relatório estariam cento e tantos nomes dos parlamentares que foram financiados nessa CPI. Eu acredito plenamente que sumiram com essa história e nem o presidente atual da Câmara dos Deputados tem força para mostrar isso para a sociedade brasileira. Nesse País a memória nacional é tratada como lixo. Protocolamos na Comissão de Direitos Humanos da Câmara para que o presidente tivesse pelo menos a coragem de chamar esses militares que foram adidos na embaixada. Estão vivos, perambulando por aqui. E isso ocorre também no Ministério Público gaúcho. Ficaram de investigar e a questão está parada há um ano.

CC – Quando vocês começaram a se mobilizar para que a Justiça investigasse a morte de Jango?
JV –
Começou quando nós produzimos um documentário em convênio com a TV Senado e em conjunto com o Instituto João Goulart. Eu fui como repórter à prisão de segurança máxima de Charqueada, para falar com esse ex-agente uruguaio (Mario Neira Barreiro) preso por contrabando de armas, falsidade ideológica, entre outras coisas. Foi preso há uns sete anos e ainda está lá. Ele deu o depoimento de que tinha participado da Operação Escorpião, a que matou meu pai, e então preparamos um pedido de abertura de ação civil pública.

CC – Pelo que eu li, há muitas denúncias sobre a forma como seu pai teria morrido. Para vocês é claro que ele foi assassinado?
JV –
Para nós não resta duvida. O que está faltando é a oitiva. Temos que escutar o Michael Townly, um agente protegido. Ele mora nos EUA com outro nome, sob a proteção do governo americano, mas é colocado diante de autoridades quando solicitado pelo Supremo Tribunal de lá. Precisamos ouvir o Frederick Latrash, que estava na equipe da CIA em 1973 para derrubar o Salvador Allende. Depois ele foi para a Bolívia e em 1976 participou da reunião em Montevidéu com o delegado Sérgio Fleury, que condenou o Jango a morte. Nós vamos entrar com o último pedido. Caso não tenhamos uma resposta digna, nós vamos para as cortes internacionais.

CC – O agente Barreiro está preso por outras razões. Por essa questão jamais ele foi ouvido?
JV –
O que nós temos visto na imprensa é uma tentativa de desqualificá-lo, dizendo que ele é um mentiroso, que foi preso por roubo... Mas nós não fomos à presença dele a procura de um atestado de bons antecedentes. Depois que houve a abertura política nos países que pertenceram ao terrorismo de Estado nos anos 70, todos esses agentes partiram para o crime, porque eles ficaram como arquivos ambulantes de uma época que ninguém mais queria saber deles. O último passo que eu descobri de Latrash é que foi assessor do John McCain. Eu provei que ele era assessor do John McCain e ex-agente da CIA até 2004.

CC – Recentemente, o ouvidor da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, da Presidência, Fermino Fecchio, esteve em Charqueada. Qual foi o objetivo dessa visita?
JV –
Foi acompanhar a comissão, presidida pelo deputado Adrualdo Loureiro, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Foi aberta uma subcomissão de investigação que chegou a conclusões gravíssimas e as encaminhou ao Ministério Público. Nós precisamos que a nossa Justiça tenha coragem e assuma o papel de investigar a nossa história. Não queremos revanchismo, queremos a verdade.

CC – O senhor está estudando essa questão do “agente B”? (o “agente B” é um araponga que conviveu intimamente com o ex-presidente durante o exílio no Uruguai).
JV –
Eu não sei quem é o agente B. Alguns arquivos estão sendo liberados, mas nós sabemos quem ele é. Isso está com o Exército brasileiro. Sabemos que o “agente B” subtraiu coisas importantes da nossa história e do acervo do João Goulart.

CC – O senhor acha que parte dos documentos não foi liberada?
JV –
Acho, porque nós não sabemos quem é o “agente B”.

CC – E o Exército brasileiro tem essa informação?
JV –
Isso é evidente. Nós temos absoluta certeza.

CC – Foi a ministra Dilma que reuniu a documentação?
JV –
Foi ela que, corajosamente, nos liberou essa documentação para que pudéssemos começar a pesquisar João Goulart. O governo João Goulart deve ter sido o único a não preparar sua saída. Os documentos do governo ficaram nas gavetas do palácio da ditadura.

CC – Ela requisitou aos órgãos do governo o que havia de documento e forneceu pra vocês?
JV –
É, mas muitos órgãos não atenderam ao pedido. Senão teria muito mais coisa.

CC – O senhor pensa em processar o governo?
JV –
Isso dá processo. A ditadura militar me deve esses documentos.

CC – O senhor acha que seu pai foi envenenado?
JV –
Se espiões, a mando do serviço secreto brasileiro, entram no apartamento da nossa família, que estava exilada no Uruguai, para roubar documentos, eles não poderiam ter trocado os remédios que o meu pai tomava? 

*Colaborou Manuela Azenha

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(Crédito da foto: Fábio Motta/AE)

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