Os militares aproveitaram uma manifestação do presidente Lula para contra-atacar. Durante evento na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) e, em seguida, no encontro com comandantes das Forças Armadas, Lula procurou diminuir o impacto sobre a punição a torturadores da ditadura. Disse que, em vez de xingar os algozes, deveríamos tratar os mortos não como vítimas, mas heróis. As casernas interpretaram a frase como um sinal de que a Presidência quer o fim de qualquer discussão a respeito dos crimes cometidos naquele período.
Mero desejo. Ainda que Lula tenha contemporizado diante do comando militar, não seria possível interromper o debate. A bola não está com o Executivo, apesar de o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, terem defendido publicamente punições, mas nos pés do Ministério Público Federal e do Judiciário. E não só.
Se a Justiça brasileira entender que os militares autores de crimes como tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados não devam ser punidos, isso não significa necessariamente que o caso estará encerrado. Torturadores e mandantes podem ser processados em outros países e receber, por exemplo, a mesma condenação que alvejou o ditador chileno Augusto Pinochet. Morto em 2006, Pinochet foi preso dois anos antes na Inglaterra, a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, por causa de crimes cometidos pela ditadura no Chile. Garzón, coincidentemente, estará em São Paulo na segunda-feira 18, justamente no momento em que o debate esquenta no País. O juiz é a estrela do seminário Direito à Memória e à Verdade, organizado por CartaCapital e pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos.
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